Domingo, 18 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Sobre pais e filhos

Adauto Suannes

Deu na Sensatez Jornalística: "Não temos o direito de transformar escu-ras tragédias humanas em mercadorias comerciais e vendê-las como produtos massificados." – Acompanho o voto do meu eterno relator e sempre mestre.

segunda-feira, 19 de junho de 2006


Sobre pais e filhos


Adauto Suannes*


Deu na Sensatez Jornalística:

"Não temos o direito de transformar escuras tragédias humanas em mercadorias comerciais e vendê-las como produtos massificados." (Migalhas 1.427 - 5/6/05 - Alberto Silva Franco)

Acompanho o voto do meu eterno relator e sempre mestre.

Certas pessoas, especialmente as que o destino colocou em certos cargos, não têm o direito de exibir sua insensibilidade e sua ignorância, privada ou publicamente. Panis et circensis. Em nome de que princípio ético?


Fosse possível um diálogo civilizado entre nós e eu as escandalizaria dizendo-lhes que o fato de um filho ou uma filha matar o pai ou a mãe surpreende-me menos do que uma pessoa matar um estranho. Enquanto neste segundo caso não há ligação clara entre matador e vítima (possivelmente, apenas projeções e transferências psicológicas), na relação entre filhos e pais há uma enorme constelação de mágoas e ódios recíprocos, muitas vezes mal administrados e que acabam por levar a tragédias maiores ou menores.


Aqueles que vêm a público bradar contra um tal crime (preciso deixar claro que não estou a aplaudir os indigitados autores dele?) parecem desconhecer (ou efetivamente desconhecem) que os críticos se estão pondo na situação que criticam, também num processo de identificação psicológica em relação à vítima.


A idéia é mais ou menos esta: "Meus filhos têm motivo de sobra para me matarem, pois tendo eu sido um mau pai (ou mãe), como todos os pais e mães assim nos julgamos, mereço ser punido. É preciso, porém, que se castigue exemplarmente os jovens patricidas e matricidas, para que isso sirva de escarmento (ou seja, para que meus filhos percebam o que lhes acontecerá se fizerem o mesmo em relação a mim)."


Vamos aos mitos. Saturno, em visita a um oráculo, soube que ele perderia o trono para um de seus filhos, que o trairia (assim como ele havia feito com seu pai). Furioso, (ele sabia muito bem aquilo de que é capaz um filho!), põe-se a devorar os próprios filhos para assim impedir que eles o viessem a destronar (como ele, recorde-se, fizera com o pai). Há um quadro do Francisco Goya que retrata isso magnificamente. Salvador Dali também cuidou do tema, porém, em peça menos impressionante.


E não foi sobre a conflitiva relação pai/filho, constante de um mito, que Sigmund Freud construiu o edifício de sua psicanálise? Diz o tal mito, narrado por Sófocles, que o filho de Laio e de Jocasta foi abandonado ao nascer no Monte Citerão, já que Apolo havia predito a Laio que, se ele gerasse um filho, este o mataria. O criado, encarregado de sumir com a criança, perfurou-lhe os pés com um gancho de forma a poder pendurar o menino numa árvore. Isso explicaria o fato de a criança, ao ser encontrada por alguns pastores, ter sido chamada de Édipo, que em grego significa pés inchados. Édipo foi adotado pelo rei Políbios e tornou-se príncipe de Corinto. Soube ele, porém, por um bêbado (in vino veritas, lembra?) que era filho ilegítimo do rei. O rei, indagado por Édipo, procura tranqüilizá-lo, mas, insatisfeito com a resposta vaga dada por seu pai, Édipo recorre ao Oráculo de Píton, mais tarde conhecido como Delfos. O oráculo também evita responder à sua dúvida, mas dá a terrível informação de que Édipo está destinado a matar o pai e casar-se com a mãe, tal como predissera Apolo. Como Édipo não tem a menor intenção de deixar que isso aconteça, foge de Corinto e vai para Tebas. Em uma encruzilhada, Édipo depara-se com uma carruagem, à frente da qual vem o arauto, que lhe ordena que se afaste do caminho, para dar passagem a alguém importante que por ali vem. Trava-se então uma briga e Édipo termina matando todo mundo que ali se encontra. Eis a fatalidade: um dos homens que vinha na carruagem era precisamente seu pai verdadeiro, o rei Laio de Tebas. Cumpriu-se, assim, a profecia.


Mas quem se preocupa hoje com essa bobagem chamada cultura? Quem tem tempo para ler Freud, Jung ou Joseph Campbell? Os mitos estimulam a tomada de consciência da nossa perfeição possível, a plenitude da nossa força e a introdução da luz solar no mundo, diz-nos Campbell. “O homem não cria mitos; eles os descobre”, ensina-nos ele. Melhor, porém, para muitos, acompanhar a novela das oito.


Pois nada como a relação Freud/Jung para nos ensinar algo que muitas vezes vem embutido nessas novelas. Quando Carl Gustav Jung conheceu Sigmund Freud, ficou deslumbrado com a inteligência do mestre, cerca de 19 anos mais velho do que ele. Em carta enviada a Freud, confessa sua dificuldade em assumir essa admiração filial, pois o menino Carl Gustav havia sido vítima de abuso sexual e Jung não desconhecia a carga homossexual que há nesse tipo de atração. Freud, porém, aceita a paternidade espiritual, dizendo ser Jung seu filho mais brilhante e seu herdeiro. A troca de cartas entre eles constitui um livro de tamanho regular. Nele, publicado pelos herdeiros de Jung somente depois de 30 anos de sua morte, por vontade dele, pode-se acompanhar a tempestuosa relação entre “pai” e “filho”, pois este não se conformava com o materialismo daquele, e aquele via com desdém paternal a preocupação de Jung com a espiritualidade, o que quer que isso significasse. Para Jung, havia muito exagero no pansexualismo da doutrina freudiana, enquanto Freud não aceitara as preocupações de Jung com a parapsicologia, que, para o austríaco, era mero ocultismo. Paternalmente, Freud dizia a Jung que o tempo lhe mostraria que seu mestre é que estava certo.


Quando Jung aconselhou o "pai" a que deixasse de tratar seus “filhos” como se todos fossem doentes, Freud agastou-se com isso e, numa carta, enviada no início de 1913 (a correspondência entre eles se iniciara em 1906) em que, em lugar do costumeiro “querido amigo”, se dirige a Jung chamando-o de “Diretor” (da Associação Psicanalítica Internacional) e “professor”, declara ser melhor para ambos que não mais se contatassem dali em diante. Eis aí um autêntico filicídio.


O rompimento do “cordão umbilical” deixou Jung, ainda que fosse quem já era, completamente aturdido. Em sua autobiografia (“Memórias, sonhos e reflexões”), o filho abandonado se diz simplesmente “desorientado”, tanto mais que quase todos os outros “filhos” ficaram ao lado do “pai”, coisa comum nessas ocasiões, fato, porém, que o deixou à beira de um esgotamento nervoso. O livro escrito por Jung, sobre a esquizofrenia, agora era, segundo queixa dele, considerado um lixo e ele, seu autor, era apenas um “místico”.


Foi, porém, certamente a partir desse rompimento que Jung pode desenvolver suas teorias, que o afastaram cada vez mais das idéias do “pai”, algo fundamental para aquilo que o próprio Jung viria a chamar “processo de individuação”. “Matar” o pai (ou a mãe), aliás, é algo que se aprende em psicoterapia, quando projeções, transferências e identificações psicológicas nos deixam tão aturdidos como nosso mestre Jung.


Para muita gente (a maioria das pessoas), quando falamos em mitos e lendas estamos falando de mentiras. Segundo Campbell, os mitos são narrativas poéticas de fatos transcendentes. O problema é que costumamos “historicizar” as imagens míticas e aí pagamos o preço de não compreendermos o sentido do mito. A propósito, pergunte a um judeu qual foi a criança que, logo que nascida, foi posta num cesto de vime e colocada num rio, vindo a ser achada por uma princesa. Estou, porém, falando de Sargão I, rei da Suméria, que nasceu séculos antes de Moisés. Ou pergunte a um cristão em que ano nasceu Jesus de Nazaré. Ele não saberá responder ou, na maioria das vezes, responderá errado. Na verdade, o fato histórico é que Jesus de Nazaré nasceu 5 ou 6 anos antes do início da Era Cristã. É o que dizem os historiadores mais bem informados.


Aliás, os cultores do Direito sabem muito bem o nome do legislador que recebeu da divindade os mandamentos que deveria impor a seu povo. Seu nome era Hamurabi, nascido em 1728 a.C. (Moisés teria nascido 500 anos depois) e que é mostrado na famosa Estela de Hamurabi, encontrada por arqueólogos franceses em Susa (região onde hoje está o Irã). Segundo seus biógrafos, ele não se considerava relacionado com nenhum deus, ao contrário de Moisés, mas se intitulava "o favorito dos deuses". Tanto que na parte superior do tal monólito, Hamurabi é mostrado em frente ao trono do rei Sol Shamash, fenômeno que viria a ser novamente mostrado muitos séculos depois no famoso incidente da “sarsa ardente”. Logo abaixo da imagem estão escritos, em caracteres cuneiformes, as regras baixadas por Hamurabi, por inspiração do deus Sol, dentre as quais a famosa “pena de talião”, que o Torah de Moisés (Ex. 21, 24) viria a adotar séculos depois.


Eis alguns exemplos da diferença entre Fé e Ciência, que lidam com realidades distintas, que, no entanto, bem compreendidas, não se podem excluir, mas se complementar.


Aliás, nada como a história desse mesmo Jesus de Nazaré para mostrar o sempre presente conflito pai/filho. Ele foi alguém que se identificou com o pai (“Se me conhecêsseis, conheceríeis também meu Pai” – Jo 8,19), abriu mão de sua vontade para submeter-se à vontade paterna (“Eu não vim pela minha vontade, mas é verdadeiro Aquele que me enviou” – Jo 7,16; “Seja feita a Tua vontade” – Lc 11,10) e ainda reclamou das conseqüências (“Por que me desamparaste?” – Mt 27,45). Isso em nada diminui a importância da mitologia religiosa (no sentido proposto por Campbell), muito pelo contrário. Se os judeus se conscientizassem de que “povo eleito” é toda a Humanidade (que levaria Deus, que é, por definição, justo, a preferir este povo àquele?) e que “terra prometida” não é um local físico (a imagem do Éden representa tudo aquilo que estava fora do alcance imediato da experiência concreta dos autores da narrativa, que só conheciam o inóspito areal à sua volta), não haveria tanto derramamento de sangue na Palestina.


E se o cristianismo fosse menos preocupado com a Ética (Jesus mandou às favas a Ética quando dispensou a mulher adúltera – cf. Jo 8, 11) e mais preocupado com a experiência mística pessoal (“Ai de vós, doutores da lei, porque impondes aos homens fardos impossíveis de carregar” – Lc 11, 45), como diz Campbell, as conseqüências também seriam outras para todos os cristãos e também para a Humanidade (preciso lembrar fatos históricos como as Cruzadas e a Inquisição?).


Paremos, no entanto, por aqui, pois o defunto não merece tanta vela, até porque, quem se dispõe hoje a refletir sobre coisas como essas ?

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*Desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família)







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