Terça-feira, 16 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

Juventude sem futuro

Sylvia Romano

Segundo estudo recente publicado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), o desemprego entre jovens de 16 a 24 anos é quase três vezes maior que o registrado na população com idade superior a 25 anos. Como esta juventude vem ocupando seu tempo? Este mesmo estudo comprova que esta população não está na escola, pois comparando 2006 com 2004, houve um decréscimo de 1,51% no número de matrículas. Não tenho dados de quantos estão praticando esportes, nem de quantos estão se dedicando às artes, mas percebo que muitos estão na contravenção.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006


Juventude sem futuro

Sylvia Romano*

Segundo estudo recente publicado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), o desemprego entre jovens de 16 a 24 anos é quase três vezes maior que o registrado na população com idade superior a 25 anos.

Como esta juventude vem ocupando seu tempo? Este mesmo estudo comprova que esta população não está na escola, pois comparando 2006 com 2004, houve um decréscimo de 1,51% no número de matrículas. Não tenho dados de quantos estão praticando esportes, nem de quantos estão se dedicando às artes, mas percebo que muitos estão na contravenção.

Dados alarmantes publicados e os noticiários policiais diários sinalizam que estamos vivendo uma guerra interna, onde tendências políticas ou religiosas não são as causas do conflito, mas um universo de desigualdade econômica, incentivado por um governo que descobriu que é muito mais fácil dominar através dos ignorantes do que por uma elite um pouco mais informada.

Falando em elites, li outro dia a frase lapidar de uma candidata — a quem respeito — que o problema do Brasil não é a elite, mas a falta dela. Outro fator preocupante é a escalada dos criminosos, que hoje dominam nosso sistema carcerário, no qual pertencer ou trabalhar para as facções fornece o status que o jovem procura. E se o mesmo for menor de idade, mais fácil ainda se engajar no sistema, já que nossas leis garantem impunidade a estes menores facínoras, o que os tornam muito requisitados para o crime, seja para praticá-los, seja para assumi-los.

E a família destes jovens? A maioria tem pais desempregados e mães omissas quanto às suas responsabilidades, seja por estarem trabalhando, por desinteresse em assumir a maternidade ou, mesmo, por falta da condição humana em função da má formação familiar de seus antepassados. Filhos são fáceis de fazer, o difícil é a sua criação. Já dizia um ditado do século passado: “A formação de uma criança começa cem anos antes do seu nascimento”. E o mais impressionante é que algumas religiões ainda condenam o controle de natalidade e o uso de preservativos por acreditarem, ainda hoje, que sexo é só para reprodução.

Onde estão os empregos, onde entra o governo e o que a sociedade está fazendo para mudar essa situação? Quais as perspectivas para um jovem, qual será o seu futuro? Quando lembro quantas vezes li a “Oração aos Moços”, de Rui Barbosa, acho que o que ele escreveria hoje seria: “Não nasçam”. Ou melhor, diria aos que já nasceram: “Não procriem, pois com certeza o que vocês deixarão àqueles que mais amarão na vida, será um mundo de incertezas, inseguranças e, principalmente, sem esperança”.

Não estou desencantada com a natureza humana, estou sim desiludida com o que essa geração de autoridades dominantes tem feito com a sociedade que os elegeu. Estou muito preocupada com o futuro dos jovens e com a falta de perspectiva e projetos de toda uma geração.   

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*Advogada do escritório Sylvia Romano Consultores Associados



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