Domingo, 19 de maio de 2019

ISSN 1983-392X

Pasta, Vino e Tangente

Jayme Vita Roso

Na Itália de nossos dias, continuam as modas, as maneiras e os comportamentos dos que têm emprego público e os políticos em todos os quadrantes a gozarem e a usufruírem benesses e extravagâncias dignas de sultões dos Emirados. Quem já viveu algum tempo, sobretudo em Roma, sem os olhos vítreos dos turistas, constatou carros oficiais luxuosos, devidamente escoltados, entrando na contramão, em lugares proibidos, em ruas sem saída, e estacionarem para um personagem qualquer do parlamento, ou da nomenklatura ou do judiciário, ou do executivo, descer à porta de um edifício, exatamente, no Centro Histórico da Cidade.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007


Pasta, Vino e Tangente1

Jayme Vita Roso*

"Não podemos fugir nem mesmo diante dos perigos e inconvenientes que são inerentes a posicionar-se e a envolver-se. Não há saída em particular para aqueles que buscam transformações de vidas verdadeiras. É necessário, sim, ter coragem, não no sentido "capa-espada" pelo qual somos tão facilmente atraídos, mas na direção apontada por Amélia Earhart: "Coragem é o preço que a vida exige para auferir-nos paz. A alma que não conhece isto também não conhece libertação das pequenas coisas".*

Na Itália de nossos dias, continuam as modas, as maneiras e os comportamentos dos que têm emprego público e os políticos em todos os quadrantes a gozarem e a usufruírem benesses e extravagâncias dignas de sultões dos Emirados. Quem já viveu algum tempo, sobretudo em Roma, sem os olhos vítreos dos turistas, constatou carros oficiais luxuosos, devidamente escoltados, entrando na contramão, em lugares proibidos, em ruas sem saída, e estacionarem para um personagem qualquer do parlamento, ou da nomenklatura ou do judiciário, ou do executivo, descer à porta de um edifício, exatamente, no Centro Histórico da Cidade.

Conhecem-se as maracutaias que vêm ocorrendo, há decênios, no Quirinale do Presidente da República. Lá os gastos com supérfluos são estimados em dez vezes a mais do necessário para manter a hipócrita respeitabilidade do cargo.

Conhecem-se os salários dos deputados italianos eleitos (30.000 euros por mês) para o Parlamento Europeu em Bruxelas: são os mais altos do que todos os demais e, eleitos por uma vez, quiçá, tomando posse para completar um mandato que se finda , passam a adquirir direito de aposentadoria por toda a vida, com benefícios a descendentes, além de estadias, bilhetes aéreos, verbas de representação, tratamentos médicos e odontológicos, escolas para os filhos e outros favores nababescos (em 2005, 127.000.000 Euros).

O povo italiano, após passar por desastrosos governos socialistas e pelo inferno berlusconiano, está como o brasileiro se tem mostrado: abúlico, amorfo, indiferente, gastador, predador, amoral e interessado em lucro rápido e fácil.

Para contrapor à generalizada inércia ética, dois jornalistas milaneses Gian Antonio Stella e Sergio Rizzo acabam de publicar um livro que está vendendo como panini (sanduíches). "A Casta - como os políticos italianos se tornaram intocáveis".2

As principais pérolas que coletamos – sem fazer inveja ao que ocorre no Brasil porque parelhas – são: a) o Palácio do Quirinal emprega 1500 pessoas, dentre elas dois relojoeiros, ou quatro vezes mais do que o Buckingham, da Rainha da Inglaterra, ao custo de, em 2007, 224.000.000 Euros; b) com a supressão do financiamento dos partidos nas eleições, pelo referendo de 2003, a classe política votou e o executivo sancionou algumas fórmulas pecaminosas de "reembolsos eleitorais (em 2006, 200.819.044 Euros)"; c) o Cavalieri (Berlusconi), só para ele, quando Primeiro Ministro, tinha à disposição oitenta e um guarda-costas e, embora não mais o seja, ainda mantém, às custas do erário, vinte e cinco, e, além disso no último ano do seu "governo", os aviões pertencentes ao Estado italiano, conseguiram alterar o calendário gregoriano, porque voaram trinta e sete horas por dia (logicamente, pagaram pilotos, comissárias e demais empregados, segundo as horas trabalhadas em cada dia que tinha trinta e sete horas); d) o governo Prodi, este, que andava de bicicleta antes de ser Primeiro Ministro, atualmente, conta com 105 ministros e subsecretários de Estado; e) a administração pública contratou 146.518 "aspones", em 2004, pagando-lhes a bela soma de 1.097.000.000 Euros.

A desmoralizada classe política peninsular, que não tem nenhum respaldo na opinião pública, - como ocorre no Brasil, mormente após o julgamento secreto no Senado – consegue gastar, consumir e despender sozinha, mais do que os parlamentos da Alemanha, Inglaterra e Espanha juntos.

A sobrevivência da Itália está por um fio, porque as rígidas normas comunitárias, não podem ser mais complacentes para com o desgoverno peninsular, ao desarme ético3 e à desenfreada corrupção tão combatida pelo Banco Mundial.4

O dia e a hora da verdade estarão se aproximando, se a lavagem de dinheiro e a corrupção, com o destino do dinheiro arrecadado, detectado e seqüestrado, forem apuradas e investigadas. E seria interessante acabar o trabalho de busca do dinheiro remetido de Nápoles para a Escócia, iniciado há três anos pelo Ministério Público. Quanta surpresa se teria. Auguriamo.

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*BONDER, Nilton. O crime descompensa. São Paulo: Imago, 1992. p. 76.

1 Tangente, do latim, tangens-entis. Particípio presente de tangere= tocar (acosta, alguma coisa a alguém ou coisa a fim de fazer contato). Compensação ilícita dada para favorecer um negócio ou semelhante. Por extenção, “a chi tocca, tocca”, ou a sorte vem por acaso. Dizionário Italiano, Verbete tangente, Rizzoli Libri Spa, Milão, 1988.

2La Casta, Sergio Lizzo e Gian Antonio Stella, Rizzoli Editori, Milão, 2007.

3 F. Blázques Carmona, A. Devesa del Prado e M. Cano Galindo, Dicionário de términos éticos, editorial Verbo Divino, Estella (Navarra), Espanha, 1999.

4 The many faces of corruption – Tracking Vulnerabilities at the Sector Level, Editado por J.Edgardo Campos e Sanjay Pradhan, The World Bank, Washington, 2007. Na Parte II e na Parte III são particularmente cuidados a corrupção e o sistema de administração do financiamento público e também "para onde vai o dinheiro?".

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*Advogado do escritório
Jayme Vita Roso Advogados e Consultores Jurídicos














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