Quarta-feira, 16 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Para não dizer adeus

Edson Vidigal

Coisas antigas, algumas nem muito antigas, vão ficando no gaveteiro invisível da memória, tipo assim um encontro casual em que as emoções emergindo devagar, mas como se fossem a eternidade conclusa, escalam o ápice do indelével.

quarta-feira, 9 de julho de 2008


Para não dizer adeus

Edson Vidigal*

Coisas antigas, algumas nem muito antigas, vão ficando no gaveteiro invisível da memória, tipo assim um encontro casual em que as emoções emergindo devagar, mas como se fossem a eternidade conclusa, escalam o ápice do indelével.

Talvez nem tenha dito nada até aqui. Mas ressuscitar emoções, querendo só aquelas que de tão bem guardadas às vezes parecem até bem esquecidas, é como querer ficar horas manuseando fotos antigas.

Hoje em dia já não se guardam fotos com os cuidados de outrora, envolvidas em papel de seda, bem arrumadas e facilmente encontráveis em pequenos baús de madeira, ou naqueles álbuns enormes.

Uma foto apenas, em sépia ou em preto e branco, fisga da memória até calendários inteiros. É como se aquele momento imobilizado no papel se movesse em regressos, chamando a todos, quero dizer inclusive os que nem estão na foto, mas que de alguma maneira tem a ver com aquele tempo.

Aqui na parede da varanda tem umas fotos muito antigas de senhores com aquele ar severo com que encaravam a lente do lambe-lambe, enchendo os pulmões para as poses que faziam parte do roteiro. As mulheres nas fotos à moda antiga estão muito bonitas, esbanjando dignidade e doçura. Duas eram mães, as outras já eram avós.

E o que dizer dos jornais antigos que não tinham cores, das revistas de poucas fotos, dos discos de acetato, dos long-plays de vinil? É uma velha mania minha, essa de ir guardando as coisas para um dia vê-las velhas.

Não só com as coisas, não. Sei que talvez nem seja bonito, mas houve um tempo em que, volta e meia, eu me pegava fazendo isso também com as pessoas, algumas só.

Se me prejudicassem, se me esnobassem, se me subestimassem, se me humilhasse, eu tinha minha forma silenciosa de vingança. Registrava tudo na mente e fingindo esquecer entregava ao tempo.

Não dizem que o tempo fere, que o tempo sara, que o tempo cura?

Ainda hoje dou gargalhadas em silêncio quando, passado tanto tempo, reencontro por aí as figuras defasadas para as alegrias da vida, muitas delas já com os prazos de validade vencidos.

Não tem nada mais acusador, expondo as pessoas em suas contradições ou idiotices, do que uma velha coleção de jornal. Agora mesmo estou vendo, como quem saboreia, uma coleção do Jornal Pequeno de 1965, mais exatamente dos meses que antecederam as eleições para Governador.

Lógico que em nada se compara àquela emoção dos retratos antigos, das fotos em sépia ou em preto e branco, da convocação dos indeléveis guardados no fundo do baú invisível que cada um de nós carrega na consciência.

É muito sério, quase nada sentimental. Em alguns momentos, comparando-se com o agora, até revoltante.

Os valores que sustentam os ideais democráticos não podem ser desperdiçados nem pela inveja dos vencidos nem pelo ódio dos inconformados por já estarem vendo passar o seu tempo de opróbrio.

A grande vantagem da república sobre a oligarquia é que, na república, o povo tem o poder de mudar os governantes. A imprensa pode e deve ser livre para expor as mazelas dos maus governantes. A oposição saída das urnas tem legitimidade para condenar e também aplaudir.

Então, nada de dizer adeus às armas.

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA




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