segunda-feira, 3 de agosto de 2020

ISSN 1983-392X

A seleção do Chile "mete miedo" dentro e fora do campo?

Diz o goleiro Bravo que “nosso coletivo funciona contra qualquer seleção”. E nas relações do trabalho?

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Em 1973, três meses antes do sangrento golpe de Estado de Augusto Pinochet, a banda chilena Quilapayún gravava a canção “El pueblo unido jamás será vencido” . Conhecida no mundo inteiro, essa é uma das músicas de protesto mais marcantes da história e, também, uma das mais famosas do movimento musico-social chileno. Anos mais tarde, o selecionado do Chile para a Copa 2014 parece entoar o refrão, que poderia ser traduzido na máxima da “união faz a força”. Aliás, o goleiro chileno Claudio Bravo reforçou essa idéia ao afirmar em uma entrevista que o “nosso coletivo funciona contra qualquer seleção”1. A Espanha que o diga!

O retrospecto do futebol chileno não faz jus ao impressionante desempenho que a equipe do técnico Sampaoli teve na fase eliminatória da Copa 2014. Com participação em 8 Mundiais, o melhor resultado do Chile foi um 3º lugar em 1962. Também ganharam uma medalha de bronze nas Olimpíadas de 2000. Contra o Brasil, jogaram 67 vezes e perderam 48, sendo que 3 derrotas aconteceram nos 3 confrontos realizados em Copas do Mundo. Mas, hoje, a realidade é outra. E o time brasileiro sabe disso, como deixou claro o técnico Felipe Scolari na entrevista coletiva concedida no último dia 23 de junho:

Se eu pudesse escolher, escolheria outra seleção (para enfrentar). Porque eu vi jogos do Chile, joguei contra o Chile e vi as qualidades. Algumas pessoas não viam dessa forma e achavam que o Chile seria descartado logo. Eu acho o (rival) mais difícil. Tem catimba, tem qualidade, organização. Eles têm tudo. (Felipe Scolari)

A idiossincrasia chilena, como era de se esperar, não se restringe ao futebol, alcançando a política e as relações do trabalho. Depois de enfrentar a colonização espanhola e a ditadura do General Carlos Ibanez, em 1970, o Chile elege democraticamente o socialista Salvador Allende, que pretendia “construir uma sociedade socialista em liberdade, pluralismo e democracia”. O projeto não chegou a se concretizar devido ao golpe de Estado encabeçado pelo General Pinochet. Além da violência e perseguição extremadas que caracterizaram o período de 1973-1990, o legado ditatorial parece incluir a concentração de poder e renda; a implementação do neoliberalismo por meio da privatização de empresas públicas, recursos hídricos, escolas públicas e setor da saúde (seguridade social); e o fim da reforma agrária.

O processo de transição democrática transcorreu (e transcorre) sem que houvesse ruptura com modelo neoliberal. Isso se deve, provavelmente, ao constante crescimento econômico do país (especialmente, na década de 1990) e a sua resiliência frente às diversas crises que eclodiram no mundo. Fatos que precisam ser analisados tomando em consideração as peculiaridades nacionais: dimensão e geografia do país, abertura do mercado nacional com a celebração de mais de 20 tratados de livre comércio, economia centrada na exportação de matérias primas e no setor de serviços, bem como relevância (e riscos) do investimento estrangeiro direto. O cuidado de contextualizar o bom desempenho da economia chilena é importante ante os sucessivos casos de fracasso do modelo neoliberal (sendo a crise financeira de 2008 o exemplo mais recente, que ainda assola a Europa). Nesse sentido, a desigual distribuição de renda no Chile e a conseqüente questão social reforçam a necessidade de cautela.

Efetivamente, as relações do trabalho comprovam a fragilidade do crescimento chileno e, portanto, do modelo econômico. Em que pese as reformas constitucionais, trabalhistas e processuais levadas a cabo desde a democratização, a legislação não garante o cumprimento dos direitos das pessoas trabalhadoras nem a eficácia das convenções da OIT ratificadas pelo país (dentre elas, as 8 fundamentais). Também não logra restituir às entidades sindicais a representatividade e a combatividade que foram debilitadas durante os anos da ditadura e que continuam enfraquecendo com a nova estrutura terceirizada do mercado de trabalho. As taxas de afiliação caíram durante a década de 1990, assim como a abrangência das negociações coletivas. As práticas antissindicais e a excessiva intervenção estatal restringem o exercício de direitos fundamentais como a greve. Esse quadro é agravado pelas deficiências do Poder Judiciário (justiça especializada em direito do trabalho e previdenciário) que sofreu reformas em 2008 por ser considerado “inoportuno, lento, formalista e ineficaz”.

É claro que esse retrato enfoca somente o sistema de relações do trabalho e que a história e a geopolítica de um país são muito mais complexas. Vale citar, por exemplo, a questão educacional chilena e suas correspondentes manifestações populares. Além de fatores naturais como, por exemplo, o terremoto de 2010. Componentes que devem ser ponderados em momentos de inflexão política como parece ter sido as últimas eleições presidenciais. Em um pleito com 59% de abstenção, Michelle Bachelet foi eleita para um novo mandato graças a uma coalizão que inclui desde democratas cristãos a comunistas e a promessa de abertura de uma nova etapa para o país. O programa de governo compreende profundas reformas: no âmbito das relações do trabalho, o fortalecimento dos sindicatos, a expansão da negociação coletiva e o fim da substituição dos trabalhadores grevistas; no setor educacional, a construção de um sistema educativo público, gratuito e de qualidade; na área social, a luta contra a desigualdade com aumento de impostos e gastos públicos; na área política, mudanças com vistas a aumentar a participação social. A nova gestão começou em março de 2014 e já enfrenta manifestações populares frente a seus projetos.

Enfim, em qualquer seara, o Chile merece nosso respeito e atenção. Afinal, além do mata-mata do sábado 28 de junho, nós temos eleições gerais em outubro, plebiscito sobre reforma política, questão social (latente ou não) e manifestações populares intermitentes. E, para mim, a receita para encarar (e vencer) cada uma dessas empreitadas é viver o refrão daquela música do Quilapayún, mostrando ao Bravo que a equipe chilena não pode com o coletivo da seleção canarinho. Oxalá!

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1 Veja a íntegra da reportagem por meio do link http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,chile-quer-fazer-historia-contra-o-brasil-diz-goleiro-bravo,1518337

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* Fernanda Caldas Giorgi é advogada do escritório Loguercio, Beiro e Surian Sociedade de Advogados.

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