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Pecados capitais na orientação de um trabalho acadêmico

Orientadores ineficazes prejudicam alunos e pesquisas, variando entre omissão, autoritarismo e excesso de autopromoção, gerando impactos duradouros.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Atualizado em 6 de janeiro de 2026 11:29

(1) Introdução:

Ser orientado por alguém implica algum grau de confiança no orientador. Parte-se da premissa de que o último é mais experiente do que o primeiro, e que entre ambos haverá algum grau sensível e simbiótico na colaboração.

Constituindo uma das tarefas mais delicadas da vida de um professor universitário, orientar trabalhos de conclusão de curso, de especialização, de mestrado ou de doutorado pode ser uma fonte de prestígio. Muito além de "engordar" a listagem exibida pela plataforma Lattes, a frequência com que se é buscado por candidatos pode ser uma forma de mensurar a reputação de um determinado docente.

Este breve ensaio, entretanto, não mira no elogio à desafiadora missão do professor-orientador, mas no exercício de uma crítica baseada na heurística dos autores. Algumas experiências denotam haver algumas práticas desviantes - ainda que pareçam advindas de ficção1 - em tal função.

(2) Os pecados cardeais de um orientador:

Um trabalho produto de uma orientação mal feita (ou não feita) tende a gerar insatisfações, acomodações, e a alimentar a "indústria" dos resultados inúteis de uma pesquisa. Listou-se abaixo os vícios mais comuns de quem deveria liderar um projeto de pesquisa acadêmica:

(a) O complexo de molusco: os orientadores desse tipo têm uma enorme dificuldade em dizer não. Mesmo com uma plêiade de orientandos que sobrepujam o seu cronograma diário, o docente se porta como "coração de mãe" e segue aceitando novos estudantes. Quando tal professor adota a postura isonômica, então, trata a todos os orientandos com a mesma ausência ou indiferença. Crê-se portador de mais tentáculos do que um polvo ou lula. Algumas universidades limitam sua atuação alocando um teto numérico de aceitação. No entanto, se houver poucos docentes, ou os professores cumularem sua função em diversos níveis (da graduação ao stricto sensu), o teto tende a ser descumprido. Há uma boa regra para contê-los, mas a fonte normativa é inexequível.

(b) O onisciente: este tipo de orientador pode acreditar ser mais interdisciplinar do que Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda. Aceita orientandos que queiram escrever sobre História do Direito, Propriedade Intelectual, Direito Previdenciário ou Direito Processual Canônico. Crê compreender qualquer tema por se sentir, talvez, um bom generalista do mundo jurídico. Orientar em um tema com o qual não se tem genuína intimidade significa, em boa parte das vezes, "liderar" alguém por uma trilha que o "guia" jamais percorreu. O precipício pode ser mais próximo do que se imagina. Coitada da vítima, queremos dizer, dos orientandos.

(c) O senhor feudal: este tipo enxerga o orientando como um "serviçal" de seu protagonismo estamental. Para tal sorte de "orientador" cabe ao aluno carregar suas pastas, substituí-lo em sala de aula, corrigir suas provas, montar sua agenda, fazer-lhe café... Diretamente do Olimpo, tais "Deuses" acadêmicos percebem os candidatos como privilegiados por obterem alguns minutinhos mensais de sua atenção. Alguns, inclusive, não dispensam o tradicional beija-mão e ficarão coléricos se houver atraso no pedido de "bênção".

(d) O mágico de oz: sobre tal paradigma de orientador muito se fala. Não é infrequente que sejam famosos, respeitados, admirados, e que haja uma fila significativa de interessados em serem "orientados" por tal docente. Firmado o compromisso da orientação, entretanto, o professor só será revisto às vésperas da banca de defesa. Qualquer contato direto com a figura tende a ser impossível. Aqui o pecado é pela omissão de alguém que carrega uma fama imerecida2, ou fantasiosa.

(e) A reencarnação de narciso: o semi-pavão fará com que o orientando leia e cite mais textos escritos por ele, do que por qualquer outro docente ou pesquisador. É irrelevante que o tema pesquisado pelo orientando tenha pouco (ou nenhum) nexo com os objetos dos escritos do orientador: ninguém será mais mencionado que ele. Confunde-se orientação com devoção3. Alguns, inclusive, farão com que o orientando compre todos os seus livros, quiçá para montar um presépio-cultural de tal "santo" em casa. Se alguém discordar do entendimento do orientador, então, o errado é sempre o outro. Tende haver pouco espírito democrático e autocrítico de tal tipo de orientador.

(f) A metafísica do gasparzinho: a alusão ao fantasminha camarada é maliciosa; ao menos para o fantasma. Esse tipo de orientador é um perigo, já que exerce pressão para figurar como coautor em artigos que ele não escreveu ou colaborou. É o tipo de docente que adora o crédito, mas sem o ônus do trabalho. Nos anos recentes, além de ser avesso à escrita também passou a ser alérgico à leitura. Alguns "pedem" a seus orientandos que leiam trabalhos alheios para ele, e que façam "resumos". Assim, poderão figurar em bancas de orientandos de terceiros, com um "script" esquematizado pelo seu próprio orientando. Tal relação de orientação jungirá o "ghost-reader" com o "ghost-writer".

(g) O paternalista: também conhecido como "bonzinho", este tipo de orientador acaba pecando pelo excesso de caridade ao orientando. Tende a aprovar toda e qualquer coisa, a sorrir para todo mundo tal como vereador durante a campanha eleitoral. Quando o estudante não cumpre seu múnus de maneira reiterada, então, uma das decisões mais respeitosas de um orientador deve ser o término relacional. É possível que com tal ruptura o orientando ruim mude sua conduta. "Morrer afogado" com o estudante desinteressado, não fará bem ao professor e pode passar a impressão ao candidato de que sua conduta é avalizada pela docência. Proteger excessivamente um estudante não gerará bons frutos acadêmicos e poderá retardar a necessária alteração de rumos ao discente. Cuida-se de alguém que pode sofrer de pusilanimidade4.

Frisa-se que o elenco acima é puramente exemplificativo, bem como não é adversativo. Nada obsta que os pecadores "líderes" exerçam algum grau cumulativo de vício.

(3) Conclusões:

Um orientador ruim gera externalidades negativas severas. Em uma banca de defesa, por exemplo, os professores obrigados a lerem textos "edificados" no seio de uma relação de orientação "doente" sofrerão mais do que é preciso.

Em tempos de fácil acesso às tecnologias de inteligência artificial generativa, por sinal, orientadores - que pecam mais pela omissão do que pela ação - podem não perceber a falsa autoria, a falta do acreditamento aos autores empenhados, mas não citados etc. Os bens jurídicos protegidos pela lei 9.610/1998 tendem a ser fustigados por tais tipos de orientadores.

Além de serem possíveis causadores de traumas para uma futura geração de professores; orientadores ruins podem causar danos de longo prazo, simplesmente, pelo corporativismo de certas instituições. Quiçá, o pacto de mediocridade implícita entre o estudante que quer ser aprovado - a qualquer custo -, com o orientador que não quer trabalhar, seja o nicho perfeito para a fermentação de tais tipos de pecado acadêmico.

Fato é que tais pecados só prosseguem em uma relação trilateral (docente, discente e instituição) quando ao menos duas partes endossam tal conduta. Entretanto, as críticas aos demais lados da relação serão a temática de um outro artigo. Que este curto elenco sirva ao leitor na facilitação da identificação taxonômica do orientador ruim.

Se é cotidiana a existência de docentes que aceitam a função de orientar sem o talento ou o empenho para tanto, tal não significa dizer que esse estado de coisas precise permanecer assim5. O mundo acadêmico nacional pode melhorar.

_______

1 "O Brasil é surreal! O roteirista do Brasil é o Salvador Dalí!" SIMÃO, José. Definitivamente Simão. Rio de Janeiro: Objetiva, 2022, p. 259.

2 "Tem raça que é que nem cestinha de morango. Por baixo é tudo podre" VERISSIMO, Luiz Fernando. A Velhinha de Taubaté. 12ª Edição, Porto Alegre: L&PM, 1998, p. 31.

3 MUSIL, Robert. Sobre a Estupidez. Traduzido por Simone Pereira Gonçalves. 4ª Edição, Belo Horizonte: Âyiné, 2022, p. 14.

4 "JOÃO GRILO E então? Reaja, Chicó, seja homem! C H I C Ó Eu, não. Reaja você! JOÃO GRILO. Você não é homem não, Chicó? C H I C Ó Eu sou homem, mas sou frouxo!" SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 2ª Edição, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015, p. 68.

"Não me consolo de constatar todo dia que o Brasil não deu certo. Ainda não deu certo. Não por culpa da terra, que é boa, nem do povo, que é ótimo. Mas das nossas classes dirigentes, tão tenazmente tacanhas" RIBEIRO, Darcy. Aos Trancos e Barrancos - como o Brasil deu no que deu. 2ª Edição, Rio de Janeiro: Editora Guanabara,1985, p. 24.

Pedro Marcos Nunes Barbosa

Pedro Marcos Nunes Barbosa

Sócio de Denis Borges Barbosa Advogados. Cursou seu Estágio Pós-Doutoral junto ao Departamento de Direito Civil da USP. Doutor em Direito Comercial pela USP, Mestre em Direito Civil pela UERJ e Especialista em Propriedade Intelectual pela PUC-Rio.

Gisele Cittadino

Gisele Cittadino

Professora do Departamento de Direito da PUC-Rio. Autora do livro "Pluralismo, Direito e Justiça Distributiva. Elementos da Filosofia Constitucional Contemporânea" publicado pela editora Lumen Juris.

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