A visão eliasiana como inspiração para o julgar ético
A figura do profeta Elias como símbolo de coragem moral, humanidade e resistência ética aplicada ao exercício da justiça.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
Atualizado às 12:54
A figura do profeta Elias desponta como símbolo eterno de coragem moral e fidelidade a princípios superiores. Ao imaginar a magistratura contemporânea no Brasil, é evidente a necessidade de juízes com um compromisso profético, inspirados pela visão eliasiana. Essa inspiração remete a uma postura ética marcada pela integridade inabalável, pelo zelo à justiça e pela sensibilidade humana, valores que, juntos, orientam a atuação judicante em busca de uma justiça genuína e substancial.
Cada magistrado, ao tomar posse de seu cargo, jura defender a Constituição e cumprir as leis do país. Esse juramento não é mera formalidade: representa um pacto moral selado com a sociedade. Nele se percebe um reflexo do compromisso profético, pois exige do juiz dedicação integral à causa da justiça, mesmo quando essa missão confronta interesses estabelecidos ou impõe sacrifícios pessoais. A toga, símbolo da autoridade judiciária, carrega também esse sentido de serviço e responsabilidade perante o povo.
Elias, na tradição bíblica, enfrentou reis e multidões em defesa do que considerava justo e verdadeiro. Munido apenas de convicção e coragem, ele não hesitou em denunciar desvios morais mesmo diante de ameaças à própria vida. Essa bravura reverbera na figura do juiz contemporâneo, que não se curva às pressões externas nem ao clamor volúvel da opinião pública. Assim como o profeta se mantinha firme perante as autoridades de seu tempo, o magistrado moderno deve demonstrar a mesma determinação inquebrantável para fazer prevalecer o direito e a justiça.
A coragem moral do juiz com compromisso profético se manifesta nas decisões difíceis e impopulares tomadas em nome da lei e da consciência. Muitas vezes, assegurar a justiça significa contrariar interesses poderosos ou expectativas imediatistas da sociedade. Nesses momentos, o juiz inspirado pelo exemplo de Elias demonstra uma altivez serena: decide com retidão mesmo sob críticas, ciente de que a legitimidade de sua função provém da coerência com os princípios constitucionais e éticos, e não da aclamação momentânea.
Essa postura altiva requer independência judicial em sentido pleno. Elias respondia apenas ao chamado de sua consciência e de sua fé, jamais aos desígnios de um monarca terreno. De modo análogo, o magistrado comprometido com valores proféticos guarda independência em relação a pressões políticas, econômicas ou corporativas. Ele sabe que sua lealdade primeira é para com a Constituição, as leis e os direitos fundamentais, e que nenhum poder efêmero deve desviar seu norte decisório. A independência, porém, não é isolamento: é condição para a imparcialidade verdadeira, que se nutre da liberdade de julgar segundo os fatos e o direito, livre de coerções.
A independência judicial inspirada no exemplo eliasiano traz também uma dimensão de responsabilidade solitária. O juiz, tal como um profeta no deserto, carrega o fardo de decidir muitas vezes contra a maré. No entanto, essa solidão institucional vem ladeada por uma convicção interior: a de cumprir um dever quase sagrado de realização da justiça. O magistrado que assume esse encargo compreende que sua função não é agradar a quem detém o poder nem buscar aplauso fácil, mas honrar a missão de distribuir justiça de forma equânime. Esse senso de missão confere dignidade ao ofício e fortalece a resiliência do julgador diante dos desafios.
Em meio a tanta firmeza, é fundamental aliar a imparcialidade à sensibilidade. A visão eliasiana não implica um rigor cego ou distante, mas sim uma imparcialidade temperada por compreensão humana. O profeta Elias, apesar de austero em seus julgamentos, também conheceu a compaixão ao amparar os vulneráveis em sua jornada. De modo análogo, um juiz verdadeiramente justo equilibra a aplicação imparcial da lei com a consideração pelas circunstâncias concretas dos que dependem de suas decisões. Impor a lei sem perder de vista a pessoa é um desafio constante, e essa sensibilidade torna a justiça mais humana sem comprometer sua imparcialidade.
Reconhecer a vulnerabilidade humana é outra lição que emana do símbolo de Elias. Após grandes feitos, o profeta experimentou o medo e o desânimo e buscou refúgio em uma caverna, exausto e angustiado. Ali, descobriu seus próprios limites e encontrou renovação na quietude. Analogamente, o juiz consciente de sua humanidade admite que não é infalível nem imune ao cansaço ou à dúvida. Essa humildade, longe de enfraquecer o magistrado, na verdade o fortalece. Ao reconhecer sua vulnerabilidade, o magistrado abre espaço para a empatia, aprende a ouvir com atenção as partes e busca constante aprimoramento, ciente de que a autoridade da toga não o faz menos humano.
Os limites institucionais também se impõem como parte da realidade do julgador. Elias não tinha coroas nem exércitos; sua força residia na palavra e no exemplo, dentro dos limites de sua vocação profética. O juiz, por sua vez, opera dentro do arcabouço legal e das instituições democráticas.
Há situações em que, por mais que deseje ir além, o magistrado esbarra nas fronteiras normativas e procedimentais que delimitam sua atuação. Ainda assim, inspirado na retidão de Elias, o juiz aprende a trabalhar criativamente dentro desses limites, sem jamais transigir quanto aos princípios. Ele entende que a verdadeira transformação social promovida pelo Judiciário ocorre quando cada decisão, mesmo contida pelas balizas legais, carrega o máximo de justiça e equidade que o ordenamento permite.
Um episódio marcante da trajetória de Elias ilustra a importância da integridade no exercício do poder: a história da vinha de Nabote. Ouando a rainha Jezabel, abusando de sua autoridade, articulou falsos testemunhos para condenar um inocente e tomar posse de sua propriedade, contou com a cumplicidade de magistrados locais corrompidos. Esse ato de injustiça orquestrada encontrou em Elias um opositor veemente: foi o profeta quem se levantou para denunciar o mal e proclamar a necessidade de responsabilização. A lição é eloquente para a magistratura contemporânea. Juízes não podem servir de instrumentos dóceis a interesses escusos ou a pressões indevidas; ao contrário, devem buscar inspiração na coragem profética para rechaçar manipulações e defender a integridade do sistema de justiça mesmo diante de forças intimidadoras.
Outra simbologia poderosa legada por Elias é a do silêncio interior. Diz a tradição que o profeta, em seu momento de fuga e aflição, ouviu a voz divina não no terremoto ou no fogo, mas em uma brisa leve e silenciosa. Esse símbolo do sussurro revela a importância de cultivar a interioridade e a reflexão serena antes de agir. Na práxis judicante, a pressa e o clamor externo podem turvar a lucidez necessária para bem julgar. O juiz com compromisso profético sabe buscar em seu íntimo a calma e a clareza de propósito. Ele compreende que, muitas vezes, a justiça se revela após uma escuta atenta do silêncio, seja o silêncio dos autos clamando por uma decisão ponderada, seja o silêncio da própria consciência indicando o caminho mais reto.
Nesse recolhimento reflexivo, o magistrado encontra a consciência ética que deve nortear cada ato decisório. Não basta dominar as técnicas jurídicas e os meandros da lei; é imprescindível aliar conhecimento apurado a uma consciência reta. A visão eliasiana na magistratura ensina que a letra fria da lei só ganha vida e sentido pleno quando iluminada por valores e empatia. Julgar não é um exercício mecânico de aplicação de normas, mas um ato de responsabilidade moral. A técnica sem ética pode degenerar em mero formalismo estéril, ao passo que a ética sem técnica pode resvalar na arbitrariedade. O equilíbrio está em unir conhecimento profundo do direito com o compromisso inegociável de fazer justiça em sua substância.
Um juiz dotado de excelência técnica e sensibilidade ética consegue produzir decisões que transcendem a mera legalidade aparente para alcançar a justiça substancial. Essa justiça substancial é aquela que efetivamente resolve o conflito humano subjacente, restaurando a paz social sem trair os preceitos jurídicos. Inspirado pelo ethos profético, o magistrado busca não apenas encerrar processos, mas realmente solucionar os problemas das partes envolvidas. Ele encara cada caso com a seriedade de quem percebe a dimensão humana em jogo, empregando com maestria as ferramentas do direito e exercitando com profundidade o senso de equidade.
Desse modo, o ato de julgar deixa de ser um ritual burocrático e passa a ser uma verdadeira função de pacificação e garantia de direitos.
Nesta jornada de aperfeiçoamento contínuo, o juiz assume valores que ecoam aqueles personificados por Elias: integridade, coragem, humildade, compaixão e zelo pela justiça. Tais virtudes servem de bússola em meio às tormentas que por vezes assolam a vida pública e os desafios institucionais.
Ouando a sociedade clama por respostas firmes contra a corrupção ou a desigualdade, o magistrado precisa responder à altura, com retidão e humanidade. Do mesmo modo, se interesses poderosos tentam obscurecer a verdade, cabe ao juiz ser a voz clara e firme, tal qual o profeta no deserto, convocando à responsabilidade e resgatando a confiança nas leis.
A visão eliasiana na magistratura brasileira contemporânea representa um ideal a ser perseguido. Não se trata de atribuir aos juízes um caráter messiânico ou pretensão de infalibilidade, mas sim de inspirar cada juiz a cultivar uma consciência vocacionada ao bem comum. O chamado “compromisso profético” sugere que o magistrado, em sua atuação cotidiana, tenha plena consciência de que presta um serviço quase sagrado à sociedade: o de fazer prevalecer a justiça acima das conveniências. Esse juiz de perfil profético moderno é alguém que dialoga com a tradição e com a realidade presente, lançando mão tanto da sabedoria ancestral quanto do conhecimento jurídico atual para iluminar suas decisões.
Em última análise, a metáfora do profeta aponta para uma magistratura verdadeiramente humanizada e fiel aos seus valores fundamentais. Como Elias, que agiu com firmeza sem perder a fé na restauração do bem, o juiz comprometido com essa visão busca equilibrar a força com a misericórdia, a técnica com a consciência. Ele sabe que a autoridade que exerce emana do povo e se legitima pelo serviço à justiça. Sabe também que cada sentença é oportunidade de reafirmar o pacto civilizatório expresso nas leis, aplicando os preceitos legais com equidade e compaixão.
Concluindo, a magistratura que abraça um compromisso profético se forja como pilar ético da sociedade. É uma magistratura profundamente humana, pois reconhece em cada jurisdicionado um rosto e uma história, e ao mesmo tempo permanece intransigentemente firme na defesa da ordem jurídica justa. Essa combinação de humanismo e firmeza é o que garante a justiça substancial, aquela que não se contenta em aplicar a lei, mas busca realizar o justo.
Em tempos desafiadores, buscar inspiração na figura de Elias significa reafirmar que o juiz pode e deve ser um guardião da esperança, um agente de transformação pelo direito. Uma magistratura humanizada, corajosa e comprometida com a justiça substancial é, em suma, um valor incalculável para o fortalecimento do Estado de Direito e para a confiança do povo na Justiça.
Mário Goulart Maia
Advogado, Ex-Conselheiro do Conselho Nacional de Justiça, autor de livros, parecista, consultor jurídico, palestrante e sócio do Kohl & Maia Advogados.


