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Qual é o passado do Brasil?

O texto analisa por que o passado no Brasil é instável, ligando descontinuidade institucional, narrativa política e disputa moral permanente.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Atualizado em 12 de fevereiro de 2026 10:41

Se eu te perguntasse “qual é o passado do Brasil?”, você responderia com fatos… ou com uma disputa?

Porque, na prática, a nossa vida pública parece operar assim: cada crise reabre o arquivo, cada governo tenta “reiniciar” o país, e cada bolha digital produz a sua própria versão do que aconteceu.

É por isso que “No Brasil, até o passado é incerto” não soa como piada. Soa como método.

E tem uma ironia quase perfeita: até a autoria da frase é incerta - atribuída, conforme a fonte, a figuras diferentes do debate econômico dos anos 1990. A frase que denuncia a incerteza do passado… carrega um passado incerto.

O problema, porém, não é a autoria da frase.

O problema é que, no Brasil, o passado não é apenas lembrado; ele é disputado, reclassificado, reeditado e, às vezes, reutilizado como instrumento de poder.

Em democracias saudáveis, o passado tem disputa - sempre terá. A revisão histórica é legítima, necessária e, em muitos casos, sinal de amadurecimento. O problema é quando a disputa se torna uma espécie de estado natural de instabilidade: fatos viram versões, versões viram identidades, identidades viram trincheiras. E, no meio disso, o país tem dificuldade de construir três coisas que toda sociedade precisa para evoluir: continuidade institucional (capacidade de aprender e acumular), critério compartilhado de julgamento (base mínima para responsabilizar e ajustar rumos) e fechamento moral (verdade pública, justiça e reconhecimento suficientes para transformar trauma em aprendizado).

Este artigo propõe uma leitura em quatro teses que se reforçam mutuamente - institucional, cultural-política, comunicacional e moral - para explicar por que, no Brasil, o passado frequentemente parece instável e porque isso impacta diretamente o presente.

Tese institucional: Baixa continuidade de Estado embaralha memória e responsabilidade

A primeira raiz da “incerteza do passado” é menos filosófica do que administrativa: o Brasil sofre com baixa continuidade de Estado. Trocam-se governos - como deve ser numa democracia -, mas, com frequência, também se troca o próprio “chão” institucional sobre o qual as políticas se sustentam.

Governo muda; Estado deveria acumular - mas nem sempre acumula

Em países com alta capacidade estatal, a alternância política convive com arquivos e bases de dados preservados, séries históricas consolidadas para comparação, sistemas de avaliação e monitoramento que sobrevivem a mandatos, burocracias profissionais com memória operacional e políticas de longo prazo tratadas como infraestrutura social, não como campanha.

No Brasil, esse ideal existe em ilhas - e isso é importante reconhecer. Há órgãos, carreiras e instituições com alta capacidade técnica. Mas, no conjunto, a cultura de continuidade frequentemente perde para a cultura do reinício: muda-se o vocabulário, renomeiam-se programas, reexplicam-se prioridades e, por vezes, age-se como se o passado administrativo fosse irrelevante - ou, pior, como se fosse apenas um passivo moral a ser negado. Quando o Estado recomeça simbolicamente, o país perde o fio do que veio antes.

A descontinuidade cria um passado “móvel” dentro do próprio Estado

A baixa continuidade embaralha a memória pública de várias maneiras:

  • Programas são rebatizados e reapresentados como novidade, tornando difícil rastrear origem, resultados e evolução.
  • Indicadores e metas mudam com frequência, dificultando comparação longitudinal (o “antes e depois” vira disputa).
  • Sistemas de registro e documentação nem sempre se mantêm com consistência, seja por carência estrutural, seja por mudanças de gestão.

Quando a máquina pública não preserva aprendizado e evidência, o passado perde “lastro”. O que poderia ser um conjunto de registros, relatórios, séries históricas, auditorias e avaliações se converte em um campo de interpretação. E quando o passado vira interpretação, a responsabilidade vira “opinião”.

Responsabilidade exige arquivo, processo e comparação

Responsabilizar não é apenas punir; é explicar. Para explicar, é preciso comparar “antes e depois” com base em registros consistentes. Onde falta memória institucional, a responsabilização se torna instável: abre-se espaço para narrativas do tipo “sempre foi assim”, “ninguém sabia”, “não há como provar”, “não dá para comparar”.

Nesse ambiente, a “prestação de contas” tende a se mover do terreno do método para o terreno da retórica. E o que deveria ser debate sobre eficiência, equidade, custo-benefício, evidência e impactos vira disputa por autoria, culpa e reputação.

Tese cultural-política: Disputar o passado é governar o presente (quem controla a narrativa controla o juízo)

Se a tese institucional fala da fragilidade do Estado como máquina de memória, a tese cultural-política aponta para o uso do passado como instrumento ativo de poder. Em democracias, toda política envolve narrativa. O problema surge quando a disputa pelo presente se faz não apenas com propostas, mas com uma tentativa de reordenar retroativamente o que foi, o que significou e quem foi quem.

A lógica é simples: quem controla o passado controla os critérios do julgamento no presente.

O passado como tribunal permanente

Na prática, a disputa narrativa transforma o passado em um tribunal que nunca encerra a sessão. Personagens e eventos são reavaliados não para compreender melhor, mas para servir ao alinhamento atual: fatos são reorganizados por recortes convenientes, causalidades complexas são reduzidas a slogans, ambiguidades são apagadas, contextos são seletivamente lembrados ou esquecidos.

Assim, o passado deixa de ser uma fonte de aprendizado e vira munição.

“Memória” versus “história”: Quando lembrar vira escolher

É crucial distinguir:

  • História: Método, crítica de fontes, debate com regras de prova.
  • Memória pública: Seleção social de lembranças que sustenta identidades e legitimidades.

O Brasil convive com um cenário em que a memória pública, muitas vezes, é moldada por urgências do presente e por guerras simbólicas. O resultado é que a sociedade passa a discutir menos “o que aconteceu” e mais “qual versão me organiza politicamente”.

‘Governar pelo passado: Legitimar, absolver, condenar

Disputar o passado ajuda a:

  1. Legitimar projetos (“somos herdeiros do que deu certo”).
  2. Absolver responsabilidades (“foi inevitável”, “era o contexto”, “não havia alternativa”).
  3. Condenar adversários (“sempre foram isso”, “nunca prestaram”).

Quando esse mecanismo se intensifica, o passado fica aberto como ferida: sem responsabilização, a narrativa disputa o lugar da verdade - e o país “fica preso” ao que não foi resolvido.

Tese comunicacional: A era digital acelerou a “incerteza do passado”, tornando versões mais competitivas do que fatos

Se antes a disputa de narrativa tinha ritmos mais lentos (jornais, livros, debates, documentos), hoje ela ocorre em escala e velocidade inéditas. A era digital não “criou” a incerteza do passado, mas amplificou seu funcionamento.

A característica central do ambiente digital é que ele tende a premiar não o que é mais verificável, mas o que é mais compartilhável.

A economia da atenção e a vitória do recorte

Plataformas recompensam frases fortes, indignação, certezas absolutas, personalização do conflito (“quem disse”, “quem é”, “de que lado está”). Isso produz um ambiente onde o passado se converte em micro fragmentos: um vídeo curto, um print, uma frase, um “fio”. Fragmentos têm enorme poder emocional, mas pouca capacidade de carregar contexto.

O passado passa a circular como “evidência” mesmo quando é apenas recorte desancorado.

Colapso de contexto e multiplicação de “provas”

Na comunicação digital, o mesmo material reaparece fora de data, sem fonte, com legenda alterada, com causalidade invertida. Não é preciso inventar fatos do zero: basta recontextualizar. Isso cria a sensação de que há muitas “provas”, quando na verdade há muitos reposts.

O efeito é corrosivo: a sociedade perde a referência do que é arquivo e do que é circulação; do que é documento e do que é meme.

Da persuasão à mobilização

A disputa deixa de ser “convencer” e passa a ser “mobilizar”. Mobilização exige identidade, pertencimento e inimigo. Nesse terreno, versões do passado são escolhidas por sua capacidade de reforçar lealdade, alimentar indignação e justificar urgência.

Assim, a incerteza do passado vira combustível. Um passado estabilizado por fatos e consensos mínimos reduziria o potencial de mobilização permanente - e isso, para certos atores, é desvantajoso.

Tese moral: Sem fechamento (verdade, justiça, reconhecimento), o passado vira território permanente de conflito

Há um nível mais profundo: o moral. Sociedades precisam de rituais de encerramento - não para “esquecer”, mas para transformar trauma em aprendizado. Quando não há fechamento suficiente, o passado retorna como disputa interminável: cada geração reabre feridas, cada grupo busca reparação, cada lado reclama reconhecimento.

Aqui, “incerto” não significa “não sabemos”; significa “não concluímos”.

O que é “fechamento” (e o que não é)

Fechamento não é amnésia e nem unanimidade. É a consolidação de três elementos mínimos:

  1. Verdade pública minimamente compartilhada (o que ocorreu, com base em evidências).
  2. Justiça (responsabilização proporcional e institucionalmente confiável).
  3. Reconhecimento (das vítimas, dos danos, das violações e das cicatrizes sociais).

Sem isso, o passado fica aberto como processo sem sentença: sempre haverá incentivo para reabrir, recontar, reencenar.

Impunidade e desconfiança como geradores de versões

Quando a justiça parece seletiva, lenta ou inconsistente, as pessoas recorrem a narrativas como substituto da decisão institucional. A “verdade” passa a ser a versão do meu grupo, porque a instituição que deveria arbitrar é percebida como incapaz ou parcial.

Nesse cenário, o passado se torna moralmente instável: uns dizem “não foi bem assim” para diminuir culpa; outros dizem “foi pior do que você imagina” para exigir reparação; muitos preferem “não falar disso” para evitar fratura.

O resultado não é paz - é silêncio tenso e retorno periódico do conflito.

Reconciliação sem reconhecimento não pacifica

Uma sociedade pode até produzir acordos pragmáticos de convivência, mas sem reconhecimento real (do dano, do sofrimento, da responsabilidade), a reconciliação vira um pacto superficial. O passado volta porque não foi integrado: ele vira identidade, vira acusação, vira fantasma político.

Exemplos por períodos: onde o “passado incerto” reaparece

Era Vargas (1930-1945): Legado em disputa permanente

A Era Vargas concentra um paradoxo brasileiro: é lembrada, ao mesmo tempo, como período de construção de Estado, industrialização e consolidação de direitos trabalhistas - e como experiência marcada por centralização do poder e autoritarismo, sobretudo no Estado Novo. O que torna esse período exemplar não é “qual leitura é a correta”, e sim o mecanismo: a cada geração, o tema retorna como campo de legitimação do presente.

Na prática, o passado vira uma “caixa de ferramentas” simbólica. Um mesmo conjunto de eventos é acionado para defender teses atuais opostas: Estado forte vs. liberdade política, proteção social vs. tutela, modernização vs. autoritarismo. O passado, aqui, não termina porque ele serve como fundamento moral de projetos contemporâneos.

Regime militar (1964-1985): Memória fraturada e “tribunais paralelos”

Poucos capítulos ilustram tão bem a frase “até o passado é incerto” quanto 1964-1985. O debate público frequentemente não se limita a discordâncias de ênfase; ele se organiza em torno de classificações morais e políticas (“golpe” ou “revolução”, “ordem” ou “repressão”), que funcionam como identidades. Quando a memória vira identidade, o diálogo vira teste de pertencimento.

Além disso, o período se conecta diretamente à tese moral: quando uma sociedade não produz fechamento suficiente - com verdade pública robusta, responsabilização institucional confiável e reconhecimento social - o passado volta como disputa recorrente. E volta em ondas: ora como nostalgia, ora como denúncia, ora como relativização, ora como reabertura emocional em momentos de crise.

Redemocratização e CF/88: Pacto fundador e alvo permanente

A CF/88 costuma ser evocada como símbolo maior da reconstrução democrática, expansão de direitos e reorganização institucional. Ao mesmo tempo, ela é criticada por diferentes correntes como origem de distorções: rigidez, complexidade, tensões federativas e aumento da judicialização de conflitos políticos. O ponto relevante é que o debate frequentemente escorrega do técnico para o moral: defender ou criticar “88” vira etiqueta identitária.

Isso alimenta a incerteza do passado por duas vias. Primeiro, porque a própria ideia de “pacto” passa a ser recontada como “solução” ou “problema” conforme o momento. Segundo, porque, quando o pacto fundador vira arena de guerra simbólica, a confiança na arquitetura institucional enfraquece - e, com ela, a capacidade de gerar memória estável, previsibilidade e responsabilização.

Anos 1990: Estabilização econômica, reformas e disputa por paternidade

Os anos 1990, marcados por esforços de estabilização após a hiperinflação, reformas e reorganização do papel do Estado, tornaram-se também um grande exemplo de como disputas por autoria reescrevem o passado. Em vez de o período ser processado como um conjunto de escolhas com trade-offs (ganhos, custos, riscos, aprendizados), ele muitas vezes é narrado como “vitória total” ou “erro total”.

A consequência é institucional e cultural ao mesmo tempo: sem debate público sustentado por métrica comparável, contexto e avaliação, o passado se torna “sloganizável”. E quando isso acontece, o país perde uma oportunidade rara: usar um capítulo complexo como escola de governança - isto é, como base para aprimorar políticas sem precisar demonizar ou canonizar o período.

Crises recentes (2013 em diante): Aceleração digital e reabertura permanente

A partir de 2013, a combinação de protestos, polarização crescente, judicialização, impeachment, investigações de grande impacto político e o protagonismo das redes sociais intensificou a dinâmica descrita na tese comunicacional: o passado recente passou a ser recontado em recortes virais. O debate público ganhou velocidade e perdeu fricção. E, quanto menos fricção, mais as versões competem com os fatos.

Nessa fase, a frase “passado incerto” vira quase um modo de funcionamento: cada evento é rapidamente transformado em símbolo; cada símbolo vira arma identitária; cada arma alimenta novas ondas de mobilização. O resultado é um país que discute o passado recente como se estivesse sempre “em julgamento” - e, em julgamentos contínuos, o futuro costuma ficar sem agenda.

Como as quatro teses se conectam (e por que isso “parece Brasil”)

Essas teses não competem; elas formam um circuito:

  1. Baixa continuidade de Estado enfraquece arquivo, avaliação e responsabilização.
  2. Isso abre espaço para a disputa cultural-política do passado como arma.
  3. A era digital acelera essa disputa, premiando versões.
  4. A ausência de fechamento moral mantém o conflito vivo, pronto para ser reativado.

Assim, a frase se torna plausível: não é que o Brasil não tenha passado; é que o passado, muitas vezes, não se converte em referência estável para governar melhor - ele se converte em campo de batalha.

O custo prático do “passado incerto” (inclusive fora da política)

No mundo prático, “passado incerto” é o oposto de governança. Ele sabota o que organizações e países precisam para melhorar: aprender com evidência, manter o que funciona, corrigir o que falha e responsabilizar com critérios claros.

Isso repercute em:

  • Planejamento de longo prazo (sempre substituído por urgências);
  • Confiança institucional (sem ela, tudo vira disputa de legitimidade);
  • Qualidade do debate público (muito julgamento, pouca comparação);
  • Capacidade de execução (muitos recomeços, pouca consolidação).

Conclusão: O passado incerto como sintoma, método e consequência

“No Brasil, até o passado é incerto” pode ser lido como:

  • Sintoma de instituições com baixa capacidade de acumular memória e garantir continuidade;
  • Método de uma política que governa pela narrativa e pelo julgamento simbólico;
  • Consequência de um ecossistema comunicacional que premia versões e de uma moral pública sem fechamento suficiente.

Superar a incerteza do passado não é “fechar debate” nem “impor uma narrativa oficial”. É fortalecer condições para que a disputa não destrua a referência comum: mais continuidade de Estado, mais cultura de evidência e avaliação, mais responsabilidade verificável e mais ritos de reconhecimento e justiça que reduzam a necessidade de guerra permanente de versões.

Se queremos um país que pare de recomeçar, precisamos parar de usar o passado como arma e começar a tratá-lo como infraestrutura: memória verificável, responsabilidade institucional e fechamento moral - ou seguiremos presos ao ciclo de reabertura eterna.

Stanley Martins Frasão

Stanley Martins Frasão

Advogado, sócio de Homero Costa Advogados Diretor Executivo do CESA Centro de Estudos das Sociedades de Advogados Membro da Comissão Nacional das Sociedades de Advogados do Conselho Federal da OAB

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