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Risco não se presume: A auditoria processual como resposta estratégica ao contencioso de massa

Auditoria de processos revela padrões ocultos, orienta decisões empresariais e reduz litígios ao atacar falhas operacionais na origem.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Atualizado em 24 de fevereiro de 2026 16:42

1. Do empirismo à evidência: O fim da gestão por intuição

Durante muito tempo, o diálogo entre o mercado jurídico e as grandes corporações seguiu um ritual previsível. Diante de um balanço trimestral apontando o aumento do custo com condenações, a análise muitas vezes esbarrava em diagnósticos difíceis de mensurar:

  1. O fatalismo cultural: "O 'Custo Brasil' e a cultura do litígio tornam o passivo incontrolável";
  2. O fator humano: "A rotatividade na ponta do atendimento dificulta a padronização"; ou
  3. A presunção de risco: "O consumidor, por vezes, utiliza o sistema judicial para evitar obrigações contratuais".

Embora existam verdades nesses pontos, eles são diagnósticos que oferecem pouca margem de manobra para a gestão. Não apontam qual equipe precisa de suporte, qual cláusula gera dúvida ou porque produtos similares têm desempenhos jurídicos diferentes.

Esse modelo não atende mais à velocidade do ambiente atual. Em mercados pressionados por margens estreitas e judicialização em escala, a alta direção das empresas busca respostas objetivas.

A advocacia corporativa contemporânea opera sob um princípio inegociável: risco não se presume, se demonstra. E a melhor forma de apoiar a tomada de decisão é por meio da auditoria minuciosa do próprio estoque processual.

2. A petição inicial como relatório de oportunidade

Sob a ótica preventiva, a petição inicial transcende a natureza de litígio e deve ser interpretada como um relatório de oportunidade de melhoria. Cada processo carrega, em suas entrelinhas, o rastro técnico de onde a operação pode evoluir ou onde a defesa pode ser blindada.

Saber que uma instituição financeira possui mil ações sobre "Fraude" ou "Vício de Consentimento" é um dado estatístico insuficiente. O que gera valor é a análise detalhada das provas:

  • Quantas ações decorrem de engenharia social, onde o próprio cliente fornece voluntariamente senhas intransferíveis ao golpista?
  • Quantas alegam desconhecimento das taxas do financiamento, apesar da existência de termo de ciência assinado e validado biometricamente?
  • Quantas versam sobre serviços não contratados, confrontadas com logs de auditoria que provam a leitura e o aceite digital do contrato?

Quando o advogado disseca o processo com esse nível de detalhe, ele oferece à empresa a chance de corrigir a causa raiz ou, crucialmente, de robustecer a tese de culpa exclusiva da vítima, evitando que o passivo se converta em prejuízo.

3. Inteligência acoplada ao volume: O papel da célula estratégica

O preventivo não substitui a gestão do contencioso de massa, mas a complementa. A esteira operacional é vital para cumprir prazos e controlar custos. Contudo, sem uma célula estratégica acoplada ao massificado, a empresa perde a oportunidade de aprender com a própria base.

Essa célula funciona como um radar em meio ao volume. Ela audita padrões, qualifica informações e transforma o dia a dia do massificado em inteligência para a gestão.

Importante desmistificar um ponto: a automatização da defesa é necessária e bem-vinda. Quando bem estruturada, ela garante consistência. O papel da célula estratégica é justamente calibrar essa automação, garantindo que o sistema replique a melhor tese, fundamentada na prova técnica, e esteja sempre atualizado com a jurisprudência mais recente. Sem essa camada analítica, o jurídico trabalha apenas no "apagar incêndios". Com ela, atua na prevenção do fogo.

4. Engenharia jurídica e benchmarking: A visão de mercado

A virada ocorre quando a análise estratégica deixa de ser um relatório jurídico e passa a orientar decisões de negócio. A engenharia jurídica exige também inteligência de mercado (benchmarking). Muitas vezes, a solução para um gargalo interno já foi desenvolvida pelo mercado.

O advogado preventivo deve ter esse olhar externo: analisar como o setor está resolvendo problemas de consentimento digital, como estão redigidas as cláusulas nos contratos mais modernos e como o atendimento ao cliente tem evoluído na concorrência.

Trazer essa inteligência para dentro de casa permite ajustar a engenharia de produto, TI e governança. O objetivo é posicionar a empresa na vanguarda das melhores práticas, reduzindo o risco na origem. Isso é advocacia de resultado: usar dados para blindar a operação.

5. Conclusão

No ritmo frenético dos prazos, a advocacia de massa criou uma armadilha silenciosa: a perda da sensibilidade analítica. Muitas vezes, a resposta está dentro dos próprios autos, aguardando interpretação.

O advogado moderno rompe com essa lógica ao transformar volume em dado qualificado. Ele sabe que a proteção jurídica real nasce do detalhe e da auditoria estratégica. Não se evita litígio apenas com teses defensivas, mas com a correção de processos baseada em prova documental robusta. Em um ambiente de alta competitividade, essa inteligência é o maior ativo que um escritório pode oferecer ao seu cliente.

Anibal Pereira da Silva Junior

Anibal Pereira da Silva Junior

Analista Jurídico Sênior no Parada Advogados. Advogado, pós-graduando em Direito Processual Civil pela Escola Superior de Advocacia Nacional, com expertise em Direito Bancário.

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