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Remuneração no SUS: Uma decisão que pode reconfigurar o setor filantrópico

STJ julga mudança na remuneração de Santas Casas no SUS, com possível impacto na Tabela SUS e no financiamento da saúde filantrópica.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Atualizado em 28 de abril de 2026 12:14

Tenho acompanhado com atenção o julgamento em curso no STJ, que pode provocar mudanças profundas na forma como as Santas Casas e os hospitais filantrópicos são remunerados pelos serviços prestados ao SUS - Sistema Único de Saúde.

A discussão gira em torno da metodologia de cálculo dos valores pagos pelo poder público nos convênios firmados com essas instituições, que são responsáveis por uma parcela expressiva do atendimento hospitalar no país - mais da metade das demandas do SUS. Na minha avaliação, uma eventual revisão desses critérios pode impactar diretamente o equilíbrio financeiro dessas entidades, muitas das quais já operam sob forte pressão orçamentária.

Os dados do setor mostram um cenário claro de subfinanciamento, com um déficit anual estimado entre R$ 10 bilhões e R$ 20 bilhões. Esse desequilíbrio ocorre porque a Tabela SUS cobre, em média, apenas cerca de 60% do custo real dos procedimentos realizados.

Por outro lado, a União resiste à proposta de mudança e calcula que a revisão pode gerar um custo adicional de aproximadamente R$ 24 bilhões por ano ao orçamento do Ministério da Saúde. O argumento é o chamado "efeito multiplicador", em que decisões judiciais podem servir de base para novas ações que busquem garantir valores mais elevados, ainda que temporariamente.

O julgamento no STJ deve definir se os valores da Tabela SUS podem ser equiparados aos praticados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar, que são mais altos. Caso isso aconteça, acredito que estaremos diante de um verdadeiro divisor de águas para o setor filantrópico de saúde, ao sinalizar um possível avanço na recomposição dos valores pagos, ainda que acompanhado de desafios relacionados à sustentabilidade fiscal e à segurança jurídica.

Estamos falando de uma possível mudança de entendimento que pode gerar efeitos em cadeia, influenciando novos contratos e até revisões de acordos já existentes.

É fundamental o acompanhamento técnico e jurídico especializado neste momento. Trata-se de uma fase estratégica para que Santas Casas e hospitais filantrópicos se preparem, identifiquem oportunidades e mitiguem riscos diante de uma possível mudança na jurisprudência.

Enquanto o julgamento segue em andamento, seguimos com atenção aos desdobramentos. A expectativa é que a decisão do STJ traga mais clareza e segurança jurídica, contribuindo para a sustentabilidade dessas instituições, que desempenham um papel essencial na assistência à saúde da população brasileira.

Rodrigo Santos Perego

Rodrigo Santos Perego

Advogado, sócio fundador da Santos Perego & Nunes da Cunha Advogados Associados.

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