Sorte: Um conceito, não uma força
O sucesso costuma ser fruto do encontro entre preparo, oportunidade e ação, muito mais do que de fatores atribuídos ao acaso.
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Atualizado em 5 de junho de 2026 11:28
A palavra "sorte" ocupa um espaço curioso na linguagem. Surge como explicação rápida para o inesperado, consolo diante do fracasso e, não raro, justificativa para o sucesso alheio. Mas sorte não é um fenômeno - é um conceito. E, como todo conceito, depende da forma como o interpretamos.
Sorte não é algo que se possa medir, armazenar ou transmitir. Não há unidade científica que a quantifique, tampouco instrumento que a detecte. Na maioria das vezes, sorte é o encontro entre oportunidade, preparo e circunstâncias fora do controle individual. Quando alguém "teve sorte", houve apenas o encontro entre uma chance concreta e a capacidade de aproveitá-la.
Essa percepção desloca a sorte do campo do acaso puro para o campo da interpretação. Dois indivíduos podem vivenciar o mesmo evento: um o considera sorte, o outro, consequência lógica de suas escolhas. O conceito, portanto, não está no fato - está na narrativa construída sobre ele.
No plano psicológico, a ideia de sorte cumpre funções importantes. Reduz a ansiedade diante do imprevisível e suaviza o peso da responsabilidade individual. Ao atribuir um resultado à sorte, o sujeito preserva a autoestima e evita enfrentar variáveis mais complexas, como preparo insuficiente, estratégia inadequada ou timing equivocado. Por outro lado, também pode gerar passividade: quem acredita excessivamente na sorte tende a esperar mais do que agir.
Já no campo do sucesso, a sorte é frequentemente romantizada. Resumimos grandes conquistas a momentos fortuitos e ignoramos anos de preparação silenciosa. O "golpe de sorte" é apenas o instante em que a oportunidade encontra alguém pronto. Sem preparo, a mesma oportunidade passaria despercebida - e ninguém a chamaria de sorte.
Há um aspecto estratégico: tratar a sorte como conceito, e não como força real, devolve o protagonismo ao indivíduo. Se sorte não é algo que "se tem", mas algo que se interpreta, então o foco se desloca para aquilo que pode ser efetivamente controlado: disciplina, consistência, aprendizado contínuo e capacidade de leitura de cenários.
Isso não nega o acaso. O mundo é cheio de variáveis imprevisíveis. No entanto, o acaso, por si só, não produz resultados sustentáveis. Ele apenas abre portas - e portas abertas não garantem travessia.
Portanto, ao dizer que "sorte é apenas um conceito", não se está reduzindo sua importância simbólica, mas reposicionando seu papel. Sorte deixa de ser um fator determinante e passa a ser uma lente interpretativa. E essa mudança, embora sutil, tem implicações profundas: ela substitui a espera pela ação, a justificativa pela responsabilidade e a passividade pela estratégia.
No fim, sorte é o nome que damos ao resultado quando não queremos - ou não conseguimos - explicar o caminho que nos levou até ele.
Stanley Martins Frasão
Advogado, sócio de Homero Costa Advogados Diretor Executivo do CESA Centro de Estudos das Sociedades de Advogados Membro da Comissão Nacional das Sociedades de Advogados do Conselho Federal da OAB

