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A nova geopolítica dos investimentos

O artigo destaca o potencial do Brasil na economia global, mas ressalta que inovação, estabilidade e boa gestão são essenciais para atrair investimentos.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Atualizado em 17 de junho de 2026 17:18

O capital global tornou-se irrequieto. Durante décadas, buscou eficiência. Hoje procura segurança, e poderá amanhã buscar resiliência. A combinação entre tensões geopolíticas, transição energética e reorganização das cadeias produtivas produza uma das maiores realocações de investimentos das últimas décadas.

Neste novo mapa econômico, o Brasil ocupa posição singular. Poucos países combinam a mesma abundância de recursos naturais, disponibilidade de energia renovável, capacidade agrícola, reservas de minerais críticos e escala de mercado interno. Em um mundo crescentemente preocupado com segurança alimentar, segurança energética e descarbonização, o Brasil possui ativos que se tornaram estratégicos.

Mas possuir ativos estratégicos não garante investimentos. A história econômica está repleta de países ricos em recursos e pobres em resultados.

Verdade é que a escala dos recursos disponíveis é impressionante. Estima-se que mais de US$ 30 trilhões estejam alocados em estratégias de investimento sustentável ao redor do mundo. Apenas os investimentos globais em tecnologias ligadas à transição energética devem superar US$ 4 trilhões anuais na próxima década. Mas permanece o questionamento sobre como disputar este capital.

Afinal, o Brasil compete não apenas com seus vizinhos latino-americanos, mas também com economias emergentes em todos os continentes. Menos que incentivos fiscais, busca-se credibilidade institucional, estabilidade regulatória e qualidade dos projetos apresentados.

É nesse contexto que instrumentos como o blended finance ganham relevância crescente. A combinação de recursos públicos, organismos multilaterais e capital privado permite reduzir riscos e tornar projetos brasileiros compatíveis com os requisitos de grandes investidores institucionais. O mecanismo já mobilizou mais de US$ 200 bilhões em diferentes mercados e tornou-se ferramenta central para financiar infraestrutura, energia renovável e projetos de transição climática.

Ao mesmo tempo, a instabilidade geopolítica cria efeitos indiretos favoráveis ao Brasil. Os fundos soberanos dos países do Golfo, por exemplo, administram mais de US$ 4 trilhões em ativos e aceleram sua diversificação geográfica. A complementaridade é evidente: de um lado, capital abundante; de outro, oportunidades em energia limpa, agronegócio, logística, infraestrutura e minerais estratégicos.

Entretanto, investimentos não são atraídos apenas por apresentações em roadshows ou missões empresariais. O capital produtivo segue o conhecimento. Por isso, a diplomacia comercial do século XXI precisa incorporar a diplomacia tecnológica.

Nesta nova economia, países que exportam lideram em inovação, propriedade intelectual, padrões regulatórios e conhecimento aplicado. A atração de investimentos depende cada vez mais da capacidade de integrar empresas, universidades, centros de pesquisa e governos em ecossistemas internacionais de inovação.

O Brasil possui exemplos bem-sucedidos, mas ainda carece de uma estratégia nacional consistente. Grandes contratos internacionais nas áreas de defesa, saúde, energia e infraestrutura deveriam incorporar, de forma sistemática e não apenas ocasional, mecanismos robustos de transferência tecnológica, desenvolvimento industrial e inovação de uso dual. O debate sobre offsets não deve permanecer restrito a exigências formais, mas sim monitorando resultados concretos, assegurando absorção tecnológica e transformando compras públicas em instrumentos de desenvolvimento.

Essa perspectiva deveria ser considerada também nos acordos comerciais em negociação. Mercosul-União Europeia, EFTA, Canadá e outras iniciativas não trazem apenas redução tarifária. Podem constituir também instrumentos de inserção estratégica em cadeias globais de valor, ampliando a previsibilidade para investidores e reduzindo custos de integração produtiva.

Como as antigas rotas marítimas, os acordos comerciais – em um mundo fragmentado pela geoeconomia – podem desempenhar função semelhante: conectar mercados, reduzir incertezas e orientar fluxos de investimento.

Mas o desafio do Brasil será transformar vantagens comparativas em vantagens competitivas. Recursos naturais ajudam, instituições eficientes mais ainda, energia limpa gera interesse, grande mercado consumidor permite oportunidades. Mas é a capacidade de execução que gera confiança, num mundo que recompensa menos a abundância e mais a capacidade de organização.

No século XXI, desenvolvimento não dependerá apenas de recursos naturais. Depende da capacidade de combinar diplomacia, tecnologia, financiamento e execução. O Brasil já possui os ingredientes, mas falta transformar potencial em estratégia.

Welber Barral

Welber Barral

Sócio de Barral Parente Pinheiro Advogados. Advogado e doutor em Direito Internacional (USP).

Frederico Lamego

Frederico Lamego

Doutor em Relações Internacionais (UnB) e Assessor Especial para Assuntos Internacionais da CNI.