MIGALHAS DE PESO

  1. Home >
  2. De Peso >
  3. Agronegócio: A engenharia financeira como alternativa à recuperação judicial

Agronegócio: A engenharia financeira como alternativa à recuperação judicial

Crise financeira no agronegócio reforça a importância da gestão de passivos, reestruturação de dívidas e planejamento para preservar a atividade.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Atualizado em 2 de julho de 2026 17:50

O agronegócio brasileiro, pilar de sustentação do PIB nacional, atravessa um período de intensos desafios financeiros, tendo registrado uma escalada de pedidos de RJ - recuperação judicial entre 2021 e 2025. Contudo, mais do que apontar para uma suposta crise sistêmica, esse fenômeno exige uma leitura estratégica: o setor necessita de uma governança financeira e uma gestão de passivos tão sofisticada quanto a evolução tecnológica na área produtiva.

Dados da Serasa Experian revelam que o setor atingiu um recorde histórico em 2025, com 1.990 pedidos de RJ. Trata-se de um aumento de 56,4% em um ano, o que revela uma escalada drástica frente aos 534 pedidos registrados em 2023. Esse crescimento acelerou desde a reforma da lei 11.101/05, em 2020, que consolidou a segurança jurídica para o produtor rural pessoa física pleitear uma RJ.

A leitura atenta dos dados de inadimplência do Banco Central revela a verdadeira natureza do cenário: a crise é segmentada. Na carteira de crédito rural com recursos direcionados, a inadimplência média entre os produtores rurais pessoas físicas (PF) saltou de 1,4%, em 2021, para 4,37%, no ano passado. A partir de 2024, o indicador praticamente dobrou, alcançando seu maior patamar. Em contrapartida, entre os produtores estruturados como pessoas jurídicas (PJ), a inadimplência permaneceu estável e sob rígido controle durante todo o período, variando entre 0,33% e 0,67% (fechando 2025 em 0,52%).

Essa disparidade indica que produtores desprovidos de ferramentas corporativas de gestão de risco estão sendo afetados de forma muito mais severa pela volatilidade internacional e por quebras localizadas de safra. Já os grupos com maior maturidade gerencial conseguem absorver os choques, mantendo-se competitivos.

No âmbito da recuperação extrajudicial, o OBRE - Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial aponta um movimento interessante. Embora o número de processos permaneça estável (13 em 2025), o número de requerentes saltou de 26 para 55. Isso evidencia que grupos familiares e conglomerados econômicos têm buscado soluções conjuntas e estruturadas para o seu passivo.

Engenharia financeira como alternativa à RJ

Antes da adoção de medidas recuperacionais extremas, o mercado oferece mecanismos de reestruturação que podem proteger a operação e evitar os custos - e o desgaste - de um processo judicial. A reorganização passa por um diagnóstico profundo da operação e pela análise das alternativas.

Isso inclui, por exemplo, o mercado de capitais, com a substituição de dívidas de curto prazo por estruturas mais eficientes. Instrumentos como FIDCs, Fiagros, Notas Comerciais e CRAs - certificados de Recebíveis do Agronegócio permitem alongar o passivo, adequando o fluxo de caixa à capacidade real de pagamento.

Outro caminho é a utilização do MCR - Manual de Crédito Rural, que assegura ao produtor o direito de alongar o vencimento de operações em casos de frustração de safra ou queda de preços.

Há, ainda, a possibilidade de renegociação extrajudicial bilateralA ideia aqui é buscar acordos diretos com fornecedores de insumos e revendas, parceiros que muitas vezes detêm tickets médios de dívida superiores aos dos bancos e possuem interesse direto na manutenção da atividade produtiva.

Quando a reestruturação privada se mostra insuficiente, a recuperação judicial ou extrajudicial consolida-se como um instrumento legítimo e fundamental para a preservação da atividade. Mas essa alternativa não deve ser tratada como a primeira resposta a um momento de aperto de caixa.

Isso porque a entrada em RJ altera o relacionamento com credores, impõe forte retração na oferta de crédito novo e pode afetar a credibilidade perante o mercado, dificultando o acesso a insumos essenciais para safras futuras. O "custo da recuperação" vai além das custas processuais; ele impacta o dinamismo comercial da operação.

O cenário atual comprova que, em um setor submetido a variáveis incontroláveis - como clima, flutuações cambiais e tensões geopolíticas -, a gestão financeira madura é tão decisiva quanto a capacidade de produzir no campo. As dificuldades existem, mas devem ser enfrentadas com diagnóstico técnico, assessoria especializada e ferramentas que garantam não apenas a sobrevivência do produtor, mas a sustentabilidade e a continuidade de seu negócio no longo prazo.

Filipe Kuss

Filipe Kuss

Advogado no Martinelli Advogados, especialista em Contratos, Direito Imobiliário e Empresarial, pós-graduado em Direito Tributário no Centro Universitário Curitiba, pós-graduando em Direito Societário e Outros Negócios na FAE Business School, pós-graduando em MBA em Gestão Contábil e Tributária na UFPR, membro do grupo de pesquisa em Direito e Economia da UFPR.