Adaptação climática para Copa de 2030 já precisa ser debatida
O artigo aborda os impactos climáticos nas Copas, destacando adaptações necessárias para proteger atletas e garantir eventos seguros.
segunda-feira, 13 de julho de 2026
Atualizado em 10 de julho de 2026 15:58
Durante décadas, a principal preocupação em uma Copa do Mundo era o desempenho das seleções. Na edição de 2026, porém, um outro fator ganhou protagonismo: O clima. Ao longo do torneio, partidas estão sendo disputadas sob calor extremo, jogos sofreram atrasos em razão de tempestades severas e a organização passou a adotar pausas obrigatórias para hidratação em todas as partidas.
A decisão representa uma mudança relevante com relação ao protocolo tradicional. Como regra, as interrupções são obrigatórias quando o índice Wet Bulb Globe Temperature ("WBGT") atinge ou supera 32 °C. Para a Copa do Mundo de 2026, contudo, a organização optou por adotá-las em todas as partidas do torneio, independentemente das condições climáticas locais, com o objetivo de assegurar tratamento uniforme às equipes.
Enquanto parte de jogadores, treinadores e torcedores criticou a interrupção do ritmo de jogo e seu potencial uso estratégico, ou mesmo comercial, a justificativa oficial permaneceu centrada na proteção da saúde dos atletas.
Fato é que, independentemente da posição adotada nesse debate, os episódios de tempestades severas, riscos de raios e calor intenso registrados durante a Copa de 2026 revelam uma mudança mais profunda. A discussão vai além da conveniência das pausas para hidratação, mas à necessidade de adaptar grandes competições esportivas ao ar livre a uma nova realidade climática.
Na partida entre México e Equador, no dia 30 de junho, disputada no Estádio Azteca, o início do jogo foi adiado por cerca de 1 hora em razão de tempestades e risco de raios. Já na disputa entre França e Iraque, na Filadélfia, o jogo foi paralisado por mais de 2 horas devido às tempestades intensas.
A discussão climática ganha contornos ainda mais relevantes quando pensamos no mundo de 2030, quando a Copa do Mundo será sediada na Espanha, em Portugal e no Marrocos, com partidas comemorativas na América do Sul. Boa parte dos jogos ocorrerá na Península Ibérica, durante o verão do hemisfério norte, período historicamente marcado por temperaturas elevadas.
A escolha das sedes coincide com um momento particularmente delicado para a Europa, considerando que, nas últimas semanas, sucessivas ondas de calor levaram diversos países a registrar temperaturas recordes, mobilizar planos de emergência e emitir alertas de saúde pública. Segundo autoridades nacionais de saúde da França, da Bélgica e da Espanha, a onda de calor já provocou milhares de mortes relacionadas ao calor, além de impactos sobre serviços públicos, infraestrutura e atividades ao ar livre.
Esses eventos recentes reforçam uma constatação reiteradamente apontada pela Organização Meteorológica Mundial e pelo Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas (Copernicus Climate Change Service): a Europa é o continente que mais aquece no planeta.
Se esse cenário persistir e os efeitos do aquecimento global continuarem a intensificar a frequência e a severidade das ondas de calor até 2030, medidas hoje tratadas como excepcionais tendem a se tornar parte permanente da organização do campeonato. A pausa para hidratação poderá ser apenas a manifestação mais visível de um processo de adaptação mais amplo, que poderá envolver maior concentração de partidas em horários noturnos, tecnologias de resfriamento de gramados, ampliação de áreas de sombra para atletas e torcedores, monitoramento meteorológico em tempo real e protocolos mais rigorosos para calor extremo e tempestades, além da revisão de calendários e critérios para suspensão ou adiamento de jogos.
De quatro em quatro anos, acompanhamos a maior competição de futebol do planeta. Mas, em matéria climática, quatro anos podem representar mudanças profundas: revisão de NDCs (Contribuição Nacionalmente Determinada), intensificação de eventos extremos e maior pressão por medidas de mitigação e adaptação.
Para além da disputa em campo, a Copa de 2030 também precisará lidar com uma realidade incontornável: o clima. Que os próximos anos sirvam para fortalecer compromissos e para mitigar o aumento da temperatura global e reduzir os riscos climáticos na origem.
Solange Cunha
Sócia coordenadora da área de Direito Ambiental e Mudanças Climáticas do Silveiro Advogados, é Mestre em Direito e Políticas Públicas pela Unirio, especialista em Direito Ambiental pela PUC-Rio e associada da União Brasileira da Advocacia Ambiental (UBAA).
Laura de Paula
Advogada da área de Direito Ambiental e Mudanças Climáticas do Silveiro Advogados, pós-graduada em Gestão Estratégica em ESG pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e associada da UBAA.

