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Construir não pode significar financiar a obra sozinho

A desaceleração de um índice de custos não resolve o que hoje pesa no caixa de pequenas e médias empresas do setor.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Atualizado às 15:32

Há uma leitura apressada dos dados da construção que precisa ser evitada. Em julho, o Custo Unitário Básico da construção paulista subiu 0,45%, uma variação bem menor do que as registradas em maio e junho. Seria tentador enxergar nesse número o começo de um alívio para o setor. No mesmo período, porém, a confiança das empresas de obras de infraestrutura caiu para 46,7 pontos, abaixo da linha que indica confiança.

Os dois resultados não são contraditórios. O custo continuou subindo, ainda que mais devagar, e o CUB não mede toda a realidade de uma obra de infraestrutura. Mais importante: material é apenas uma parte da conta. Para executar um contrato, a empresa precisa ter dinheiro disponível antes de receber por aquilo que fez.

Uma obra começa financeiramente muito antes da primeira medição. Máquinas são mobilizadas, trabalhadores são contratados, combustível e materiais são comprados, garantias são apresentadas. Só depois vêm a execução, a conferência do serviço e o pagamento. Entre uma etapa e outra, a construtora sustenta a operação com caixa próprio ou crédito.

Esse intervalo sempre existiu. O problema aparece quando ele se combina com juros altos, dificuldade de financiamento e pagamentos que não acompanham o ritmo das despesas. Nessas condições, uma obra contratada para atender ao interesse público pode acabar sendo financiada, durante meses, por quem a executa.

É aqui que, a meu ver, a discussão precisa mudar de lugar. Em vez de olhar apenas para a variação de um índice, é preciso olhar para a empresa que paga salários na sexta-feira, recebe do contratante semanas depois e não encontra crédito em condições razoáveis para atravessar esse período.

A Sondagem Indústria da Construção de julho/2026, realizada pela CNI em parceria com a CBIC, ajuda a dimensionar o problema. Foram ouvidas 321 empresas, das quais 253 eram pequenas ou médias. Elas representaram 78,8% da amostra, quase quatro em cada cinco participantes. Essa proporção não descreve todo o setor, mas mostra que o sinal captado pela pesquisa não veio apenas das grandes construtoras.

O indicador geral de acesso ao crédito ficou em 39,3 pontos no segundo trimestre. Não é a porcentagem de empresas que conseguiu financiamento nem uma taxa de juros. É um índice de percepção: Abaixo de 50, a dificuldade está mais disseminada. O recorte por porte é ainda mais revelador. O resultado foi de 31,9 pontos entre as pequenas empresas, 37,4 entre as médias e 43,1 entre as grandes. A distância entre pequenas e grandes chegou a 11,2 pontos.

Os juros elevados foram o problema mais assinalado pelas empresas: 36,2% fizeram essa indicação em uma pergunta que admitia até três respostas. É mais de uma em cada três. A falta de capital de giro aumentou de 11,1% para 12,6%, uma alta de 1,5 ponto percentual. Também não houve alívio perceptível nos insumos: esse indicador ficou em 66,2 pontos.

Quanto isso pode representar em dinheiro? Em junho, a taxa média registrada pelo Banco Central para novas operações de capital de giro das empresas foi de 1,74% ao mês. No rotativo, chegou a 2,51%. Se R$ 1 milhão precisasse permanecer financiado durante todo o período, 30 dias custariam entre R$ 17,4 mil e R$ 25,1 mil. Em 60 dias, a faixa subiria para R$ 35,1 mil a R$ 50,8 mil. Em 90 dias, chegaria a R$ 53,1 mil ou R$ 77,2 mil.

O cálculo aplica juros compostos às taxas mensais, sem amortizações no intervalo, e não inclui tarifas, tributos, garantias ou outras parcelas do custo efetivo total. Também não representa a taxa média da construção pesada, porque as séries do Banco Central abrangem empresas de diferentes setores. É uma referência pública para dar escala ao problema: em três meses, apenas os juros dessa faixa consumiriam entre 5,31% e 7,72% do valor financiado.

Para uma empresa menor, atraso de medição ou de pagamento não é uma abstração contratual. Pode significar renegociar com o fornecedor, adiar a compra de um equipamento ou usar uma linha bancária cara para manter a folha em dia. O fornecedor, por sua vez, reduz prazo, exige garantia ou aumenta o preço. A pressão passa de uma empresa para outra e reaparece na licitação seguinte.

Quando esse risco se torna recorrente, ele entra no preço. Algumas empresas aumentam sua margem de segurança; outras simplesmente deixam de disputar determinados contratos. O resultado pode ser menos concorrência e propostas mais caras, inclusive para o próprio poder público. Não se trata, portanto, de um problema restrito ao balanço das construtoras.

Também é necessário cuidado ao usar o CUB como sinal geral do setor. O índice paulista acompanha custos ligados a projetos-padrão de edificações. Uma rodovia, uma ponte, uma ferrovia ou uma obra de saneamento possuem outra combinação de máquinas, concreto, aço, combustível, logística e mão de obra. O CUB ainda acumulava alta de 6,23% em 12 meses, mas nem esse resultado autoriza tratá-lo como medida universal da construção pesada.

Em obras de infraestrutura, referências como SINAPI e SICRO podem ser relevantes, assim como a fórmula de reajuste prevista no contrato. O ponto não é escolher um índice por conveniência. É verificar se a regra contratual acompanha, com alguma fidelidade, os custos do objeto contratado.

Não defendo que toda alta de preço gere reequilíbrio automático. Reajuste e reequilíbrio são mecanismos diferentes. O primeiro segue a periodicidade e o índice definidos no contrato. O segundo depende da demonstração de um fato capaz de alterar de forma relevante as condições originais e exige análise de impacto e de responsabilidade pelos riscos.

Mas há um aspecto que a discussão jurídica não pode ignorar: tempo também produz efeito econômico. Um direito reconhecido muitos meses depois pode chegar tarde para a empresa que precisou financiar a execução durante todo o processo. A decisão pode estar correta no papel e ser insuficiente para preservar a obra, o fornecedor ou a continuidade da operação.

Esse é um dos motivos pelos quais projeto, prazo de pagamento, garantia, reajuste e distribuição de riscos não deveriam ser tratados como temas separados. Juntos, eles definem quanto capital a empresa terá de comprometer e por quanto tempo. Um contrato mal estruturado não elimina o risco. Apenas o transfere, muitas vezes para a parte com menor capacidade de suportá-lo.

O problema é maior do que a oscilação de um mês. A CNI estima que o Brasil investe, em média, cerca de 2% do PIB ao ano em infraestrutura desde 2003 e considera necessário um patamar de 4%. Aumentar o número de projetos anunciados não será suficiente se eles chegarem ao mercado com estudos incompletos, financiamento inadequado e contratos incapazes de responder aos problemas da execução.

Também não há razão para anunciar uma paralisia geral. A utilização da capacidade operacional permaneceu em 67%, e a intenção de investimento, embora tenha recuado para 42,4 pontos em julho, continuou acima da média histórica de 38,4. Existe disposição empresarial. O que os números revelam é uma disposição que convive com crédito difícil, custos acumulados e insegurança sobre o tempo de retorno do dinheiro empregado.

O setor de infraestrutura ganhará espaço quando uma empresa puder entrar em uma obra sabendo quanto risco assumiu, quando deverá receber e como o contrato reagirá se as condições mudarem. Enquanto executar significar antecipar recursos por prazo incerto e buscar crédito caro para manter o canteiro funcionando, a queda de um índice mensal será uma boa notícia pequena demais para o tamanho do problema.

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CBIC, condições financeiras da indústria da construção no segundo trimestre de 2026. Disponível em: https://cbic.org.br/cni-condicoes-financeiras-da-industria-da-construcao-continuam-negativas-no-segundo-trimestre/. Acesso em: 5 ago. 2026.

CNI, ICEI - Resultados Setoriais, julho de 2026. Disponível em: https://www.portaldaindustria.com.br/estatisticas/icei-setorial/. Acesso em: 5 ago. 2026.

CNI, Sondagem Indústria da Construção, junho de 2026. Disponível em: https://www.portaldaindustria.com.br/estatisticas/sondagem-industria-da-construcao/. Acesso em: 5 ago. 2026.

SindusCon-SP, CUB paulista de julho de 2026. Disponível em: https://sindusconsp.com.br/custo-da-construcao-em-sp-desacelera-e-registra-alta-de-045-em-julho/. Acesso em: 5 ago. 2026.

IBGE, SINAPI. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/pesquisa/sinapi/tabelas. Acesso em: 5 ago. 2026.

DNIT, SICRO. Disponível em: https://www.gov.br/dnit/pt-br/assuntos/planejamento-e-pesquisa/custos-referenciais/sistemas-de-custos/sicro. Acesso em: 5 ago. 2026.

CNI, infraestrutura e investimentos. Disponível em: https://www.cni.portaldaindustria.com.br/web/cni/atuacao/infraestrutura. Acesso em: 5 ago. 2026.

Lei 14.133/2021. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14133.htm. Acesso em: 5 ago. 2026.

Banco Central, taxa de capital de giro total para pessoas jurídicas. Disponível em: https://dadosabertos.bcb.gov.br/dataset/25444-taxa-media-mensal-de-juros-das-operacoes-de-credito-com-recursos-livres---pessoas-juridicas--. Acesso em: 10 ago. 2026.

Banco Central, taxa de capital de giro rotativo para pessoas jurídicas. Disponível em: https://dadosabertos.bcb.gov.br/dataset/25443-taxa-media-mensal-de-juros-das-operacoes-de-credito-com-recursos-livres---pessoas-juridicas--. Acesso em: 10 ago. 2026.

Menndel Assunção Oliver Macedo

Menndel Assunção Oliver Macedo

OAB/DF 36.366 / OAP 62.999P. Bacharel em direito pelo UniCeub. Especialização em Direito, Estado e Constituição pelo SuiJuris. MBA na Massachusetts Institute of Business (MIB). Especialização em Contabilidade Tributária no IBET. Mestrando em Economia pelo IDP. Diretor Jurídico da Câmara Brasil-Asia. Coordenador tributário de diversas entidades de classe do setor de infraestrutura como ANEOR, ABICOPI, SINICON e FENOP.