Crise no governo

22/6/2005
Mano Meira

AMANHECER NA ESTÂNCIA (Causo dos Ratos do Erário)

"A roda do mate perdura

enquanto há água na cambona,

abancado numa carona

reforço a cevadura,

lá fora a brancura

de um tapete de geada,

cá no galpão a indiada

segue despacito, proseando,

causos desenrolando

na fria madrugada:

 

Fosse somente a carestia,

mas carecemos de representante,

mal estamos de mandante,

e na escolha da capatazia,

só botam sem serventia,

não valem um vintém,

inútil procurar alguém

 que por real não tenha ânsia,

comedido e sem ganância

pra administrar como convém.

 

O colono tá descrente,

além de tudo acuado,

sem ânimo, abombado

ele que era um valente,

hoje até falta semente

porque a seca foi mui grande,

tudo mermou no Rio Grande

e a crise atingiu a todos,

menos àqueles donos

da corrupção que se expande.

 

Nisso, o tio Romário,

trançador de muita perícia,

conta sem malícia

o causo dos mandatários,

senadores e deputados vigários,

uma praga igual a ratos,

chicanearam contratos

se infiltrando nos correios,

e em mais outro enleio

venderam seus mandatos.

 

Assim foi a prosa,

tio Romário mui sabido,

sendo por todos ouvido

disse à sua moda

como anda a poda

dos amigos do alheio,

da infestação nos correios,

praguedo igual a ratos,

negociatas com mandatos

escândalos de parar rodeio.

 

O dia já clareando,

à lida nos chamava,

tio Romário o relato findava,

e aos pingos fomos chegando,

procurando a volta e montando

eles se vão numa porvadeira,

eu fico na mangueira

cismando de mim para comigo:

se gente fosse como bicho, amigo,

não haveria robalheira."

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