Crise no governo

1/7/2005
Marcos José do Nascimento

"Com efeito, cada vez mais renova-se em mim a certeza de que Comissões Parlamentares de Inquérito não são ambientes mais apropriados para investigações sérias, a despeito da transmissão ao vivo. De parte a parte, há sempre muita manipulação, falta de preparo técnico para interrogar-se qualquer pessoa, seja denunciado ou testemunha. Salvo raríssimas exceções, um ou outro parlamentar sobressai-se nesse mundo de interesses tão pequenos. Há os que se arvoram em ditar normas de moral e conduta em tom elevado de voz, como se estivessem em um palanque, em plena campanha por eleição, há outros que tentam desvirtuar as leis, em especial a Constituição Federal, que funcionariam a reboque de seus argumentos pobres insustentáveis. Houve até deputado federal invocando imunidade parlamentar para o Deputado Roberto Jefferson, a fim de que ele respondesse às perguntas no momento que melhor aprouvesse, quando se sabe que, no curso de um depoimento, mesmo uma sindicância, quem responde, deve fazê-lo logo após ser indagado, uma vez que, de uma resposta, podem nascer novas perguntas, novas linhas de inquirição e a imunidade parlamentar não serve para uma atitude como esta. Não há como crer nesses embates políticos, em que se movem alguns atores movidos pelo interesse em aparecer na telinha, fazendo pose, gesto e usando timbre de voz apropriado para impressionar. Se é certo que há gente séria, disposta a um bom trabalho, mesmo que em minoria neste país, em especial no legislativo federal, mais certo ainda é que partidos como o PFL e PSDB pouco acrescentam às investigações, sempre cuidadosos em não avançar muito em determinados temas, em não aprofundar determinados ângulos de determinados assuntos, preocupados em colher dividendos da destruição da imagem do PT, amparados por uma mídia nacional que vive de lançar sempre um novo escândalo no ar, à busca de audiência e tiragem, quando não de outros interesses não confessados, que não vêm à luz, que, com muito escassas exceções, não primam nem por buscar ouvir a outra parte, quando um assunto cai-lhes no colo. Uma investigação séria atém-se aos fatos, ao que dizem os que depõem, nas suas contradições e omissões. Digno de nota é que o Deputado Roberto Jefferson calou, quando indagado sobre o financiamento da campanha de FHC em 1994, sobre o que ele afirmou na imprensa sobre doações por fora e por dentro, de um para outro partido, o PSDB e o PTB. Ele, simplesmente, não respondeu à pergunta feita, como em outros momentos, usando de artimanhas, buscou envolver parlamentares em elogios e divagações longas, mas sem responder ao que foi perguntado. Ele se assemelha à secretária demitida, para uns fatos tem uma memória prodigiosa, para outros, ele apenas se omite. Se ele tem muito a contar, como quer crer, seria interesse que contasse tudo, desde os tempos da era Collor, até os idos de hoje, sem omissões e sem tergiversar. O que, talvez, seria muito pedir a ele, posto que pelas suas atitudes até então, sua conduta assemelha-se a um teatro, em que ele fala, fala, usando de uma imunidade que está por cair e que se fora ele um cidadão comum, por muito menos já estaria preso e processado."

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