Desarmamento 6/10/2005 Mauricio Branda Lacerda "Sobre o referendo de 23 de outubro, acerca da proibição do comércio de armas, muito se tem discutido acerca de conveniência de sua proibição, ou não. Argumento dos mais ponderáveis é a absoluta impropriedade da proibição, para os fins a que se propõe. Havendo exceções, a valorização – embora não admitida -, do tráfico, a ineficiência do Estado em seu controle, e assim vai. Desde logo, pessoalmente, por absoluta ausência de habilidade em seu manejo, o que demandaria horas e horas de treino, para seu porte - as quais não pretendo gastá-las para este fim -, não tenho qualquer interesse na liberação de seu comércio. Tampouco entendo que seja estrategicamente interessante sua retirada do comércio legítimo. A questão da arma está ligada, isto sim, à violência. A violência tem a ver com a força do deus dos ventos, Eolo. A vis eólica, algo arrebatador, a que não haja reação humanamente possível. Algo, portanto, de que os seres humanos, feitos de humus, da terra, têm medo! Vide o recente e violentíssimo Katrina. A questão que se coloca é se proíbe, ou não, a venda do medo e da violência que o provoca. O medo e seu instrumento principal! Meu Deus do céu (di-lo-ia com toda a propriedade). A questão da violência do ser humano, intimamente afetada ao poder, foi objeto de estudo do antropólogo René Girard em suas obras 'A violência e o sagrado', o 'Bode Expiatório', entre outros. Chega a ser paradoxal que qualquer pessoa, em pleno século XXI, venha defender a posse de um instrumento de violência, para qualquer fim que seja. É a posse de objetos que tais que fazem do criminoso, criminoso! Do bundão não faria, como qualquer coisa não faria do bundão, herói! Não é preciso ser cristão, católico, evangélico, da religião que seja para admitir uma verdade óbvia de que Jesus Cristo, praticamente, exterminou todas as religiões sacrificais de pessoas ou animais, tornando-se, ele próprio, como o apregoa a igreja católica, o próprio sacrifício. O sacrifício final e inútil para fins salvíficos! De quê? Assim como os soldados romanos difundiram, na época, o culto a Mitra ou ao Sol Invictus, o sacrifício violento e sangrento de um boi, cujos carne e sangue se tornariam alimento. Violência que Paulo, apregoando o pão e o vinho como a carne e o sangue de Jesus, mitigou, aí fazendo a divisão da história, entre o primitivo reinado da violência e o pensar a violência. Enfim, bem ou mal, ainda que em diminutas proporções, Jesus, foi o Cristo usado por Paulo para a mitigação da violência humana. Porém, depois da declaração dos direitos humanos, em 1945, após a guerra, a violência tem sido extremamente rechaçada, mesmo. É hora de colocar a questão fundamental: quem usa de violência e de seus instrumentos é irracional (animais, todos somos). Para acabar com a violência, um dos passos é acabar com seus instrumentos específicos. Enfim, o sacrifício religioso, exterminado pelo cristianismo, com a sublimação daquele praticado com Jesus, nada mais é do que a sublimação da violência ínsita a qualquer ser humano, que existe. Vira e mexe, desabafamos, expelimos o bafo, o ar preso na garganta, sempre com alguma violência arrebatadora sobre o que abafava o ar preso. Fôssemos portadores de um três oitão, desabafaríamos, com a mesma violência, em algo, ou alguém. A sociedade é nada. Ela não existe. Existem as pessoas que a compõe e todas querem falar por este ente que não é qualquer delas. A arma não irá para os conscientes, para os homens ou mulheres de bem, se defenderem. As armas irão para homens ou mulheres, legitimamente ou não, bandidos ou não e serão violentas, como soem ser – esta nunca legítima! Domingo, dia 23, vão à missa!" Envie sua Migalha