Presidente nacional

13/10/2005
Lafaiete Luiz do Nascimento

"Uma verdadeira pérola é a reflexão do pensador Emir Sader, publicada na Agência Carta Maior, em 11/10. No texto, Sader compara o troglodita procedimento tucano de escolha de seu presidente nacional, por meio de arranjo de bastidores, com 38 votos da elite paulista, com a festa democrática que foi o processo de eleições diretas (PED) do PT, com a participação de 215 mil petistas, no segundo turno (no primeiro votaram mais de 300 mil!).  

'Com 38 votos a favor, foi eleito no fim de semana passado o presidente do PSDB em São Paulo, sede da força hegemônica do partido que já governou o Brasil durante oito anos e alenta a esperança de repetir a dose a partir de 2007. Foi eleito um candidato único, resultado do acerto dos dirigentes tucanos pré-candidatos à presidência da república, sem debates, com conchavos de bastidores, sem nenhuma participação do que seriam os militantes tucanos, como convêm: um assunto das elites paulistas com elas mesmas. Enquanto isso, cerca de 215 mil petistas voltavam às urnas, para encerrar o maior processo eleitoral que jamais um partido brasileiro havia promovido, ao longo de vários meses, para eleger o presidente do PT. Foram necessários centenas de debates por todos os Estados brasileiros, mais de 500 mil votos, em meio à campanha totalitária da grande mídia privada, para que o PT escolha quais dirigentes estarão à cabeça do partido nos próximos e cruciais anos para a esquerda brasileira. Como o papel suporta qualquer coisa – e a internet faz circular, junto com todo tipo de vírus e de venda de produtos – se disse tudo ou quase tudo, tentando desmerecer as eleições internas do PT. Qualquer que fosse o resultado, tudo ia continuar igual. Quem apoiou a esquerda nas eleições vai apoiar a continuidade da direção, se isso acontecer. Todos são marionetes da velha direção. Nada mudou. A natureza petista está irreversivelmente maculada. A política está perdida, entreguemos de vez tudo na mão dos economistas – e sejamos amigos deles, para nos darmos bem. Abandonou-se o PT no meio das eleições desconhecendo que a realidade não é o que a gente quer que ela seja, mais ainda quando se tenta adaptá-la a decisões que têm calendários eleitorais e opções pré-estabelecidas'. 'Justo na sua maior crise, o PT decidiu enfrentar as eleições marcadas. Assim faz um partido democrático. Convoca todos os seus membros para pronunciar-se, apresentando uma enorme gama de listas, promove centenas de debates por todo o país. Um partido que faz isso sai fortalecido, com mais confiança em suas forças. E precisa muito dessas forças. Porque a direção anterior, ao longo de vários anos, praticou atos ilegais, criou um caixa 2, dilapidou o nome do PT, deixou-o totalmente vulnerável aos ataques da direita. Todos os responsáveis, diretos ou indiretos, todos os que participaram desses atos, não têm o direito de seguir sendo membros do PT. Devem ter todo o direito de defender-se na Justiça das acusações que lhes são feitas. Mas mesmo que não se comprovem juridicamente deslizes, politicamente não podem continuar a ser membros de um partido que, se não recuperar sua imagem de honestidade, de lisura, de transparência pública, estará mortalmente ferido. E para isso precisa deixar de contar nas suas filas com os responsáveis políticos pelos graves erros cometidos'. 'O desafio para o PT é o de ser o partido-eixo da proposta pós-neoliberal. Para isso, é preciso que a nova direção do PT não permita que se perca o pique da mobilização partidária, feita nas piores condições da vida do partido, mas que levou centenas de milhares de militantes a reafirmar sua disposição de reconstruir o PT e de enfrentar os desafios que temos pela frente. Só o petismo e os petistas salvarão o PT. Dos inimigos não deveremos esperar senão o que nos têm dirigido – mentiras, campanha totalitárias, vontade de destruição da maior força que a esquerda construiu no Brasil. Quem contribuiu para fragilizar o PT dentro do partido deve ser duramente e imediatamente punido. Quem contribuir para tentar destruir o PT, fora do PT, deve ser duramente combatido. Que as eleições internas tenham sido um elemento que coloque as condições de reconstrução do PT. Disso depende a esquerda brasileira e o futuro do Brasil'.  

Quem é Sader? Professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de 'A vingança da História'."

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