Crise política

20/10/2005
Pedro Paulo Porto Filho - escritório Porto Advogados, mestrando em Direito Constitucional pela PUC/SP

"Li com muita revolta no jornal 'O Estado de S. Paulo' a entrevista do Sr. Delúbio Soares, ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, partido este do nosso atual presidente. Na referida entrevista, o Sr. Delúbio afirma, de forma simplista e sem nenhuma vergonha na cara, que toda essa história vai acabar em 'piada de salão'. Pasmem senhores! Eu fiquei atônito com tal afirmação. Realmente, ou melhor, com certeza, o ex-tesoureiro não deve estar bem de suas faculdades mentais. O que estamos vendo e vimos pela televisão e jornais recentemente foi talvez o maior assalto aos cofres públicos de toda a história do país. Fala-se em bilhões como se fossem centavos. Por muito menos, o antigo premier alemão, Helmut Koll, caiu. Falam em tráfico de influências dentro e fora do país. Até os nossos colonizadores receberam uma visita oficial do Sr. (Embaixador Dativo) Marcos Valério, em nome da República do Brasil. É certo, como saiu na imprensa, que esse dinheiro deve ter vindo de diversas fontes, como de um empresário das telecomunicações, de fundos de pensões e de contratos superfaturados de estatais. Acreditar que tal dinheiro tenha vindo de empréstimos bancários, como sustenta o Sr. Marcos Valério, é acreditar em contos de fadas. É fazer pouco da inteligência alheia. Aliás, nem o Vice-Presidente da República, supostamente aliado, acredita nessa fantástica história, como falou em uma entrevista recente. Data vênia, a CPI e seus membros, que me desculpem, mas não estão tendo competência suficiente para desbravar esse emaranhado de documentos e informações. Cassar apenas dez, doze parlamentares não vai mudar o Brasil nem a corrupção que o assola. Muito menos prometer mudanças na lei eleitoral. As piores leis nascem justamente nesse momento de crise, com a finalidade de dar uma justificativa ao povo. Não quero instaurar, deixe-se registrado, a fase do 'Terror' imposta pelos jacobinos revolucionários franceses, mas, certamente, não podemos fugir à luta, como diz o hino nacional. Devemos fiscalizar esses deputados e senadores, assim como os membros do Executivo. Alguém se lembra em quem votou para Deputado Federal, Estadual e Vereador? Pois bem, eles são tão importantes quanto os membros do Executivo. O Brasil não deve ser mais o país do futuro, o Brasil tem que ser o país de agora. Não deve dar crédito a um Presidente que, no meio de tanta lama, finge não saber de nada. Ora, como mesmo disse o promotor aposentado, vice-prefeito e ex-integrante do PT Hélio Bicudo, é claro que o presidente sabia de todas as manobras, tanto as realizadas no Palácio do Planalto como no Congresso Nacional. Primeiro, porque, segundo o próprio jurista, ele é uma pessoa extremamente concentradora. As decisões partem sempre dele. Segundo, porque é de se crer que, quando se está numa campanha eleitoral, são discutidos também os aspectos financeiros com o seu líder maior, o candidato. Além do mais, ele precisa saber a quem tem o dever de fidelidade, e aqui não me refiro a fidelidade política, mas sim financeira. Assim, não há que se falar em desconhecimento por parte do Presidente, apesar da CPI não ter comprovado nada. Aliás, como ele mesmo disse, 'fui traído'. Realmente, ele foi traído pelo seu próprio interesse pessoal, a reeleição. Há que se deixar claro que, havendo indícios de crime, deve o Presidente da República ser investigado, custe o que custar, sem medos. O PT, na verdade, caiu de joelhos diante de sua própria arrogância histórica. Aonde está aquele  olhar de superioridade do PT, em especial do Aluísio Mercadante? Repita-se, ou melhor, frise-se, havendo indícios de crime de responsabilidade do Presidente de República é imperioso investigar com profundidade, até as últimas conseqüências, seja elas quais forem. Nós já sobrevivemos a isso. O impeachment não é um ato discricionário, uma mera liberalidade dos deputados e senadores. É um compromisso moral para com a Constituição Federal e a República, apesar de ser um julgamento político. Espero, afinal, que o 'salão' ao qual se referiu o Sr. Delúbio Soares seja o mesmo onde os Czares da Rússia foram assassinados quando da Revolução de Outubro. Não estou, pelo amor de Deus, pregando que devemos matar o Sr. Delúbio Soares. O que não pode acontecer é assistirmos passivamente  a um simples tesoureiro, envolto em lama até o pescoço, dizer com orgulho que nada será averiguado e que Constituição Federal será rasgada,  fazendo pouco caso das sérias denúncias e investigações realizadas. O Sr. Delúblio além de ser um cara de pau, desculpe-me a palavra vulgar, demonstrou nessa entrevista ser uma pessoa extremamente otimista, tipicamente  louca  e desesperada. Sorte dele, por enquanto."

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