Transposição do São Francisco

26/10/2005
Abílio Neto

"Prezado Diretor: o Migalhas às vezes me surpreende e o fez, ontem (Migalhas 1.280 – 25/10/05 – "Outras preocupações"), na abertura do informativo falando sobre a transposição do São Francisco e citando os alemães Spix e Martius (1817 a 1820), que já naquele tempo demonstravam nobres preocupações ecológicas. A primeira vez que vi o São Francisco foi, ainda lembro, no início da década de setenta do século passado. O sertão pernambucano passava por uma seca danada, e descia este migalheiro de Salgueiro com destino a Petrolina. Passei por Cabrobó seguindo aquelas estradas retas do sertão que parecem não ter mais fim. De repente, após uma subida, surgiu uma magnífica visão de um espelho d'água embelezando uma cidade que não por acaso chamava-se Santa Maria da Boa Vista. Era uma paisagem deslumbrante: a cor esverdeada das águas do Velho Chico contrastava com toda a paisagem triste da seca que eu tinha deixado pra trás. Parei o carro e agradeci a Deus por ter nascido com a visão! Mas perguntei a mim mesmo, como é que tantos morrem de sede e de fome com tanta riqueza nesse vale? O tempo e as ações governamentais que vieram depois não responderam à minha pergunta. Vieram o imenso lago de Sobradinho, Itaparica e os projetos de irrigação às margens do rio, do lado baiano e pernambucano. Os sedentos e famintos continuam habitando nas suas proximidades. O projeto de Lula vai acabar com esse drama? Particularmente não acredito. Lembro que quando a represa de Sobradinho alagou pequenas localidades, muitos morreram de desgosto por terem que abandonar tudo que tinham construído. Eram as comunidades de Remanso, Casa Nova, Santo Sé e Pilão Arcado. Elas foram homenageadas no lindo xote Sobradinho, de Sá e Guarabyra. Se não for demais, peço que publiquem essa poesia em homenagem aos migalheiros que não a conhecem. Obrigado e desculpem o saudosismo.

'Sobradinho (Sá e Guarabyra)

 

O homem chega

Já desfaz a natureza

Tira a gente, põe represa,

Diz que tudo vai mudar

 

O São Francisco

Lá pra cima da Bahia

Diz que dia menos dia

Vai subir bem devagar

 

E passo a passo

Vai cumprindo a profecia

Do beato que dizia

Que o sertão ia alagar

 

O sertão vai virar mar

Dói no coração!

O medo que algum dia

O mar também vire sertão

 

Adeus Remanso, Casa Nova, Sento Sé,

Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir!

Debaixo dágua, lá se vai a vida inteira,

Por cima da cachoeira, o Gaiola vai subir!

 

Vai ter barragem

No sertão de Sobradinho

E o povo vai se embora

Com medo de se afogar

 

Vai virar mar...dói no coração!'"

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