Crise política

21/11/2005
Pedro Luís de Campos Vergueiro - Procurador do Estado de São Paulo aposentado e advogado

"Narram os jornais que o Deputado (por enquanto) José Dirceu vem mantendo uma movimentação intensa atrás de apoio para evitar a cassação do seu mandato. O que, e por que, ele teme tanto para ter de, alhures, aliciar amparos? Para que viajar tanto? Afinal, qualquer pessoa de mediano entendimento sabe que o político que não tenha culpa para expiar não tem necessidade de espiar os redutos políticos alheios para ver se encontrará algum auxílio. Da análise das afirmações mais recentes, é possível aquilatar que sua preocupação é apenas dizer que não existem provas contra ele, o que faz questão de estar sempre frisando. Ora, sua presença no Tribunal da Ética Política não se dará porque, como se diz, meteu a mão na massa e que este fato está comprovado e documentado. Não é por isso não. Se o fosse, nem mesmo, em tese, o amigo e eterno Presidente Fidel Castro disponibilizaria o ombro amigo para que algumas fotos tocantes fossem sacadas. Se o fosse, estaria demonstrada muita ingenuidade de sua parte. Pela projeção que desfrutou, deixar rastros evidentes da prática de um comportamento daqueles não condiz com a governabilidade da qual diz ser apologista. O fato é que a ocorrência de muitas irregularidades vem sendo apontadas. Evidentemente, esse apontamento, ou denúncia, não poderia partir do próprio Governo de que José Dirceu fez parte. Se tivesse partido, para alívio global, há muito teríamos novos governantes federais. Mas coisas tais não se harmonizam com a transparência, é claro. Tudo quanto vem sendo contado e apurado nas CPIs, são coisas que são vistas e ouvidas, em especial as absurdas justificativas apresentadas pelos partícipes envolvidos nos fatos, inclusive durante o período em que ele foi governo. Aliás, pelo teor e clima de suas declarações, deve estar surdo. A razão do processo de cassação é o seu comportamento político na condução das coisas públicas, enquanto foi o Chefe, sendo substituído por Dilma Rousseff, a atual plenipotenciária do governo federal. O julgamento tem natureza político-ética. O que está sendo levado a julgamento é o seu comportamento, a inadequação política do comportamento de quem não nega o fato, mas, deixou que o fato acontecesse, por interessada desídia. Desídia, daí ter sido posto para fora do governo; afinal, a desídia constitui justa causa para a despedida do trabalhador. Está na CLT... Nada é peremptoriamente negado pelo Deputado José Dirceu, pois sua atitude atual está sendo a de voltar as suas origens, a de um terrorista qualquer que, por não mais caber pegar em armas porque a lei do desarmamento está em vigor, faz uso das palavras como arma. Quem desestabilizou o governo, se é que algum dia ele teve alguma estabilidade, foram os próprios companheiros, sobretudo os que não apresentaram explicações convincentes para os atos que lhes foram imputados. E a consequência de tudo que já está apurado, não se pode negar, o que merecem é ser escorraçados do poder, do governo."

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