Religião 9/12/2005 Conrado de Paulo "Caro Sr. Alexandre de Macedo Marques. Alguns conhecidos meus, que se dizem cristãos, têm-me como uma antítese daquilo que se julgam ser. Em primeiro lugar, não sou 'cristão' porque Jesus não criou nenhuma Igreja, nenhuma religião - apenas reformou a sua velha religião, o judaísmo. Aliás, é Ele mesmo quem o diz: 'Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-la, mas completá-la' (Mateus 5, 17). Em segundo lugar e definitivamente, não sou 'cristão' porque a palavra 'cristão' remete na verdade a uma religião fundada por Paulo de Tarso e, assim, é mais adequado falar em paulinismo. Ecce homo: 1) Eu não ando em igrejas e minhas orações eu as faço - quando e se as faço – sozinho, no silêncio do meu quarto. 2) Certa vez, recusei um convite para participar de uma comitiva que iria entregar donativos aos chamados flagelados, ao tomar conhecimento de que iriam levar câmeras fotográficas e filmadoras para registrar o 'evento'. 3) Não me mortifico na Semana Santa, pois não acho que se deva glorificar a morte, mas saúdo o Ressuscitado com uma dionisíaca taça de vinho. 4) Não tenho ânsias pelo vil metal e a mim me basta o salário que recebo, sem prejudicar ninguém. 5) Sempre que posso empresto a conhecidos mais 'precisados' pelo que sou severamente admoestado, porquanto, dizem-me, estaria apenas reforçando práticas irresponsáveis, perdulárias – essas coisas. Preocupado, quis saber quais teológicas penas me esperariam no Juízo Final e encontrei o seguinte, dito justamente por Jesus: 'Dá a quem te pede, e não voltes as costas a quem te pedir emprestado' (Mateus 5, 42). Já mais aliviado e lembrando-me da comitiva de doação aos flagelados, li também o seguinte: 'Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles. De contrário, não tereis nenhuma recompensa de vosso Pai que está nos Céus' (Mateus 6, 1). Aliviado, continuei a leitura e aprendi: '... que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo' (Mateus 6, 4). Sentindo-me limpo de faltas, li, então, as seguintes palavras: 'Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar, de pé, nas sinagogas, e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Tu, quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, recompensar-te-á' (Mateus 6, 5-7). Tomado de uma boa sensação de não arrependimento, isto é, de não precisar de arrependimento, continuei minha leitura: 'E, quando jejuardes, não mostreis um ar sombrio, como os hipócritas que desfiguram o rosto para que os outros vejam que jejuam. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que o teu jejum não seja conhecido dos homens, mas de teu Pai que está presente no oculto' (Mateus 6, 16-18). Feliz, vi à minha frente, à altura de meus olhos, o luminoso habeas corpus do meu enorme crime capitalista de privilegiar o ser em detrimento do ter: 'Não acumuleis tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar. Acumulai tesouros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem os corroem, nem os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar (...) Ninguém pode servir a dois senhores, porque, ou há-de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas'. (Mateus 6, 19-24). Exultante, descobri, nas palavras seguintes, que alguns psicanalistas estavam errados ao rotular minha renuncia ao julgamento dos outros como 'repressão patológica da agressividade', ou 'falsa modéstia': 'Não julgueis para não serdes julgados, pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados (...) e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Porque reparas no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então verás para tirar o argueiro do olho do teu irmão' (Mateus 7, 1-5). Serenadas minhas preocupações concluí minha leitura pacificadora: 'Portanto, o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque esta é a Lei e os Profetas' (Mateus 7, 12). Sem querer tripudiar, mas apenas por um elementar e legítimo direito de defesa, eu pergunto: quem segue mais os ensinamentos d’Ele, eu ou tu que te dizes cristão? Sinceramente, acho que Jesus não vai se decepcionar comigo. Tu, sinceramente, podes dizer o mesmo?" Envie sua Migalha