Poeta Fagundes Varella

14/12/2005
Janaína P. Nascimento

"Migalhas trouxe ontem crônica narrada que o poeta Fagundes Varella teria deixado um nota promissória sem sua devida liquidação (Migalhas 1.312). Desculpem-me, mas não posso crer nisso. Há muito folclore em torno dele e dos outros poetas românticos. E nos chãos de pedra velha e sempre clara Academia (sic), eles vicejam o floreio da estudantada. O que há de verdadeiro é o amor pelo filho morto, cantados nos versos talvez mais sensíveis da língua Portuguesa, de uma pai chorando a perda do filho : 'Estrelas do sofrer, - gotas de mágoa, / Brando orvalho do céu! - Sede benditas! / Oh! filho de minh'alma! Última rosa / Que neste solo ingrato vicejava!' Quanto à dívida, se há, façamos nós migalheiros uma vaquinha."

 

Janaína P. Nascimento

Nota da Redação - Querida leitora, para descobrir se os poetas viviam na pendura do tradicional Onze de Agosto, ou se na pendura da pindaíba, fomos procurar um deles. Antes de ver abaixo o que respondeu o "Byron brasileiro", nosso amado Diretor já quer consignar sua não participação em "vaquinha" qualquer. "Aqui só há migalhas". Ouçamos o poeta :

 

"MINHA DESGRAÇA

 

Minha desgraça, não é ser poeta,

nem na terra de amor não ter um eco,

e meu anjo de Deus, o meu planeta

tratar-me como trata-se um boneco...

 

Não é andar de cotovelos rotos,

ter duro como pedra o travesseiro...

Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido

cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro...

 

Minha desgraça, ó cândida donzela,

o que faz que o meu peito assim blasfema,

é ter para escrever todo um poema

e não ter um vintém para uma vela."

 

Álvares de Azevedo

(São Paulo, 12/9/1831

Rio de Janeiro, 25/1852)

 

Será, então, leitora que desde o nascimento os poetas românticos já nascem desgraçados ? Ouçamos mais um, de outra época :

 

"Autobiografia

 

(...)

 

...e além

 

de ser poeta e de ser um desgraçado,

amou, amou demais sem ser amado

e sucumbiu a tanta dor."

 

(...)

 

Jorge Falleiros

(Patrocínio Paulista, 3/11/1898

São José dos Campos, 18/11/1924)

 

Sobre este último poeta, ao colocarmos seus versos na abertura de Migalhas 809, em 18/11/03, conquanto já tivesse transcorrido 79 anos de sua morte, tivemos a indizível ventura de um migalheiro, Fernando Eduardo Faleiros Ferreira - escritório Franceschini e Miranda - Advogados, enviar carta a esta redação contando ser sobrinho-neto de Jorge Falleiros (Migalhas 810 - clique aqui).

 

Falecido prematuramente aos 26 anos - ah!, o mal dos poetas românticos! (além da pendura pelo que agora se sabe) -, Jorge Falleiros sequer viu impresso pela Editora Monteiro Lobato o único volume de seus inspirados versos, "Nirvana" (1925). Dele o cuidou o colega do seminário pirapoense, o Professor Francisco da Silveira Bueno, que deixou registradas no prefácio da reduzida edição sentidas palavras de saudades. Reimpressos em 1989, também numa pequena publicação mandada fazer pelo governo municipal de sua terra de nascimento, Patrocínio Paulista, os já então esquecidos poemas de Jorge Falleiros causaram surpresa no meio literário brasileiro - basta ver, por exemplo, que Paulo Bomfim, o decano da Academia Paulista de Letras, fez questão de se dizer extasiado com um poeta do qual até então jamais ouvira falar. Assim também se expressou o mestre Goffredo Telles Jr., quando a Alta Direção de Migalhas fez chegar a suas mãos os versos de Falleiros.

 

Ao saber do falecimento do colega de seminário, Castro Nery, que estava na Itália em 1924, envia carta à mãe. Separamos um trecho da missiva para que os migalheiros possam sentir como foi para ele a dor da perda do amigo:

 

"Tinha um amigo, minha mãe, chamado Jorge,

tão santa que tu mesma,

com essa ternura que te é tão própria,

haverias, certo, de chamá-lo 'filho'.

 

Ele era meu irmão, um irmão de verdade :

Tínhamos quase o mesmo gênio,

os mesmos gostos literários,

a mesma vontade sofredora,

 

tínhamos quase o mesmo gênio

mas ele, minha mãe, era melhor do que eu..."

 

(...)

 

Castro Nery
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