Religião 19/12/2005 Conrado de Paulo "O caráter naturalista do pensamento de Nietzsche tem sua expressão na obra 'O nascimento da Tragédia a partir do Espírito da Música'. Nesta obra, analisando o embate entre o dionisíaco e o apolíneo na vida, ele vai dessacralizar todos os valores da sociedade do seu tempo. Um pouco anterior a Marx (de quem não conheceu os escritos) ele tem o mesmo posicionamento crítico em relação à religião vivida no seu tempo e que sustentava o estado alemão. Voltando aos deuses Dionísio e Apolo pode-se entender a crítica contida no texto que me enviou. Dionísio - o deus trácio da natureza, do vinho e da embriaguez, o sátiro barbudo das festas orgiásticas das bacantes - representa a alegria transbordante do viver, da exaltação de uma vida exuberante, triunfante, que leva sem travas morais até a embriaguez e ao êxtase. Apolo - o deus da beleza e das formas, o deus adivinho e deus dos sonhos - significa as faculdades criadoras das formas, a aparência radiante e cheia de beleza do mundo interior da imaginação. Ambos os deuses simbolizam os instintos básicos e a essência mesma da natureza. O dionisíaco representa a natureza desordenada. O apolíneo mostra o mundo ordenado. O grande princípio motivador de Nietzsche é a exaltação infinita de uma vida natural, em toda a potência ilimitada de suas forças e instintos, sem travas nem normas que possam estorvar os impulsos. Nietzsche é o pensador que mais glorificou a vida, que mais cantou o ideal de uma vida sã e forte, da alegria de viver. Em nome da vida, em seu sentido dionisíaco dos instintos da vida, vai condenar todos os valores que tinha recebido em sua educação ou porque aniquilam os instintos ou porque tendem a mortificar a energia vital e a destroçar ou empobrecer a vida. Por isso na obra 'O Anticristo' ele bate no cristianismo. Porque o cristianismo teria feito guerra mortal contra todos os instintos fundamentais de uma vida saudável. Porque sua moral representa uma castração contrária à natureza. Porque coloca o centro de gravidade da vida não na vida. Mas no além que é o nada. Como a teologia paulina teve (e tem) forte influência no cristianismo e, no seu tempo, era muito mais presente no protestantismo, seja em Lutero como nos outros reformadores, é natural que Nietzsche volte as baterias contra o apóstolo. No fundo, Nietzsche representa uma das correntes que surgem como questionadoras de um 'status quo' vivido desde o Renascimento até o surgimento da sociedade moderna. Se olharmos a visão sacral originada na Idade Média e vivida até os tempos do Iluminismo dá para entender o porque da contestação. A passagem de uma visão do mundo tipicamente sagrada para a visão científica não poderia ser feita sem quebras e sem exageros. Tanto da Ciência querendo ter razão de tudo. Como da Religião sentindo-se acuada (porque viveu séculos de tranqüila supremacia). É aí que se instala o problema entre Ciência e Fé trazido pelo Racionalismo. E se chega a afirmar que quem é cientista não pode ter fé e que quem tem fé não pode ser cientista. O que é um falso problema. Porque são campos do saber e da vida afins e não contrários. Assim que pode entender não só as contestações de Nietzsche como de outros pensadores. Será sempre um desafio que o campo da fé respeite os seus limites. Testemunhe o que acredita sem impingir aos que pensam de forma diferente as suas razões. Costumo pensar que os cristãos têm obrigação de dar testemunho do que crêem, mas não podem obrigar aos outros a terem a mesma atitude. Creio que Nietzsche deu grande colaboração ao fazer os cristãos saírem da acomodação." Envie sua Migalha