Religião

3/1/2006
Conrado de Paulo

"Giovanni Sartori, emérito cientista político italiano, ganhador do Prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais em 2005, foi o convidado da 'Entrevista' do Estadão no dia primeiro do ano. Alguns excertos servirão para ilustrar a tremenda lucidez dessa grande personalidade. 'Na França, a revolta das banlieues magrebinas, destes jovens filhos de imigrantes, mas franceses, não é uma revolta islâmica. São cidadãos pouco integrados, e sua revolta tem as características das revoltas das periferias pobres. O desemprego é muito alto, os jovens se sentem marginalizados e discriminados. Se não há lugar para mais gente e não há trabalho, temos de controlar a imigração ilegal da melhor forma possível, como fazem todos os países que têm esse problema. Todos os que chegam à margem da lei vão para as ruas; não têm nenhuma qualificação, e assim dedicam-se ao tráfico de drogas, à prostituição. A Igreja italiana sempre protegeu os imigrantes sem documentos, mas basta eles ocuparem uma igreja e ela os expulsa com a maior rapidez. Os conventos estão vazios. Por que não os enchem com estas pessoas? Porque uma coisa é falar, outra é fazer. Fui contra a intervenção no Iraque por acreditar que, em termos de custos e benefícios, os custos provavelmente seriam muito maiores, na medida em que uma guerra poderia desencadear o fanatismo islâmico. A guerra foi um erro terrível resultante da ingenuidade dos americanos que não se deram conta de que ativavam uma mina que galvanizaria o fundamentalismo islâmico e o terrorismo. Tudo vem do 11/9. Nesta partida todos jogaram mal. Jogou mal Bush, que acredito ser um homem de estatura mental mínima. Em cada coisa que ele põe a mão, estraga. Mas também Chirac e Schroeder deram uma de espertos diante dessa intervenção que diziam querer evitar. Na verdade, Chirac queria humilhar os EUA. Se a Europa, sobretudo Chirac, um gaullista de pouca inteligência, quisesse deter Bush, teria detido. Mas a França fez seu joguinho da magnanimidade e de sua influência no mundo árabe – e dos grandes contratos que tem por lá -, enquanto Schroeder tinha seu problema eleitoral. Bush é um dos piores líderes da História, mas teria sido possível detê-lo em vez de empurrá-lo estupidamente para a guerra. Se ele tivesse obtido autorização da ONU, Saddam Hussein, ciente do que aconteceu em 1991, teria cedido; não teria resistido à pressão de uma Europa unida no apoio aos EUA. A intervenção não faria falta. Todos foram espertinhos. É uma vergonha para todos, sobretudo para Chirac."

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