A vetustez dos escândalos

3/1/2006
Antonio Carlos M. Mello

"Ao azo do novo ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e seis, pejado que ando de tanto escândalo na coisa pública, do que porto fé, assiste-me asseverar, por esta e melhor forma de direito, que essas vergonhas não são inéditas, nem se lhes deve emprestar relevância mór que tenham, posto constar na Torre do Tombo a suso sentença produzida contra o Prior do Trancoso, autos arquivados no armário 5.0, maço 7, que ipsis verbis me mandaram reproduzida e que transcrevo para ciência pública e devido pejo de quantos se assombram com semelhantes migalhas leixadas pelos registros a que me reporto. Do que lavro este termo preâmbulo, para que ninguém alegue ignorância futura e digne-se relevar os deslizes quejandos e preserve o parlamento íntegro, segundo desígnio eventual del Rey. Segue o que consta ad perpetuam rei memoriam."

 

Antonio Carlos M. Mello

 

Do Arquivo Nacional da Torre do Tombo: 

SENTENÇA PROFERIDA EM 1487 NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE TRANCOSO

 

(Autos arquivados na Torre do Tombo, armário 5.0, maço 7)

 

"Padre Francisco Silva, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, e da própria mãe teve dois filhos.

 

Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres.

 

El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou por em liberdade aos dezassete dias do mês de Março de 1487, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo".

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