O bom mesmo é ser americano 20/1/2006 Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL "Não um americano qualquer, do sul ou do centro, mas do norte. Lá, o governo sempre pensa nos seus. No final das contas, James Monroe, nos idos de 1823, já obtinha a aprovação do Congresso Norte-americano para um documento que viria a ser conhecido como a Doutrina Monroe, mais conhecida por sua síntese: 'a América para os americanos', ou seja, para os norte-americanos. Hoje em dia, essa doutrina, acrescida do corolário Roosevelt, que previa intervenções militares onde estivessem em perigo os interesses e investimentos dos EUA, pode ser entendida como 'o mundo para os norte-americanos', ou 'os outros que se lixem', como se poderia dizer mais popularmente. É com tais fundamentos que o governo americano se nega a assinar o Protocolo de Kyoto, ou a aceitar o Tribunal Penal Internacional de Haia, sempre pensando em como proteger, a qualquer custo, os negócios, os investimentos e os cidadãos norte-americanos, os interesses norte-americanos, enfim. Agora, mais um exemplo, que deve ser juntado aos das transgressões das prisões em Guantanamo e Abu Ghraib. Esse vem das Filipinas, local onde seis militares norte-americanos foram acusados de estuprar uma jovem filipina de 22 anos. De acordo com a promotoria de Manila, o cabo Daniel Smith violentou sexualmente a jovem dentro de um carro estacionado no posto livre da Baia de Subic, uma antiga base naval americana a noroeste de Manila. Enquanto isso, seus colegas de corporação o incentivavam ao som de músicas agitadas. Na ocasião da queixa, a embaixada norte-americana prometeu colaborar com as autoridades Filipinas. Na seqüência, promotores filipinos indiciaram 4 fuzileiros navais americanos, caso esse que, na opinião de especialistas, representaria um teste do acordo bilateral que permite a presença de soldados dos Estados Unidos nas Filipinas para treinar o exército local. Um teste porque os críticos desse acordo tem manifestado preocupação com a possibilidade de os EUA se aproveitarem do acordo de treinamento para operações de combate ao 'terrorismo' para proteger seus militares de crimes contra a população local. E essa preocupação tinha motivos, de vez que a Embaixada dos Estados Unidos em Manila decidiu não entregar às autoridades Filipinas os quatro militares acusados. A missão diplomática dos EUA afirmou que os acusados permanecerão sob sua custódia, de acordo, como dizem, com o que estipula o Acordo de Forças visitantes, assinado por Manila e Washington. Ocorre que, sob esse tratado, as Filipinas tem competência para processar militares americanos que violarem leis do país, permanecendo os acusados, todavia, sob a custódia de autoridades dos EUA, a não ser que o governo filipino peça sua entrega. Não obstante a Justiça Filipina tenha pedido, por escrito, na forma das disposições do Acordo, a resposta americana foi no sentido de que os quatro acusados permanecerão sob a custódia das autoridades dos EUA. A explicação dos acusados é aquela velha história de que houve relações sexuais, mas que a moça consentira, não obstante o exame de corpo de delito tenha confirmado a violência sexual. Será isso que significa a tão decantada globalização? Globaliza-se as riquezas e os direitos em favor dos mais fortes e a miséria e as reclamações para os outros? Porque, no final das contas, há que se considerar que o 'direito' dos fuzileiros navais norte-americanos, instrutores de medidas de defesa anti-terror, estão muito acima dos pretensos direitos de uma jovem filipina que encontra dificuldades em entender seu real lugar no mundo globalizado em que vivemos." Envie sua Migalha