Memória ética 13/2/2006 José Renato M. de Almeida - Salvador/BA "Na minissérie da Globo, no dia da posse, a mãe de JK pede para chamar um carro de praça para ir à festa. Juscelino, presente na sala, avisa sua mãe e parentes que não precisam chamar táxi pois um carro oficial virá apanhá-los. Depois que o presidente eleito e esposa saem na frente a mãe diz uma frase que resume toda uma cultura ética. 'Fulano, vá chamar um carro de praça. Meu filho e esposa fazem parte da cerimônia oficial, nós não'. E conclui. 'Se nós não dermos o exemplo, quem dará?' Isso trouxe-me à memória, de imediato, minha já falecida avó materna, D. Luíza Amélia. Quando certa vez lhe questionei que 'já que todo mundo agia de modo desonesto, por que eu não poderia agir também?'. Ela me respondeu séria e solene: 'Você não é todo mundo.' Hoje essa frase cairia no vazio, seria considerada apenas mais uma tolice repressora e moralista. Os resultados dessa desavergonhada maneira de agir dos responsáveis por algum setor da administração pública está aí para nos alertar e indicar a necessidade de mudar. O ex-presidente FHC, como muitos outros políticos, também conta com a falta de memória da população, da conveniente omissão dos meios de comunicação e de seus dependentes profissionais contratados. Considerar príncipe um acadêmico sociólogo que declara que 'a ética do PT é roubar' só pode ser ironia com o bíblico 'príncipe deste mundo'. FHC pediu para o PSDB bater forte no PT e começou dando o exemplo do nível onde quer chegar, contando, claro, com o apoio da imprensa comprometida com as maracutaias cometidas e abafadas durante os seus longos oito anos de governo. Lembro de uma propaganda da Aneel veiculada em revistas semanais com 16 páginas, para dizer nada! Estão sentindo falta desses 'presentes'. O governo Lula, mesmo sem obter bilionários recursos com a venda da maioria das empresas estatais e mesmo pagando dívidas sociais armadas pelos anteriores, como as diferenças históricas do INSS e FGTS que se arrastavam há anos, conseguiu reduzir a dívida pública e estabilizar de fato a economia como um todo, apesar das armadilhas preparadas desde antes de sua posse. O governo deve ser exemplo de Justiça. Alguém ainda se lembra do tal imposto compulsório sobre veículos e combustíveis estabelecidos no governo Sarney, que já caiu no esquecimento? O atual governo do PT não é a maravilha cantada nas promessas eleitorais, nem aquele com que sonhávamos. Tem falhas aos montes, mas certamente está se revelando bem menos danoso e prejudicial ao país do que foram os governos FHC. As denúncias, investigações e as fiscalizações que deveriam ser feitas e não eram - mas que agora começaram a ser praticadas - conseguiram reduzir em muito as evasões no erário por fraudes, sobre preços e uso indevido do dinheiro público. Mas é importante ter consciência de que isso são conseqüências da estrutura viciada instituída pelos políticos profissionais que se aboletam no poder há décadas. Devemos atentar ao essencial que vem causando todos esses escândalos e ainda mantêm vulnerável a administração das coisas públicas. Vejamos em poucos parágrafos o que é essencial na organização política. Observem que os crimes econômicos ou não como desfalques, roubo de cargas, tráfico de drogas, estelionatos, seqüestros, assassinatos, torturas, fraudes, grampos, chantagens, falsificações, violações, etc. e etc., cometidos por governantes ou seus apaniguados, são investigados pelos próprios políticos através de CPI que, convenientemente, tem limite de número para funcionarem simultaneamente. Só pode dar nisso, pois fica sempre um mundo de escândalos sem investigação, apuração e punição. Assim, temos visto Câmara e Senado investigarem seus pares até as penúltimas conseqüências, chantagearem os acusados para obterem parte do butim em questão, 'aliviar' e até omitir, em seus múltiplos relatórios conclusivos, crimes descobertos ao longo das investigações. O esquema é esse mesmo e a intenção é clara: abafar os escândalos no próprio âmbito político, de preferência com muito jogo de cena e falsa indignação, porque, caso contrário, vai sobrar acusação para todos os demais. Como o sambista também já percebeu: 'se gritar pega ladrão...'. A redução do 'recesso' e dos salários 'extras' só foi possível com a pressão da opinião pública repercutida pelos meios de comunicação de massa. Já a tradicional gazeta continua a mesma. Presença só nas quartas e quintas, e olhe lá! Limpando a área de tantos leros-leros para nos distrair e nos deixar confusos - indignados, mas confusos - vale questionar, por que os crimes cometidos pelos políticos não são investigados pelas instituições competentes? Por que os legisladores têm de se ocupar com investigações policialescas, deixando de legislar, de freqüentar o trabalho, de acompanhar os trabalhos do Executivo e todas as investigações de crimes cometidos por seus colegas, que estiverem em andamento? Existe vários órgãos públicos que têm melhor competência para investigar qualquer tipo de crime: Polícia Federal, Ministério Público, TCU, Abin, Polícias Estaduais, TCE e a velha imprensa investigativa. Basta que se estabeleça um acompanhamento efetivo por parte dos ilustres deputados, senadores e da imprensa. Acabemos com essa monumental farsa das CPIs e vamos investigar e punir de fato esses crimes. Chega de pizza oficial!" Envie sua Migalha