Os Sertões 12/3/2015 Abílio Neto "Foi muito infeliz ontem esse informativo ao classificar como 'imorredoura' uma passagem do livro 'Os Sertões', do engenheiro militar Euclides da Cunha. Imorredoura para quem? O coronel Thompson Flores foi dado como herói. O outro citado, morto em combate (Moreira César), também. Para que haja herói, pela minha experiência de vida até hoje, é necessário que um impiedoso inimigo estivesse do outro lado? E quem esteve efetivamente do outro lado em Canudos? Um criminoso louco seguido por milhares de jagunços e, ao mesmo tempo, fanáticos religiosos? Será que esse enquadramento é perfeito? Quem foi afinal Antonio Conselheiro para vocês? E os 'jagunços' então? Ora, quando Euclides da Cunha seguiu para o sertão, integrando a quarta expedição contra Canudos, tinha a missão de ser correspondente do jornal 'O Estado de S. Paulo'. Viajou como adido à comitiva do então ministro da Guerra. Foi de lá do sertão baiano que ele escreveu uma série de reportagens que foram depois transformadas em livro sob o título 'Diário de uma expedição'. Esses relatos escritos ao sabor da batalha são o embrião do livro 'Os Sertões'. Falei sabor porque o autor denota grande satisfação vendo o 'inimigo' ser espatifado e seus pedaços voando pelos ares. Isso vem a demonstrar claramente para mim o partido tomado por ele, que era o das Forças Armadas do Brasil, dos jornalistas e pasmem, da intelectualidade brasileira. Nomes como Nina Rodrigues, tido e havido por grande cientista, e até Ruy Barbosa. Esquecem que Conselheiro arregimentou ainda no tempo da escravidão, milhares de escravos que fugiram dos engenhos e das fazendas dos coronéis e passaram a segui-lo porque pregava a igualdade entre os homens e a palavra de Deus. Como viviam essas pessoas em Canudos? Assaltando, roubando, matando? Nada disso. Trabalhavam para sobreviver e ergueram uma cidadela onde chegou a morar cerca de 25 mil habitantes. Esse beato Conselheiro nada tinha de louco, a não ser nas teorias racistas de Nina Rodrigues. Conselheiro foi um abolicionista. Tinha enorme admiração pela princesa Isabel. Assim, as notícias da guerra enviadas por Euclides da Cunha ajudaram e muito na formação de uma unanimidade nacional equivocada: os insurretos de Canudos poderiam colocar uma nódoa de atraso naquilo que se imaginava como panorama brilhante da modernização que a República anunciava, sepultando ao mesmo tempo a escravidão e a monarquia. Euclides até apelidou 'Os Sertões' de 'livro vingador'. Mas vingador do que ou de quem? Até quando o Brasil vai cair na real de que essa guerra é motivo de vergonha para nós e não de orgulho? Até quando vão permanecer ignorando o fato de que após a última batalha, homens, mulheres e crianças que se entregaram ao vencedor (O Exército representando os poderosos) foram assassinados sem dó nem piedade? Até quando vão esconder a verdade de que aquela guerra foi uma faxina contra homens incultos, negros e praticantes de um chamado (por eles) catolicismo rústico?" Envie sua Migalha