Fantástico caso

17/4/2006
Wanderley de Medeiros – advogado, Goiânia/GO, ex-Conselheiro Federal da OAB, ex-Presidente da OAB/GO, membro do IBCCrim

"Pensei que a cota de tolices e absurdos tivesse se esgotado com o Promotor e o Juiz, pedindo e mandando prender a acusada Suzane Richthofen por causa de suas entrevistas, sobretudo a veiculada no Fantástico do último domingo (9/4/06). Confirmei que a submissão à mídia continua colhendo pessoas de quem era possível esperar melhor conduta. Não sei, mas penso que os disparates que li hoje, na internet, do Presidente do Conselho Federal da OAB, Roberto Antonio Busato, e da Seccional de São Paulo, Borges D’urso, criticando os advogados responsáveis pela defesa, escandalizando-se cinicamente com a mentira e insistindo no cumprimento de inflexíveis deveres éticos, afirmando propósitos persecutórios e moralistas contra esses advogados, até mesmo conjurando a participação de um deles na omissão de Ética da Seccional paulista, deve preocupar os que vivem de advocacia criminal, como eu. Aliás, até mesmo dentro da própria OAB já tive oportunidade de ver seu eminente Vice-Presidente, Aristóteles Atheniense, criticando a atuação defensiva de advogados, considerada excessiva por quem deveria apoiar a classe. Acho que essas idéias devem ter sido instiladas nas entrevistas e os Presidentes, para agradar aos entrevistadores e ao que representam, assumiram a postura que eles esperavam. Penso que a acusada e seus advogados foram constrangidos a esses encontros com os jornalistas, que devem tê-los procurado. Tanto o que li na Veja como nos jornais de São Paulo mostra a ingenuidade dos que pensam obter a simpatia dos jornalistas e publicação de uma notícia isenta. Bobagem. A imprensa, que sempre foi aliada do Ministério Publico, é hoje mais importante que ele, com quem muitas vezes se alia, mas só na conveniência de agredir ou desmoralizar alguém. É maldosa e normalmente arrogante. Não me lembro de que se movimentasse para ajudar ou defender quem quer que seja. Não vi o Fantástico, mas, pelo que dizem, os que prepararam a entrevista foram solertes, gravando e depois divulgando conversas da intimidade da acusada e seus defensores. Claro, como sempre acontece: matéria editada, selecionada para o fim único de prejudicar a acusada e sua defesa. E a Ordem, ao invés de se indignar e sair em defesa dos advogados e de seu direito de exercer a defesa criminal, opta por uma atitude de falso moralismo, censurando-os publicamente por causa de mentira e questões éticas. Uma vergonha, quase tão grande quanto a dos motivos que justificaram o pedido de prisão preventiva da acusada e sua aceitação. A imprensa deve estar orgulhosa. É um triste papel triste, às vezes ridículo, mas compreensível, o do Promotor. Não se pode dizer o mesmo do Juiz que o referenda e dos Presidentes da oab que no mesmo embalo, como se tivessem a mesma mentalidade tacanha, resolvem sacrificar os advogados. Será que conhecem o Código de Ética? Será que leram a resposta de Ruy a Evaristo de Morais? Não acredito."

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