Aborto 18/7/2018 Heitor Bastos-Tigre - escritório Bastos-Tigre, Coelho da Rocha, Lopes e Freitas Advogados "O tema 'aborto' me faz lembrar o memorável filme do diretor Woody Allen, Ponto Final (ou Match Point). Alguns países promulgaram leis que convalidam a prática do aborto. Essa legalidade estrita não afastou, contudo, a imoralidade de se atentar contra a vida: apenas concedeu uma permissão formal para que mulheres grávidas se utilizassem desse método cruel e desumano, para interromper a geração de uma criança cujo nascimento não seria desejado e poderia causar incômodos. A legalização do aborto também permite que mulheres grávidas se utilizem desse artifício bárbaro de controle de natalidade, submetendo-se a procedimentos cirúrgicos de forma aparentemente urbana, civilizada, na serenidade que uma clínica oferece, ao empregar todos os preceitos da assepsia moderna, capazes de assegurar o bem estar da paciente. Tudo muito louvável, se não fosse pela morte certa de uma criatura indefesa que repousa protegida, no aparente santuário do útero materno. Faço, aqui, um paralelo com o filme 'Ponto Final' do cineasta Woody Allen. O enredo é simples: um homem casado conhece uma mulher sensual, e por ela se apaixona. Desse encontro é gerado um filho. Sua mulher, ainda que pouco atraente, é meiga, muito rica e lhe oferece segurança financeira. Por outro lado, sua amante é linda, sedutora, mas pobre e instável. Como administrar essa situação? Confessar seu erro pode provocar uma separação. Valeria a pena perder a segurança duramente conquistada, profissional inclusive, em troca de um amor que talvez se confunda com atração física? A solução mais simples é eliminar o problema maior: aquela gravidez indesejada. Mas se a amante resiste; se ela deseja manter o filho em gestação? Como superar o impasse? Que bom se não existissem. Ora, mas suprimir o problema não é de todo impossível, pensa – e não havendo melhor alternativa, resolve matá-los. Nesse drama com toques de tragédia grega, mata-se a mãe, o filho em gestação, e para despistar a inevitável investigação policial, a vizinha, também. O aborto nos países que legalizaram sua prática, não representa algo muito diferente. Um descuido; a mulher incauta se deixou engravidar, ou talvez, ele, afoito, não tomou precaução. Mas a medicina moderna apresenta uma solução aparentemente rápida, barata, simples e acima de tudo, muito segura - e o legislador, arremata, oferecendo-lhes o respaldo da lei! Ninguém avisa, contudo, que a mãe grávida terá restaurada sua honra, mas quanto a sua tranquilidade ficarão sequelas. A versão acima, que se repete todos os dias, e ao redor do mundo, com ligeiras variações daquele enredo criado por Woody Allen no filme Match Point. O consagrado diretor soube maquiar a tragédia, com a ajuda de um elenco de artistas talentosos, ambientado em Londres e seus arredores, na forma de um drama policial, mas sem o happy ending que consagrou a sétima arte. Ao contrário, teve o cuidado de deixar registrado que tal como em qualquer aborto, aquela solução macabra deixaria lesões psicológicas profundas para o pai assassino. Preservou sua segurança financeira, mas sua paz de espírito estaria irremediavelmente destruída." Envie sua Migalha