Dia da Consciência Negra 10/11/2006 José Roberto Ferreira Militao "Para falar da indignação e da quantidade de manifestações, devo principiar homenageando a sábia ponderação do Dr. Moisés Alves da Silva (cujo nome Silva guarda especial significado) e que todos ficam convidados à releitura. Mas, com a devida vênia, a questão jurídica levantada pelo Prof. Adilson Dallari, como poucas e muito além da presumida pretensão, nos serviu para dar vazo a preconceitos inconfessos sob o manto da boa razão. A indignação se manifesta pela visão estritamente elitista desde a desqualificação do simbolismo heróico de Zumbi, guerreiro e líder da primeira república abaixo do Equador, símbolo da luta e resistência em nome da liberdade da maioria dos trabalhadores submetidos à escravidão, (ou não será heróico a luta pela liberdade dos escravos?) e ainda, como faz o Dr. Zanon, designa-lo 'perdedor', é de uma heresia e preconceito (em relação à causa e circunstância), d.v., estapafúrdio. Aliás, outro 'perdedor', Doutor Martin Luther King tem um feriado nacional ao norte. Destarte, a heresia maior é considerá-lo menos merecedor que o ilustre 'vencedor' Dr. Gê Acaiaba Montezuma, cujos méritos intelectuais são reconhecidos, porém, sob o ponto de vista histórico e sob o ponto de vista dos oprimidos, foi um negro cordial, que a despeito das honrarias e cargos exercidos, abandonou seus parentes e irmãos escravos à própria sorte, conviveu e serviu ao sistema vigente e não tem seu nome erigido ao lado da resistência quilombola ou dos abolicionistas radicais: Luis Gama, José do Patrocínio ou Antonio Bento. Ora, não se constrói uma nação de iguais, livre e soberana se não se curvar à história e relembrá-la às novas gerações, à nova classe dirigente, aos educadores enfim... Ainda ontem, graças ao 20 de novembro e ao dia da 'Consciência Negra', tive o prazer de participar como debatedor de um extraordinário seminário promovido pelo Sindicato dos Especialistas em Educação de São Paulo - SINESP, em que, centenas de educadores foram relembrados (e informados) dos objetivos contidos na luta do quilombolas: a liberdade; a solidariedade; o acolhimento de brancos e de índios em que a fraternidade prevalecia sendo essa a exemplaridade ainda hoje relevante. O resgate da consciência negra é o resgate da consciência da história até mesmo aos filhos da imigração que desconhece como esse país foi construído e a custa de milhões e milhões de vidas humanas, então animalizadas.. Não se redime a história mandando queimar os arquivos da escravidão como fez Rui Barbosa que reconhecia ter sido ela, a escravatura, 'uma nódoa que para sempre nos envergonhará perante a humanidade'. Enfim, não podemos esquecer a história, nem desqualificar suas personalidades, por mais degradante tenha sido, para que não se confirme o que preceituava Joaquim Nabuco (O Abolicionismo, 1883) em verdadeira profecia: a escravidão não degradava apenas a vítima, degradaria ainda mais e para sempre os senhores de escravos e os beneficiários (diretos e indiretos) dela. Leia-se: os Junqueiras; MenaBarretos; Cretellas; Vaconcelos; Zanon's et catevera.... cujos patronímicos nos remete à memória dos antigos escravocratas ou da imigração que veio substituir o trabalhador escravo que ficou relegado à pobreza e mendicância, excluído das oportunidades de emprego e educação e abandonado pelo Estado cuja riqueza construiu como único trabalhador durante quatro dos cinco séculos de história. Ponderem doutores: a história do Brasil e o nosso futuro precisa ser rememorada!" Envie sua Migalha