Lembrança 24/7/2007 Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL "Sou, mas quem não é ? Essa é a frase predileta de Altivo Belo Tavares da Cunha, mais conhecido por Tavares, o personagem de Chico Anysio, beberrão, e irresponsável, sempre dando uma explicação para tudo. A lembrança desse personagem me veio à mente com a nota publicada na página da internet da Rádio do Vaticano, na qual o Porta Voz da Santa Sé, padre Frederico Lombardi, comentando o acordo financeiro feito entre a Arquidiocese de Los Angeles com 508 vítimas de abusos sexuais por sacerdotes, afirmou que a pedofilia não é exclusividade da igreja católica. Afirmou, ainda, que 'a igreja, consciente da sua responsabilidade com a juventude, quer participar como protagonista na luta contra a pedofilia, que envolve setores cada vez mais amplos da sociedade em muitos países do mundo'. Bem, é forçoso convir, antes tarde do que nunca, já que durante muito tempo, muito tempo mesmo, não foi essa a atitude da igreja católica que, como é notório, vinha acobertando os casos de pedofilia, até que chegaram aos tribunais e aos jornais, e chocaram o mundo, tornando-se públicos. E não só isso, o próprio papa Bento 16, antes Cardeal Joseph Ratzinger, era exatamente o encarregado desse acobertamento. Antes de se tornar Cardeal, o jovem Joseph Ratzinger aos 14 anos aderiu à juventude Hitlerista que, fora das salas de aula, se organizavam em milícias para militares para espionar o povo em nome do regime. Posteriormente, aos 16 anos, entrou para o exército nazista Alemão, numa divisão da Wermacht e, na Hungria, operava minas de terra anti-tanque, até fugir em 1944, tendo sido detido em um campo de prisioneiros de guerra em ULM em 1945. Tendo adotado a carreira religiosa, chegou a Arcebispo de Munique em 1977 e, em 1981 foi apontado como prefeito da congregação para a Doutrina da Fé (Congregatio pro Doctrina Fidei), que é o nome como o Santo Ofício, ou o Tribunal da Santa Inquisição, como é mais conhecido, passou a ser chamado, a partir de 1908. Aos 78 anos tornou-se papa, em 19/04/2005, sucedendo João Paulo II, adotando o nome de Bento 16. O papa Bento 16, que no último sábado se manifestou dizendo ser 'urgente reconstruir a confiança onde ela foi traída', e que 'é importante estabelecer a verdade sobre o passado e tomar as medidas necessárias para evitar que isto volte a acontecer', foi o responsável por garantir obediência, sob pena de excomunhão, a um juramento imposto a todos os bispos, através de um documento secreto interno da igreja que os instruía como lidar com acusações de abusos sexuais cometidos por padres em suas paróquias. O texto em questão impõe um juramento em que a vítima, o acusado e eventuais testemunhas se comprometem a manter sigilo absoluto sobre o caso (clique aqui para ver uma cópia do documento em inglês). E, como se sabe, depois da análise de cada caso, a solução era, sempre, transferir de paróquia o padre pedófilo, apenas. O documento acima referido, crimen sollicitationis, foi escrito origináriamente em latim, em 1962, e distribuído aos bispos do mundo inteiro, com a recomendação de que fosse guardado a sete chaves, segundo documentário levado ao ar pela BBC britânica no último domingo. Por isso, se o antes cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento 16, agora em suas novas funções, invalida suas antigas instruções secretas e adota novas orientações a seus bispos condenando a pedofilia em seus quadros e determinando a condenação do abuso de menores como crime, deixando de ameaçar com excomunhão as vítimas e testemunhas para simplesmente transferir de paróquia o transgressor, pode-se esperar que o poder da igreja seja, afinal, utilizado para combater esse crime hediondo que horroriza o mundo. Se, agora, quando mais de 4.000 padres foram acusados de pedofilia, a igreja católica resolveu se mexer, pagar milionárias indenizações e, até, assumir publicamente, a luta contra a pedofilia, começando por afastar os que, em seu próprio meio abusam de menores, é realmente uma boa notícia. Como se disse, antes tarde do que nunca. É pena, como nos casos de corrupção política, providências só sejam tomadas quando os fatos chegam ao público, tornem-se escândalos, muito depois de consumados os prejuízos causados." Envie sua Migalha