Mensalão

11/9/2007
Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL

"Li a última manifestação do colega Migalheiro Olavo Príncipe Credidio sobre o mensalão. Aliás, sempre leio seus bem colocados comentários. Concordo, quase sempre, com suas colocações. Concordei, por exemplo, com a que classifica nosso país como um país de irresponsabilidades. Mas não de cidadãos ingênuos ou incultos. Ao menos não em sua totalidade. Talvez nem em sua maioria. Pelo menos não na maioria dos leitores de jornais, ou que se manifestam através de jornais. Creio que os que se manifestam são os que lêem e procuram se informar. E são os que, como o colega, também ficam indignados por ser esse um país de irresponsabilidades. E, por não terem voz, e nem representantes que de fato os representem, utilizam os meios de que dispõe, ou seja, escrevem às seções de leitores dos jornais onde lêem, todos os dias, as notícias que aumentam sua justa indignação. Ao menos esse direito podem - e creio eu, devem - exercer, como previsto no art. 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não serem inquietados pelas suas opiniões e o de procurarem, receberem e difundirem, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão. Esses leitores, como todos os cidadãos, acreditando estarem sendo violados em seus direitos de cidadania, face aos acontecimentos propiciados pelos políticos que, sem pejo afrontam o voto que lhes foi outorgado, pensam ser livre a manifestação do pensamento, insculpida no nº IV do art. 5º da Constituição, e que não devem ser censurados, ainda em consonância com o nº IX do mesmo art. 5º da Carta Magna. E todos, principalmente os mais velhos, têm em mente a célebre frase de Voltaire: 'Posso não concordar com nenhuma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las'. É claro que todos têm consciência que esses direitos não são ilimitados, e que o Código Penal e outras Leis os restringem e apenam seu exercício quando atentatório ao direito de terceiros. Mas, é preciso levar em conta, também, que a paciência e a indignação do público em geral e a capacidade de indignação do cidadão tem limites. Para o brasileiro comum, o homem do povo, trabalhador e ordeiro, mais ou menos ingênuo ou culto, ou até mais ou menos inculto, não caem bem, ou melhor dizendo, soam muito mal, a condição, de maneira geral, em que se colocou a classe política. Há um livro, 'Políticos do Brasil', de Fernando Rodrigues - apenas para citar um – 'uma investigação sobre o patrimônio declarado e a ascensão daqueles que exercem o poder', que retrata que, de maneira sistemática, quem ascende ao poder, enriquece. É isso que o povo, ingênuo ou inculto assiste, todos os dias, como resultado direto de seu voto, como resultado direto das eleições, sem falar no aumento, também sistemático, da carga tributária. As notícias dos jornais, mesmo que a imprensa, não raro, obedeça a motivos políticos - também políticos - subjetivos, servem apenas para consolidar o que o cidadão já sabe e acredita. Quando um cidadão, integrante da classe política, é apanhado com dólares na cueca, e vira objeto de chacotas, recebe apelidos e vira piada nacional, ninguém o considera sujeito de dano moral, à vista da flagrante imoralidade do ato, assim como comparecer a caixas de banco para retirar milhares de reais sem origem, ou receber milhões em contas no exterior, ou vender gado que não existe, que pastam em fazendas griladas, que não foram declaradas ao imposto de renda, mediante notas-frias. Assim também quando se é o todo-poderoso no palácio do governo, reconhecida autoridade suprema, com gabinete contíguo ao do próprio presidente, e que ignora tudo o que ocorre nas suas barbas, ainda que não as use. Conta-se que uma conhecida artista de cinema, creio que Brigitte Bardot, não sei - posso estar enganado, - que protagonizou diversos filmes em que aparecia seminua, nos quais o apelo era francamente erótico e sexual, tentou impedir, quando mais velha, a exposição de certos filmes, e fotos, em que sua nudez era exibida. Processou os exibidores, e exigiu reparação por dano moral. E ganhou a ação e a reparação. Um franco, conta-se. Julgou o juiz, na ocasião que era esse o valor de sua privacidade e do dano que teria sofrido. Então, acho que todos devem tomar cuidado. Não só os que julgam precipitada ou antecipadamente. Mas há que se levar em conta que, em um país como o nosso, de irresponsabilidades históricas - como bem colocou o colega -, que de há muito vem maltratando os cidadãos, talvez seja difícil considerar precipitada a indignação represada, sufocada, que atinge a todos que trabalham honestamente, pagam seus impostos, e assistem a todos os desmandos, principalmente financeiros, com os quais são obrigados a conviver, há muitos anos, sem que uma luz se vislumbre sequer."

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