Circus 21/9/2007 Mano Meira - Carazinho/RS "A mensagem do mestre Adauto Suannes no seu Circus 58 (21/9/07 – clique aqui), me trouxe à recordação do imortal poeta campeiro João da Cunha Vargas, que nos brindou com esses versos: 'Último pedido. Se um dia a morte maleva me der um pialo de cucharra numa saída de farra, me façam torcer o alcatre e me tirem o laço das garra. A morte é sorra mui mansa, comedera de sovéu, que vem - desarma o mundeo a mandado do Senhor, nos larga num corredor e dá uma espantada pro céu. Me enterrem num campo aberto, que eu sinta o vento pampeiro, em vez de vela - um cadeeiro, ao pé da cruz falquejada, que eu possa enxergar a estrada por onde passa o tropeiro. Depois me deixem solito sobre o fraldão da coxilha, junto ao pé da coronilha, entre a mangueira e a tapera, na Estância da Primavera, coberto pela flexilha. Que eu ouça o berro do gado de uma tropa em pastoreio, ouça o barulho do freio e o gaguejar das cordeonas e retouços de redomonas no chapadão do rodeio. Que eu sinta o cheiro da terra, molhada da chuva em manga, sinta o cheiro da pitanga no barracão do pesqueiro, e o canto do joão-barreiro, trazendo barro da sanga. Vou me juntar lá no céu, onde só Deus bate asa, não quero dar oh! de casa; que a porta grande se tranque, que me espere no palanque churrasco gordo na brasa. Vou viver na Estância Grande deste Patrão Soberano, levar comigo o minuano pro rancho d'algum posteiro e pedir pra ficar lindeiro do imortal Aureliano. Mas se lá não tiver carreira nem marcação campo afora, nem índio arrastando a espora num jogo-de-osso em domingo, eu quebro o cacho do pingo e juro que venho embora'. Querido Adauto. João da Cunha Vargas, na escola não passou das primeiras letras, ele mesmo costumava dizer que não era muito manso de livros. A escola mais longa que freqüentou deve ter sido o lombilho. Apreendeu os segredos do ritmo e da rima ao ranger dos bastos, no tranco das tropeadas ou nos galopões nos rodeios, foi desses poetas que iam tirando seus versos ao pé do fogo, nas rodas de chimarrão ou nas tertúlias nativistas, onde foi figura proeminente. Por isso ao ler a sua coluna Circus, lembrei-me de trazer esse registro que é a tradução filosófica da alma gaúcha. Abraços." Envie sua Migalha