Lei da Homofobia

3/10/2007
Rita de Cássia Felix Silveira - advogada e jornalista

"O colega migalheiro Tiago Bana Franco trouxe à discussão do PLC 122/2006 um outro lado, humano, da convivência, o que é bom para a polêmica. Disse ele, com propriedade, na minha opinião, que, no dia seguinte à aprovação da tal Lei, os beneficiados por ela estarão liberados para fazer tudo, inclusive desrespeitando os mais comezinhos princípios de convivência. Serão, no entender do migalheiro, uma casta inatingível. Devo dizer ao migalheiro que, mesmo antes de entrar a Lei em vigor, já são os homossexuais uma casta inatingível, sem qualquer respeito pelos mais comezinhos princípios de decência e convivência social. E isso, há muito tempo. Gostaria de relatar uma experiência pela qual passei, em 2003, e que se repete, todos os anos, de modo que muitas outras pessoas terão passado pela mesma aventura cruel, infeliz e traumática. Naquele ano, decidi, juntamente com minha mãe, que há época tinha 76 anos, levar dois sobrinhos e uma sobrinha ao Hopi Hari, para um dia feliz, agradável e divertido. Meus sobrinhos gêmeos, tinham 9 anos e minha sobrinha 14. Acompanhava-nos meu irmão, de 42 anos. Lá chegando, um sábado ensolarado, as crianças alegres e entusiasmadas com a perspectiva de um dia de intensa felicidade, deparamo-nos com uma cena insólita: homens com reduzidas bermudas de lycra, bustiês e perucas escandalosas, travestis maquiados, com cílios postiços, cheios de batons, gloss, sapatos de plataforma, imensas botas e meias de bailarina, chapéus coloridos, tules, aos berros de: Ah! Ah! Uh! Uh! O Hopi Hari é nosso... Em meio a toda aquela balbúrdia histérica, com todos aqueles homens de aspecto agressivo aos berros, gritando e gesticulando, dirigimo-nos, intimidados e apreensivos, à entrada do Parque, juntamente com diversas outras famílias, vindas de São Paulo e de outras cidades, pais, mães e avós trazendo seus filhos e netos, todos estampando nos rostos temor e apreensão. Foi quando, e só então, que os funcionários do parque informaram que aquele era o dia do Hopi Gay. Não que o Parque estivesse fechado para os gays, como acontece quando há festas particulares. E, de mais a mais, o Parque não é 'temático'. Não, nada disso. É que, no dia anterior ao da Parada Gay, o Hopi Hari, fiquei sabendo depois, 'convida' os gays para o Hopi Gay. A situação? Não só minha família, como dezenas de outras, que viajaram 90 Km como nós, ou tantos outros, e pagaram ingressos dispendiosos, prepararam as crianças para um sábado no Parque, criaram expectativas, gastaram tempo, gasolina e pedágio, lá estavam para somente na última hora depararem-se com aquele espetáculo deplorável sob todos os aspectos e ter de decidir ficar ou fazer meia volta. Ficar significava ter de compartilhar o ambiente do parque não com homossexuais, posto que isso, obviamente, não importa a ninguém, como jamais importou, até porque sempre houve homossexuais e sempre freqüentaram livremente todos os ambientes, sem qualquer restrição. Mas, nesse dia, significava compartilhar um parque de diversões familiar e notadamente infantil com toda sorte de optantes sexuais, com comportamento social absolutamente diverso do socialmente praticado pela maciça maioria e totalmente incompatível com a natureza de um parque de diversões familiar, pois é essa, exatamente essa, a imagem que o Hopi Hari passa em sua propaganda. E isso às 9h da manhã! Nós e as outras famílias ficamos na dúvida: ficar ou voltar. O Parque trocaria os ingressos para outro dia, mas não se responsabilizaria pelos gastos efetuados para chegar lá nesse dia. Além disso, havia a decepção das crianças, por perder um passeio há muito combinado. Decidimos, então, entrar, nós e centenas de outras pessoas, casais com filhos, idosos com netos, casais de namorados, jovens e muitas, muitas crianças, eufóricas e ansiosas por um dia no parque. Foi uma péssima decisão. Dentro do parque, aqueles cuja visão já nos assustara fora do parque, o procedimento, dentro do parque era mais do que assustador. Era francamente indecente. Nas filas dos brinquedos, em meio às crianças de todas as idades, e famílias, faziam questão de demonstrar as mais variadas formas de 'afeto', no mais escabroso exibicionismo, com beijos de língua, chupões por toda a parte do pescoço, orelhas e nuca, pernas se encoxando, corpos se esfregando, se agarrando, mãos para todo lado, dentro e fora das roupas, principalmente nos brinquedos cujas filas de espera eram internas e os locais com menos luminosidade. Cenas grotescas, de ultraje público ao pudor, descaradamente aos olhos atônitos das crianças. Cada fila, de cada brinquedo, passou a ser uma tortura, uma tensão, com as crianças e as famílias em meio àquela orgia comportamental, como se o parque tivesse se transformado em um imenso bacanal de plumas, paetês e pelos, protagonizada por homens barbados se esfregando e beijando. Ultrajante, mesmo, e intolerável, até para os que se esforçavam para entender o que se passava. O ápice se deu em um brinquedo chamado Rio Bravo, onde as pessoas partem em uma espécie de flutuante grande e redondo, lançado em uma correnteza, imitando um rio bravo, a céu aberto, fazendo com que seus ocupantes fiquem quase que totalmente molhados. É divertido e refrescante, principalmente devido à localização do Parque, em Vinhedo, lugar de temperatura quase sempre elevada. É um dos brinquedos preferidos da criançada. Ali, as cenas que fomos obrigados a presenciar foram dignas de filmes pornográficos caseiros, de escracho absoluto, do mais extremo mau gosto. Os gays e travestis entravam nos flutuantes e, a uma certa altura, viravam de costas para o público que aguardava sua vez na fila, abaixavam (ou levantavam) as roupas e mostravam os traseiros nus, peludos, às gargalhadas, para gáudio dos colegas que os filmavam e fotografavam, e para nojo dos demais, que assistiam, estarrecidos a toda aquela gratuita agressão. Esse foi o clímax, não só para mim e minha família, mas para muitas outras, que começaram a se retirar do Parque, sem poder aproveitá-lo, perdendo o sábado, perdendo a viagem e o dinheiro investido, decepcionando as crianças após termos todos que nos submeter a esse tipo de agressão de parte de gente sem qualquer condição de conviver sociavelmente. Antes de sair, muitas crianças pretendiam, é claro, passar pelos banheiros, antes de iniciar a viagem de volta, no que eram desestimuladas pelos pais, dado o aglomerado de pessoas de aparência francamente absurda, que entravam e saiam dos banheiros abraçados, agarrados e aos beijos, deixando entrever o que poderia estar acontecendo no interior dos sanitários. Isso, colega migalheiro Tiago Bana Franco, em 2003, sem previsão legal que os torne em uma casta inatingível. Depois, o que descrevi, e o que o colega teme, certamente será corriqueiro em shoppings, supermercados, parques, farmácias, escolas, universidades, hospitais, fóruns, até chegar um dia em que esses serão os comezinhos princípios de convivência: aí, colega migalheiro, não só você, mas todos nós, teremos sim que calar a boca. Se o colega não quer uma Lei que o mande calar a boca, é bom que grite agora, como fez. E como faço. Depois, pode ser tarde. E, como essas linhas estarão sendo lidas por outros migalheiros, além do prezado Tiago Bana Franco, quero previamente responder eventuais acusações de homofobia, preconceito ou discriminação contra minha pessoa. É o escândalo que ofende, é a arrogância e o escracho que agridem, é o que foge ao bom senso que não se justifica. E nisso não estou sozinha. É, também, a opinião de Barbi e Silva, advogados especialistas em Direito homoafetivo, que mantém um site, direitogay.com, no qual publicam artigos e respondem perguntas de gays, ou seja, uma assessoria jurídica especializada em assuntos tais, que se pronuncia, exatamente, sobre o respeito que devem ter os gays aos limites da moral e dos bons costumes e, também, evitar a 'pegação em banheiro público', considerada prática obscena (clique aqui) e (clique aqui)."

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