Violência 18/10/2007 Maria Luiza Bonini "Todas as tardes, nossa amiga se estirava no sofá, após o almoço e, atenta, assistia às receitas culinárias pela TV, interessada em ver se o que era apresentado se referia aos seus já famosos e perpetuados conhecimentos no assunto. Naquele dia, havia acordado muito cedo. Ao longo de seus noventa e cinco anos, seus filhos e netos tinham por ela um carinho todo especial, extremamente compreensível. Imagina que fofura uma senhora de noventa e cinco anos alegre, feliz, valorizando a vida! Que patrimônio! Era o grande orgulho dos filhos e netos. Morava em um lugar pouco tranqüilo. Em uma casa no morro da grande Cidade Maravilhosa. Surpreendentemente sente queimar uma de suas pernas. Uaiii - pensa - será que me queimei ? Em seguida a doce senhora ensangüentada é socorrida. Aquele nosso patrimônio estava ferido, por mais uma bala perdida! Socorrida, ela se preocupa em separar umas roupinhas para levar ao hospital. Não reclama de nada. Nem da dor insuportável que deveria estar sentindo. Ao contrário, usa de sua energia para tranqüilizar a todos. Que beleza de senhora, Dona Flor. Não dá para entender de onde pode tirar tanta energia e tanto otimismo. Transportada ao hospital, se torna famosa em todo o país, ao ser flagrada pelas câmeras de TV. É vista por todo o país, que se enternece ao assistir a cena. Ela, na padiola, tenta orientar os auxiliares de enfermagem que a acompanham. Que fibra! No dia seguinte, quando o prazo para visita é permitido, seus netos constatam que ela jaz, naquela fria maca em que foi transportada. Procedem silenciosos, engolindo o pranto, aos procedimentos necessários para o sepultamento de seu maior patrimônio, a avó Flor. Silenciosos por estarem estagnados com tudo o que ocorreu em tão poucas horas. Silenciosos por ordem expressa dos poderosos. Silenciamos, nós também. Lá se foram Dona Flor, e seus noventa e cinco anos. Doloroso para todos que a conheceram em uma maca, por uma câmera de TV. Vergonhoso, por saber do descaso, mais uma vez, em seu atendimento hospitalar. Faltou segurança, quando ela é ferida em seu cantinho, em seu lugarzinho de viver. Faltou consciência, quando foi tratada com descaso em seu atendimento hospitalar. Faltou vergonha de quem gerencia o dinheiro público. Faltaram lágrimas para chorar tão irreparável perda. Um patrimônio de noventa e cinco anos! Adeus, Dona Flor! De onde estiver, rogue por nós. Certamente será ouvida." Envie sua Migalha