Padre Júlio Lancellotti 6/11/2007 Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL "Transparência e isonomia. Nos dias de hoje, escândalos vêm atormentando religiosos no mundo inteiro. A igreja católica tem sido pródiga em casos de pedofilia fartamente exibidos pela mídia internacional, explorados por todos os jornais e televisões, com detalhes sórdidos que tem angustiado o alto clero no Vaticano e reduzido, drasticamente, o caixa das paróquias, principalmente nos Estados Unidos. Tudo contado em detalhes nas reportagens dos jornais e especiais de todos os canais de televisão, em noticiários acompanhados avidamente por todos, em todas as partes do mundo. No Brasil tem acontecido coisa semelhante, de um tempo a esta parte, se não com relação direta com pedofilia, com outras mazelas que tem atingido diversas religiões em nosso país. Sem qualquer juízo de valor a respeito, vale lembrar o caso em que se viu envolvido o Rabino Henry Sobel, em Miami, preso no ato de se apropriar de gravatas em lojas de grife. Primeiro, a notícia de sua prisão em flagrante, depois as filmagens, a da câmera interna da loja que o flagrou e, até a de segurança da viatura policial - que não se sabe como foi obtida - na qual a policial o inquiria e lhe dava voz de prisão. Depois disso, por semanas e meses, a exposição do rabino à mídia, dando entrada no Hospital Albert Einstein, explicando-se, ainda no hospital, saindo do hospital, acossado pelos repórteres, assistindo pela televisão casos anteriores de furtos sendo levantados pela mídia etc., etc., até que renunciasse à presidência do rabinato em São Paulo. Antes disso, havia acontecido a prisão do Bispo Macedo, da Igreja Universal, cujo carro fora cercado na rua, em operação cinematográfica, assistida por todos, exibida por um único canal de televisão, preso por 11 dias para ser, depois, solto por falta de provas, continuando sua pessoa e sua igreja a ser, 'dioturnamente', exibida, no mesmo canal de televisão, como corrupta e enganadora da fé pública. Mais recentemente, o caso da igreja Renascer, com diversas acusações do Ministério Público, todas tornadas públicas, em detalhes, pelos jornais e televisões, que culminaram com a prisão de seus líderes em Miami, detalhadamente exibida por todos os jornais e televisões do país, com exibição de fotos, filmes e documentos, não havendo semana em que um membro do Ministério Público não esteja na mídia exibindo fotos, filmes ou documentos comprometedores - e a igreja a desmenti-los, um a um - em uma seqüência inacabável, para gáudio de uns e consternação de outros. Agora, há dias, o caso do padre Júlio Lancellotti, envolvido em acusação que vai de extorsão à pedofilia, passando por possível desvio de verba de ONG. De início, como nos outros casos, tudo veio à tona, com jornais e televisões noticiando e dando espaço a acusador e acusadores se manifestarem, advogados de ambas as partes serem entrevistados. A isso, hoje em dia, se chama transparência, direito à informação. Era o que não tínhamos nos tempos de chumbo, dos governos militares, no curso dos quais as notícias eram censuradas e o que chegava ao público era previamente aprovado por alguma autoridade de plantão. Naquela época, só víamos e conhecíamos o que nos era dado ver, conhecer ou saber, o que tolhia nossa capacidade de discernir, de poder avaliar conscientemente. Mas, pensando bem, será que mudaram muito as coisas de lá para cá, em termos de informação isenta? Sem qualquer juízo de valor quanto aos atos dos religiosos propriamente ditos, se reprováveis ou não, mas tratando apenas da transparência da informação que chega ao público, se manipulada ou não, se vazada propositadamente ou não, se indevidamente dirigida ou se prestada como um verdadeiro serviço público, vamos analisar os fatos antes mencionados. Os casos de pedofilia na igreja católica, depois de cuidadosamente escondidos por séculos, vieram à tona, afloraram porque não mais seria possível deixá-los fora do conhecimento público, em razão das centenas, talvez milhares de ações judiciais que pipocavam, principalmente nos Estados Unidos, sendo que as condenações e os pagamentos de indenizações milionárias eram públicas, o que dava margem a notícias e reportagens das quais não poderiam se ausentar nenhum meio de comunicação. Nesses casos, a transparência, por assim dizer, foi obrigatória, mesmo para os meios de comunicação parcialmente a favor da igreja católica, pois não publicar seria perder audiência. No caso do rabino, as primeiras notícias foram, também, completamente transparentes, quanto à sua prisão em Miami. Depois, silêncio, até sua explicação no hospital e sua saída no hospital, com ênfase, por certa mídia para o fato de ter sido recebido pelo Papa em sua visita ao Brasil, e pelos filmes - como já se disse, obtidos não se sabe como, do interior da loja e da viatura policial - por outra parte da mídia. Nesse caso, para uma informação completa, para uma inteira transparência, somente assistindo aos noticiários parciais de alguns canais de televisão, com noticiários censurados de parte a parte. No evento do Bispo Edir Macedo, somente um canal de televisão esteve presente ao cinematográfico cerco policial, ao interrogatório e à prisão, com repórteres suficientes para serem divididos entre esse evento e a renúncia do presidente Collor, os únicos a saberem, previamente, da prisão do líder religioso e preparados para acompanhá-la e a dar o ‘furo’ de reportagem. A transparência, aqui, ficou por conta de uma única emissora, que passou a capitanear uma campanha religiosa da Igreja Universal. No caso da igreja Renascer, novamente a transparência ficou prejudicada. Não tanto como no caso da Universal, é verdade. Mas o noticiário parte de um único canal de televisão e, depois, repercute, como se diz, para o restante da mídia, sendo que todas as 'novidades' dos procedimentos judiciais em andamento vazam imediatamente para esse mesmo canal, com exclusividade que, como nos casos dos jogos de futebol, depois os distribui para os demais. Finalmente, o caso do padre Júlio Lancellotti, que o público vinha acompanhando, com interesse, como acompanhou a todos os demais, antes. Primeiro, a acusação de extorsão, depois a notícia de um possível caso de pedofilia que, talvez, desaguasse em desvio de dinheiro público destinado a uma ONG. Quando, de repente, o silêncio imposto pelo segredo das informações, que sumiram da mídia, que deixou de ser transparente, não se sabe a serviço de quem e nem do que, não do padre, certamente, que tem todo o interesse em ver esclarecida a questão e até, no último sábado, em missa celebrada à porta de sua residência, revelou que, com a ajuda da polícia, produziu gravações de conversas com os meliantes, suficientes a comprovar sua inocência no caso. Mas, as fitas não vieram a público, guardadas pelo inquérito policial sobre o qual foi decretado o mais absoluto sigilo, o que é estranho em um país acostumado a ver, todas as noites, a transmissão de fitas gravadas de conversas entre ministros, senadores e autoridades muito mais gabaritadas e, até, de parentes do presidente da República. Fica, então, uma dúvida sobre a transparência. De tudo o que foi dito, a transparência é, de fato, transparente? Ou a transparência é parcial? É transparente aqui e acolá e, em alguns pontos, mais opaca, a critério de alguns? Há alguém que estabeleça critérios para a transparência? Em outras palavras, há quem decida o que deva ser ou não transparente? Vai ver que, de repente, após o governo militar, e não havendo mais a censura no país, agora temos um serviço de transparência, com funcionários habilitados a decidirem sobre o que é bom ser transparente ou não para o público. Não sei não, mas mais ou menos transparente não é transparente. Mais ou menos limpo é o mesmo que mais ou menos sujo." Envie sua Migalha