Padre Júlio Lancellotti

9/11/2007
Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL

"Já desisti de emitir qualquer juízo de valor sobre o caso do padre Júlio Lancellotti, tantas são as idas e vindas das notícias veiculadas pelos jornais, principalmente depois que o sigilo se abateu sobre o assunto, o que motivou meu comentário reclamando sobre a falta de transparência do mesmo, bastante estranha aliás. E a falta de transparência dá margem a desconfianças, pois que foi só a coisa se tornar opaca, e as informações sumirem, para tudo tomar outro aspecto, diametralmente oposto, com esquecimento de muitas informações antes divulgadas e, agora, com ampla divulgação de verdades não comprovadas. Por exemplo, há dias o padre, na porta de sua casa informou que a verdade estaria em fitas gravadas que entregara à polícia, após o que foi decretado sigilo total e as tais fitas não vieram a público. Passados alguns dias, o caso volta à cena, já com a conclusão da polícia: Sim, o padre sofreu extorsão. A notícia, aliás, é bastante clara:

'O caso de extorsão denunciado pelo padre Julio Lancellotti está esclarecido para a polícia, segundo o delegado André Luiz Pimentel, titular do Setor de Investigações Gerais (SIG) da 5ª Delegacia Seccional'.

Não digo que não, nem que sim. Mas, como ficam todas as informações antes reveladas ? Era R$ 50.000,00 como denunciado pelo padre de início, R$ 80.000,00 como depois se recordou, R$ 140.000,00 como afirmou seu advogado depois ainda, R$ 400.000,00 conforme o próprio delegado admitiu ou R$ 600.000,00 como disse o acusado ? O padre dispunha ou não desse dinheiro ? Qual o resultado da quebra de sigilo bancário do padre, anunciada pelo delegado ? Como fica o depoimento do funcionário da concessionária, que afirmou que, contrariamente ao declarado pelo padre, o sacerdote compareceu acompanhando o acusado e sua mulher na compra da Pajero, pagou a entrada e recebeu em suas mãos o carnê das prestações e que estava tudo bem ? Porque a ênfase a 'invasões' à casa do sacerdote, somente agora reveladas, sobre as quais nada se sabe, misteriosamente atribuídas a uma pretensa quadrilha do acusado, e sobre as quais não há testemunhas ? O que foi feito das outras testemunhas de abusos perpetrados pelo padre ? Se a vida de luxo dos acusados tem a ver com dinheiro extorquido do padre, não tem o padre de esclarecer de onde veio o dinheiro que pagou a extorsão ? A ONG onde trabalha o padre, que opera com dinheiro público, e que tem ligações com o partido que é atendido pelo mesmo advogado que atende o padre, não deveria ser investigada, para verificar a eventualidade de algum desvio ? Qual a prova de que, de fato o padre tenha sido forçado a dar dinheiro ao acusado ? Quando se promove uma operação abafa, e a transparência some, afloram as dúvidas e, das dúvidas, aparecem certezas, perfeitamente justificáveis pela sonegação das informações que a sociedade tem o direito de saber e conhecer. Principalmente em um caso em que a não transparência é imposta pelo acusador e não pelo acusado, a quem costuma interessar o sigilo. Normalmente, é o acusado que necessita veemente defesa, e não o acusador. Nos casos em que há a acusação e a supressão do contraditório por calar-se a defesa pela ausência da informação, aflora a dúvida e a incerteza. E a possibilidade da injustiça. Afinal, o direito à informação é um dos alicerces do Estado Democrático que compreende o direito de informar, de se informar e de ser informado ou o direito à verdade. Por isso a lei da mordaça não emplacou, exatamente porque a população tem o direito de saber o que está sendo investigado, principalmente quando envolvidas estão pessoas públicas, entidades públicas e, eventualmente, recursos públicos. Até porque, não vamos acreditar, nos dias de hoje, como no filme 'Conspiração', do diretor George Cosmatos, na frase: 'A imprensa escreve para vender, e não para informar'. E nem que o próprio padre Júlio, acusado de volta, na acusação que fez, se conforme com a condenação dos que acusou, sem o esclarecimento acerca das acusações sobre sua própria pessoa, seriíssimas também."

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