Briga de Galo 10/6/2008 Mano Meira - Carazinho/RS "Ainda sobre o galo cantador Chico (Migalhas 1.910 - 4/6/08 - "Briga de galo" - clique aqui), cuja altivez é digna de destaque, não somente pelo canto sonoro, mas também pela legenda de lutas nos rinhedeiros, lutas que, diga-se de passagem, são mil vezes mais leais que as travadas entre os humanos. Esses gladiadores emplumados nunca visam os olhos do contendor, e se acaso ocorre de acertarem um puaço nas vistas do inimigo é devido a um acidente involuntário, principalmente porque os humanos os calçam com esporões artificiais, o que torna ainda mais sangrenta a luta. Com referência a saga guerreira desse bípede de penas, o imortal Jayme Caetano Braun, escreveu um belo poema, o qual peço a gentileza de publicarem conforme vai a seguir: Última Rinha Calcei o frango Prateado Que foi pinto em meu terreiro, Pra soltar no rinhedeito Onde estava um Colorado. Havia povo amontoado De pé, sentado e de joelho. O jogo muito parelho De mansito começou, Até que um pardo gritou: Cem mil no galo vermelho! Era um galo da Argentina, Diz que campeão de torneio, O meu era um frango feio, Mas de pua muito fina, Porém a voz repentina Do alarife jogador Trouxe como que um tremor De surpresa e de impaciência Que fez vibrar a assistência Ao derredor do tambor! Foi como chuva no zinco, E a cousa já pegou fogo Começando a sair jogo De até vinte mil por cinco, Mas havia tal afinco Que um dos lados se encolheu, Houve até quem se benzeu, Num gesto de carpeteiro, Fazendo cruz no dinheiro Jogando a favor do meu! E me deixaram de lado, Solito e sem parceria. E eu joguei o que podia Contra o galo Colorado. Depois, soltei o Prateado Que ciscando na serragem, Bateu asas de coragem, E cantou com imponência, Como quem diz à assistência: Não dou nem peço vantagem! Já na primeira topada, Antes de trançarem ferro, O meu frango deu um berro Noma voz esganiçada, Tinha uma vista arrancada E o grito fora inconsciente, Mesmo que um grito de gente Que ele soltou sem sentir Mas sem menção de fugir: Oigalê, bicho valente! Senti um bárbaro arrepio Que me correu pela espinha Ma, porém, seguiu a rinha E o meu frango não fugiu, Cambaleou mas não caiu E se aprumou devereda, Enquanto que pela seda Do pescoço levantado Descia o sangue encarnado Num brilho de labareda! E voltando com furor. Respondeu aço com aço, Puaço atrás de puaço, Que estremecia o tambor. Era mesmo peliador O tal galo Colorado, Já nem falo do Prateado Que bem de pé, como um potro, Veio pra cima do outro Mesmo que um tigre baleado! E amigos, naquele instante Me amaldiçoei em segredo Das vezes que tive medo De algo insignificante, Ao ver ali, impressionante Aquele galo ferido, No próprio sangue esvaído, Torto, quase cego até, Disposto a morrer de pé Pra não se dar por vencido! Afogado na sangueira E abaixo de tempo feio, Vi que não ia a careio Assim, daquela maneira, A cabeça uma peneira, Do pescoço, já nem falo, Eu sem poder ajudá-lo, Ele peleando sozinho E eu repetindo baixinho: - Vamos?! Coragem meu galo! E o vermelho ia ponteando, Mai brabo do que uma cobra Que perna tinha de sobra E raça também sobrando, E foi aí, se não quando, Que o frango do meu terreiro, Num tiro de desespero, Mais certo do que um balaço, O desnucou de um puaço No meio do rinhedeiro! E ali está o galo Prateado, Cercado pelas galinhas. Eu até deixei de rinhas, Talvez por penalizado, Ou talvez espicaçado, Que o remorso não perdoa, Por que se a vida é tão boa, É um banditismo da gente, Fazer um bicho valente Matar ou morrer à-toa!" Envie sua Migalha