Mulheres viajantes no Brasil

23/9/2008
Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL

"Esse o título do livro, de um pequeno livro recém lançado, que reúne cartas de três mulheres, que estiveram no Brasil e, daqui, escreveram cartas, descrevendo o lugar. As mais interessantes são da protestante Jemina Kindersley, inglesa, casada com Nathaniel Kindersley, tenente da Royal Artillery que, quando promovido a capitão, foi transferido para a Companhia das Índias Ocidentais de Bengala, obrigando-o, e à família, a embarcar para Calcutá. Dessa longa viagem, Jemina escreveu 68 cartas, reunidas em um livro, sete delas acerca de suas impressões sobre o Brasil de 1764, mais propriamente da Bahia, onde desembarcou. No pouco tempo em que aqui ficou, essa mulher, dotada de bastante perspicácia, logo notou que 'me foi impossível saber quem está à cabeça do governo. Uma coisa, todavia, soubemos bem: não há empenho para nada, nem mesmo quando se trata de obter provisões e moradia. Tudo, ao fim e ao cabo, acaba por se arranjar, mas com muita demora e dificuldade, sob o pretexto ou de que o coronel nada pode resolver, porque o governado se encontra ausente da cidade, ou de que o governado não pode deliberar, porque o coronel está fora; ou ainda, de que ambos estão impossibilitados de decidir sem a presença do Bispo'. Como se vê, já existia, em 1764, a instituição do 'jeitinho', coisa herdada depois pelos brasileiros, e com a qual os ingleses jamais se acostumaram. Quanto à educação e cultura, as informações não são muito diferentes das de hoje. Diz a missivista sobre os habitantes do Brasil de 1764, que: 'As artes não lhes despertam nenhum interesse e a elegância em matéria de mobiliário e equipagem escapa-lhes. Os habitantes parecem saber bem pouco acerca dos requintes da vida, passando a maior parte do tempo na mais completa indolência e lendo pouquíssimos livros, pois o conhecimento não está no seu rol de preocupações'. No que toca à política, a do Brasil de 1764 não era diferente da que hoje se pratica, segundo o que pode observar a inglesa Jemina Kindersley: 'É política assente do governo manter o povo na ignorância, já que isso o faz aceitar com mais docilidade as arbitrariedades do poder.' E o reflexo dessa política de então, observado à época, é exatamente o mesmo que hoje se nota: 'A corrupção no Estado é, invariavelmente, seguida pela corrupção do povo. A maioria dos habitantes daqui é movida muito mais pelo medo do que pelo sentimento de honra; e quanto maior a dificuldade que encontram para obter justiça, maior a sua inclinação à astúcia e à desonestidade – todos olham o seu vizinho com uma enorme desconfiança’. Jemina Kindersley esteve em terras brasileiras, na Bahia de Todos os Santos, por cerca de um mês. E foi o suficiente para desenhar um quadro perfeito do que seria a Brasil de quase 250 anos depois, ou seja, continua praticamente igual em se tratando de educação, cultura e política."

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