Crise financeira

14/10/2008
Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL

"A crise financeira mundial e a prisão de Cacciola. Lendo aqui e ali sobre a crise financeira mundial, eu, que não entendo de economia, fico juntando algumas informações nas entrelinhas. Por exemplo, a que diz que a origem da crise tem a ver com as gigantes hipotecárias, Fannie Mac e Freddie Mac que foram, recentemente, socorridas pelo governo norte-americano. Li que essas empresas são resultado da política do 'New Deal', de Roosevelt, que previa que todos os cidadãos americanos deveriam ter casa própria, mesmo que não tivessem capacidade creditícia. Assim, as hipotecas eram, e sempre foram, de alto risco. Li, também, que essas gigantes hipotecárias não são, exatamente, empresas privadas, mas paraestatais e que, por isso, sempre receberam muitas 'injeções' do governo, o que possibilita aos cidadãos americanos o acesso à casa própria. Em uma situação 'normal', de economia de mercado, os bancos não forneceriam crédito a pessoas com histórico duvidoso. Mas, li também que, desde 1977, o presidente Cartes criou um decreto, o Community Reinvestment Act (Decreto de reinvestimento comunitário), que 'obrigava' os bancos a fazer empréstimos aos cidadãos sem capacidade de honrar suas dívidas com o aval das grandes hipotecárias, a juros mais baixos, justamente para que todos tivessem acesso à casa própria. Os bancos que não fizessem (ou não provassem ter feito empréstimos a esses maus pagadores) ficavam impedidos de fazer fusões, aquisições, novas linhas de negócios, etc. Em conclusão, em razão dessa política antiga de intervenção na economia, os cidadãos americanos tem casa própria. Em conseqüência, o mundo todo amarga essa enorme crise no sistema financeiro mundial. E sem casa própria. Daí se chega á 'crise sistêmica'. Onde se ouviu falar de 'crise sistêmica' antes? Que me lembre foi em 1999, quando o Banco Central do Brasil elevou o teto da cotação do dólar de R$ 1,22 para R$ 1,32 e alguns, dentre eles os bancos Marka e FonteCindam, na contramão do mercado, haviam assumido pesados compromissos em dólar. Para solucionar o 'problema', o BC vendeu aos dois bancos dólares abaixo da cotação de mercado, em vez de decretar a liquidação daqueles bancos. Na época, a principal alegação da Diretoria do Banco Central para autorizar a operação considerada ruinosa, foi o risco de quebra daqueles bancos provocar uma 'crise sistêmica'. A Justiça, no entanto, não aceitou a alegação da 'crise sistêmica' e todos foram condenados. Além de Cacciola, que obteve 'ajuda ilícita de proporções monumentais para seu banco', os diretores do BC à época, por ter sido considerado crime favorecer, com recursos públicos, uma instituição privada. Considerando tudo isso, o que vemos agora? Uma 'crise sistêmica', na qual instituições privadas norte-americanas e de outras partes do mundo, fruto da ganância e da tentativa de 'alavancagem' desmesurada de seus ativos. E, mais ainda, os governos do mundo todo, dispostos a favorecer com recursos públicos os bancos que participaram dessa 'farra' de alavancagem o que, no passado, foi considerado crime aqui no Brasil. E, além disso, as notícias no sentido de que algumas grandes empresas brasileiras, que 'apostaram' no dólar baixo, tiveram perdas enormes com a conseqüente desvalorização do real frente à forte valorização da moeda norte-americana e, agora, ao que consta, serão socorridas pelo governo brasileiro, através do Banco Central, exatamente para evitar uma 'crise sistêmica' aqui no Brasil, ou para impedir que ela se agrave. Então, parece haver uma certa confusão no ar: os antigos diretores do BC tinham razão quando 'salvaram' os bancos Marka e FonteCindam para evitar uma 'crise sistêmica'? Parece que sim. E, se assim é, tem razão o Cacciola, que deve ser solto o quanto antes, já que, ao contrário de ter feito algo errado, foi apenas precursor, assim como os antigos diretores do BC que, eles sim, entendiam mesmo dessas 'crises sistêmicas'. É isso?"

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