"Fazemos a decisão acontecer": Oficiala de Justiça detalha rotina nas ruas
Oficiala descreve ameaças e conflitos do dia a dia e mostra como a informação, nas ruas e online, virou parte do seu trabalho.
Da Redação
sexta-feira, 6 de março de 2026
Atualizado às 07:04
Responsáveis por transformar decisões judiciais em ações concretas, os oficiais de Justiça atuam diretamente nas ruas, lidando com conflitos, emoções e situações muitas vezes delicadas.
Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, neste domingo, 8, a trajetória de Gina Geipel, oficiala de Justiça em Tocantins há mais de 30 anos, reforça que a profissão vai muito além da entrega de mandados e exige escuta, orientação e sensibilidade no contato com as pessoas.
“O juiz decide uma coisa dentro do gabinete dele. Mas quem é que vai fazer aquilo ser cumprido lá fora? Somos nós, oficiais de Justiça.”
No dia a dia, Gina explica que grande parte das diligências envolve comunicar decisões judiciais que nem sempre são bem recebidas. Intimações, medidas protetivas, despejos e afastamentos do lar estão entre as situações mais frequentes.
“Geralmente, a gente manda notícia ruim.”
Segundo ela, o trabalho também exige explicar às pessoas o que está acontecendo juridicamente e quais caminhos podem ser seguidos.
“As pessoas [...] são carentes de informação. Informações básicas.”
Para Gina, essa dimensão informativa é uma das partes mais importantes da função. Mesmo quando se trata de alguém acusado em um processo, ela afirma que o papel do oficial é garantir que a pessoa compreenda seus direitos.
“Eu, como aparato do Estado, representando o Estado, eu tenho que dar todas as informações para aquela pessoa.”
Apesar de muitas vezes lidar apenas com quem recebe a notícia negativa, Gina lembra que o cumprimento do mandado também representa o avanço do processo judicial.
“Quando eu levo notícia ruim para uma pessoa, significa que está sendo boa para outra.”
Mulher na linha de frente
Ao falar da atuação feminina na carreira, Gina relata que já enfrentou situações em que percebeu resistência de homens em aceitar uma ordem judicial transmitida por uma mulher.
“Foi muito visível a questão de não aceitar uma mulher num comando de uma ordem dessa.”
Além disso, ameaças fazem parte da rotina. Porém, ela afirma que aposta no diálogo e na chamada comunicação não-violenta para tentar reduzir conflitos.
A oficiala também destaca que um dos maiores desafios é não absorver os conflitos que surgem no exercício da função.
“Você está lidando com o problema de todo mundo, mas você tem que entender que o problema dele não é seu.”
Apesar das dificuldades, Gina afirma que continua apaixonada pela profissão e pelo contato direto com as pessoas.
“Se você acha que rola, vamos embora para a rua.”
Veja a entrevista:
Das ruas para as redes
Além da atuação nas ruas, Gina passou a usar as redes sociais para mostrar o cotidiano da profissão e explicar o trabalho do oficialato. Segundo ela, a iniciativa surgiu de forma espontânea, ao perceber que muitas pessoas desconheciam a dimensão da função.
“Vai fazer uns 10 anos que eu comecei a trabalhar O Vida de Oficial, utilizar a minha página, minha página é pessoal, e eu comecei a utilizá-la para divulgar.”
Com o tempo, ela se juntou a outros profissionais e passou a integrar o coletivo, que reúne oficiais de Justiça de diferentes estados e busca aproximar a profissão da sociedade.
“A gente posta tudo em relação ao oficialato, a nossa profissão, porque a gente percebeu que as pessoas não sabem o que a gente faz.”
Segundo Gina, o desconhecimento aparece até entre pessoas próximas, que se surpreendem ao descobrir a variedade de atribuições do cargo.
“Eu tenho colegas, amigos, que convivem comigo há anos, e quando eu comecei a divulgar mais minha profissão, eles falam: 'Gina, você faz prisão? Faço. Você busca apreensão? Faço.'”
Nas redes, algumas dessas histórias ganharam grande repercussão. Em um dos vídeos que viralizaram, ela relatou um caso envolvendo execução de pensão alimentícia, o que ampliou o alcance do conteúdo. Hoje, a página soma mais de sete mil seguidores.
Ela afirma que os relatos do cotidiano acabam gerando identificação em quem acompanha.
“Eu trago muitas histórias que do outro lado da tela, as pessoas se vêem nelas.”
Para Gina, compartilhar essas experiências também ajuda a ampliar o acesso à informação jurídica.
“Informação é tudo.”





