Advogado de Matsunaga aponta diferenças entre filme sobre Elize e caso real
Luiz Flávio Borges D'Urso relatou bastidores da investigação, provas técnicas consideradas no processo e alertou para risco de produções sobre crimes reais glamorizarem autores.
Da Redação
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Atualizado em 11 de agosto de 2026 17:26
O caso Elize Matsunaga voltou às telas, mas o que a ficção apresenta nem sempre coincide com o que ficou registrado no processo. Essa é uma das ponderações do advogado Luiz Flávio Borges D'Urso, que atuou como assistente de acusação da família de Marcos Matsunaga e acompanhou de perto a investigação e o julgamento.
O assunto voltou aos holofotes com o lançamento, pela Netflix, de “Elize: Sombras de Uma Mulher”. O longa de ficção, que estreou em 22 de julho, é inspirado no crime ocorrido em maio de 2012, em São Paulo, quando Elize matou e esquartejou o marido, Marcos Kitano Matsunaga, então diretor executivo e herdeiro da Yoki.
Em entrevista ao Migalhas, D'Urso revisitou os bastidores da investigação e destacou provas periciais que, segundo ele, afastaram versões apresentadas pela defesa e reforçaram a tese de premeditação. O criminalista também comentou a forma como crimes reais são levados às telas e alertou para o risco de glamourização de seus autores.
Assista:
Da investigação às provas periciais
D'Urso contou que passou a representar a família quando Marcos ainda estava desaparecido e havia suspeita de sequestro. A hipótese perdeu força diante da ausência de pedido de resgate.
Segundo o advogado, imagens do condomínio mostraram Marcos entrando no apartamento, sem registro posterior de sua saída, e Elize deixando o local com malas pesadas.
A investigação avançou após a localização e identificação de partes do corpo e com dados do celular de Elize, que, conforme relatou, indicaram sua passagem pelos locais onde os restos mortais foram encontrados. Confrontada com as informações, ela confessou o crime.
D'Urso afirmou que, a partir da confissão, foram apresentadas teses relacionadas à legítima defesa e à violenta emoção, posteriormente afastadas, segundo ele, pelo conjunto probatório.
Entre os elementos mencionados está a perícia balística. De acordo com o criminalista, a trajetória descendente do projétil e os vestígios de pólvora indicavam que o disparo teria ocorrido a curta distância, contrariando a dinâmica inicialmente narrada por Elize.
Premeditação e causa da morte
O advogado também citou elementos que, em sua avaliação, reforçaram a tese de premeditação, entre eles a compra de uma segunda serra elétrica pouco antes do crime e a substituição do cano da arma utilizada.
Sobre a causa da morte, D'Urso afirmou que a prova médico-legal indicou que o tiro na cabeça não matou Marcos imediatamente. Segundo relatou, foram encontrados vestígios de sangue nos alvéolos pulmonares, o que indicaria que ele ainda respirava quando sofreu o corte no pescoço. O corpo chegou a ser exumado para a realização de novos exames.
Julgamento
D'Urso recordou que o julgamento durou quase 11 dias. Elize foi inicialmente condenada a 19 anos, 11 meses e um dia de prisão, pena posteriormente reduzida para 16 anos, após o afastamento de uma qualificadora.
Segundo o advogado, a família entendeu que a Justiça havia sido feita e não se manifestou sobre a quantidade da pena aplicada.
"Não pode acontecer é glamorizar"
Ao comentar produções audiovisuais inspiradas em crimes reais, D'Urso afirmou não ser contrário à realização de filmes ou documentários, mas fez uma ressalva:
"O que eu penso que não pode acontecer é glamorizar, é trazer uma condição de ídolo ao criminoso."
Para o advogado, produções baseadas em casos reais devem evitar a normalização ou exaltação de condutas criminosas. Sobre a obra cinematográfica mais recente envolvendo o caso Matsunaga, ressaltou que se trata de ficção baseada em fatos reais, e não de um documentário.