Terça-feira, 7 de fevereiro de 2012


Por cento

1) O fulcro da questão é buscar resolver a concordância verbal em exemplos como "Noventa por cento viajaram", em que se pergunta: põe-se o verbo no singular ou no plural?

2) De acordo com lição de José de Nicola e Ernani Terra, "quando o sujeito é uma expressão que exprime porcentagem, o verbo deverá concordar com o numeral". Exs.: a) "Um por cento deixou a cidade"; b) "Trinta por cento deixaram a cidade".

3) Aduzem, por outro lado, tais autores que, "caso a expressão que indica porcentagem venha acompanhada de partitivo, pode-se fazer a concordância com a expressão partitiva. Exs.: a) ´Um por cento dos alunos faltaram´; b) ´Setenta por cento do time não apresentava boas condições físicas´".

4) Para Laurinda Grion, em casos que tais, por serem sujeitos formados por números percentuais, "a concordância do verbo se faz com o numeral": a) "Sessenta por cento dos empregados horistas estão contentes com as refeições servidas no almoço"; b) "Apenas dez por cento aprovam a atuação do serviço de restaurante"; c) "30% aprovam o plano"; d) "1% desconhece o assunto".

5) Já para Antonio Henriques, em tais casos, "o que determina a concordância é o partitivo": a) partitivo no singular, verbo singular: "90% do STF aplica bem a Justiça"; b) partitivo no plural, verbo plural: "90% dos Juízes aplicam bem a Justiça".

6) E, se não há partitivo, a concordância faz-se com o número: a) número singular, verbo singular: "Um por cento é pobre"; b) número plural, verbo plural: "Noventa por cento são ricos".

7) Para Luiz Antônio Sacconi, em tais casos, se se emprega o verbo ser em locução na voz passiva, dá-se a concordância com o partitivo (complemento). Exs.: a) "Vinte por cento da população está desempregada" (correto); b) "Vinte por cento dos trabalhadores estão desempregados" (correto).

8) Idêntico é o raciocínio para outros casos — mesmo sem locução na voz passiva - em que a concordância se faz com o adjunto (complemento) desse sujeito indicador de número percentual. Exs.: a) "Noventa por cento da imprensa defende o governo"; b) "Noventa por cento dos jornalistas defendem o governo".

9) Acresça-se, porém, a lição do professor Silveira Bueno, que indaga qual das duas concordâncias é correta: Oitenta por cento do eleitorado votou ou oitenta por cento do eleitorado votaram? E passa a responder tal gramático: "Oitenta por cento aqui são oitenta eleitores em cada porção de cem eleitores. Ora, se são oitenta eleitores, temos, evidentemente, um sujeito plural; se temos sujeito plural, o verbo deverá concordar com ele em número e pessoa, indo também para a terceira pessoa do plural".

10) E dá tal autor, em seguida, como correta, a construção: "Oitenta por cento do eleitorado votaram".

11) Luiz Antônio Sacconi, por sua vez, formula uma primeira regra, segundo a qual, se o número percentual se pospõe ao verbo, a concordância se fará normalmente com o número. Exs.: a) "Estão perdidos 50% da lavoura de café"; b) "Ficaram alagados 10% da cidade".

12) Em segunda norma, acrescenta tal gramático que "o plural também será obrigatório se o número percentual vier determinado por artigo ou pronome". Exs.: a) "Os 37% da produção serão exportados"; b) "Uns 15% da população morreram como consequência do terremoto".

13) Em adendo, observa que, se o número percentual for representado pela unidade, a concordância pode ser feita ou com o número percentual ou com seu complemento. Exs.: a) "Apenas 1% dos filmes requisitados chegou"; b) "Apenas 1% dos filmes requisitados chegaram".

14) Arnaldo Niskier, de seu lado, parte de três exemplos: a) "Quarenta por cento da vitória se devem a Pelé"; b) "Quarenta por cento da vitória se deve a Pelé"; c) "Esses dez por cento da arrecadação foram aplicados em Educação".

15) Deles, extrai tal autor as regras de seu entendimento: a) "com número percentual a concordância pode ser com o número" (quarenta — se devem); b) em tal caso, a concordância também pode dar-se "com a expressão que a ele se segue (o que normalmente se recomenda devido à eufonia)" (da vitória — se deve); c) "quando, no entanto, o número percentual é determinado, a única concordância possível é com o próprio número" (esses dez por cento — foram aplicados).

16) Ante tais divergências entre os autores, já aplicado o princípio de que, na dúvida, há liberdade para o usuário (in dubiis, libertas), podem-se resumir do seguinte modo as regras atinentes à questão da concordância verbal com a expressão por cento: a) Quando não há termo especificador, a concordância se faz com o numeral ("Um por cento faltou"; "Vinte por cento se ausentaram"); b) Quando a expressão indicativa de porcentagem se faz acompanhar de um termo especificador, de um partitivo, a concordância pode ser feita com o número ou com o termo especificador, indistintamente ("Apenas 1% dos filmes requisitados chegou"; "Apenas 1% dos filmes requisitados chegaram"; "Noventa por cento da imprensa defende o governo"; "Noventa por cento da imprensa defendem o governo"); c) Em tais casos de dupla possibilidade de concordância, é preciso atentar à flexão do adjetivo que funcionar como predicativo (“Vinte por cento da população está desempregada"; "Vinte por cento dos trabalhadores estão desempregados"); d) Se o número percentual se pospõe ao verbo, a concordância se faz normalmente com o número ("Estão perdidos 50% da lavoura de café"; "Ficou alagado 1% da cidade"); e) O plural será obrigatório, se o número percentual vier determinado por artigo ou pronome ("Os 37% da produção serão exportados"; "Uns 15% da população morreram como consequência do terremoto").

17) No que concerne à concordância nominal em tais casos, lembrando que "os numerais flexíveis em gênero concordam com o substantivo a que se referem", leciona Domingos Paschoal Cegalia que, "pela lógica, deve-se dizer: ´Oitenta e duas por cento das mulheres trabalham fora de casa´. ´Trinta e uma por cento das crianças não frequentavam a escola´".

18) E justifica tal autor com o fato de que tais expressões significam "oitenta e duas mulheres entre cem; trinta e uma crianças entre cem".

19) De modo bem prático para o caso da consulta: I) "Um por cento das empresas sofreu fiscalização" (correto); II) "Um por cento das empresas sofreram fiscalização" (correto); III) "Noventa por cento das empresas sofreu fiscalização" (errado); IV) "Noventa por cento das empresas sofreram fiscalização" (correto); V) "Noventa por cento do bairro sofreu fiscalização" (correto); VI) "Noventa por cento do bairro sofreram fiscalização" (correto).

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Dúvida do leitor


A leitora Anna Landgraf envia-nos a seguinte mensagem:

"Olá! Tenho uma dúvida: '90% das empresas sofreu fiscalização' ou '90% das empresas sofreram fiscalização'?"

Envie a sua dúvida.


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Esta matéria foi colocada no ar originalmente em 17 de março de 2010.
ISSN 1983-392X

 

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