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ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Boa-fé, Boa fé ou Boafé?

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

dúvida do leitor

O leitor Marcos Zwarg envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas :

"Gostaria de saber do Prof. José Maria da Costa se o acordo ortográfico alterou o hífen em 'boa-fé e má-fé'. Grato."

O leitor Roberto Zandoná também questiona :

"Caro Professor José Maria, após o Acordo Ortográfico de 2008, o hífen permanece na grafia de 'boa-fé' ou deve ser removido ?"

envie sua dúvida


Boa-fé, Boa fé ou Boafé?

1) Um leitor indaga qual a forma correta, quanto ao hífen, após o recente Acordo Ortográfico: Boa-fé, boa fé ou boafé?

2) Reforça-se, mais uma vez, por oportuno, que a maioria dos gramáticos estavam acordes em que o emprego do hífen era assunto que carecia de um sério e profundo trabalho de sistematização e simplificação no idioma. Longe de melhorar a situação, todavia, o que o recente Acordo Ortográfico fez foi complicar ainda mais o que já era difícil.

3) Mas tentemos solucionar a questão trazida pelo atento leitor, usando as ferramentas de que dispomos.

4) Pelo Acordo Ortográfico, emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição, cujos elementos constituam uma nova unidade morfológica e de sentido, mantendo o acento próprio: sócio-gerente, arco-íris, afro-luso-brasileiro.

5) Excepciona o Acordo, em sequência, os compostos em que se perdeu a noção da composição, os quais devem ser grafados como uma única palavra: paraquedas, girassol, passatempo, etc.

6) Como se vê, o Acordo deixou de fixar critérios seguros, pois (i) manda empregar hífen nas palavras cujos elementos constituam nova unidade morfológica e de sentido, (ii) mas excepciona os compostos em que se perdeu a noção de composição (iii) e não dá critério algum para real solução do problema.

7) Em outras palavras, indaga-se: a expressão que motivou a consulta (i) constitui nova unidade morfológica e de sentido (boa-fé), ou (ii) é um composto em que se perdeu a noção de composição (boafé), ou, ainda, (iii) para os critérios do Acordo Ortográfico, nem mesmo chega a ser uma nova unidade morfológica e de sentido (boa fé).

8) Ante esse quadro, é forçoso concluir: por critérios técnicos do Acordo Ortográfico, é total a impossibilidade de fixar uma regra que solucione os problemas do hífen em hipóteses como a da consulta.

9) Num caso como esse, a única saída é consultar o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que é uma espécie de dicionário que lista as palavras reconhecidas oficialmente como pertencentes à língua portuguesa, bem como lhes fornece a grafia oficial.

10) Esse é o único recurso, porque, também conhecido pela sigla VOLP, ele é organizado e publicado pela Academia Brasileira de Letras, a qual tem a delegação e a responsabilidade legal de editá-lo, em cumprimento à Lei Eduardo Ramos, de n. 726, de 8.12.1900.

11) Pois bem. Em sua quinta edição, de 2009, a primeira após o Acordo Ortográfico, o VOLP apenas fez constar, como correta, a expressão boa-fé1, forma essa, aliás, que já constava do mesmo modo na quarta edição, de 2004, a última antes da vigência do Acordo.2

12) Com essas ponderações, vê-se que boa-fé é a única grafia correta para a mencionada expressão em nosso idioma na atualidade.

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1 Cf. Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., 2009. São Paulo: Global. p. 124.

2 Cf. Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 4. ed., 2004. Rio de Janeiro: Imprinta, p. 116.

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Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas.