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ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Pronome átono e locuções verbais

quarta-feira, 13 de julho de 2005

dúvida do leitor

A leitora Iracema Palombello envia a esta redação a seguinte mensagem:

"Caro Prof. José Maria, na frase: "As situações não são deliberadamente premeditadas, apresentam-se apenas. Estão-se desenvolvendo perpetuamente, acontecendo de maneira toda espontânea", o traço de união do 'Estão-se' faz-se necessário? Sem ele não teríamos o mesmo efeito? Muito grata".

Nesse mesmo sentido é a mensagem do leitor Manoel Guimarães:

"Dr. José Maria, salve-me, por favor! É obrigatório o hífen ligando o pronome ao verbo que o precede, mesmo quando o pronome relaciona-se a um verbo posposto (proclítico)? Por exemplo: "Vou-lhe permitir sair mais cedo." "Quer-me fazer o favor de sair?" "Saiu-me fazendo ameaças." Consultei algumas gramáticas, e todas dizem que o hífen é obrigatório para separar o verbo do pronome oblíquo, e não fazem qualquer distinção ou ressalva quanto ao pronome referir-se ao primeiro ou ao segundo verbo. Em Direito, se a norma não distingue, não cabe ao intérprete distinguir; e na gramática? (Pessoalmente, acho que é necessário colocar o hífen, ainda que soe pedante)."

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1) As palavras, em português, têm uma de suas sílabas pronunciada com mais força (sílaba tônica) do que as outras, que são fracas (sílabas átonas). A exceção fica para alguns monossílabos e raros dissílabos, nos quais não há sílabas tônicas, mas apenas átonas.

2) Quanto aos vocábulos átonos, estes, na pronúncia, postam-se sempre na dependência sonora de uma sílaba tônica. Assim, quando se diz "Passe-me o pão, por favor", percebe-se com clareza tal fenômeno, a ponto de, na pronúncia, serem identificadas apenas três palavras, e não seis: "Pásseme opão, porfavor".

3) Quanto aos pronomes pessoais oblíquos átonos, exatamente por não terem autonomia sonora, dependem do verbo por eles acompanhado, cingindo-se a questão a verificar onde a sonoridade melhor aconselha seu posicionamento:

a) em próclise (antes do verbo), como em "O juiz não se conteve";

b) em mesóclise (no meio do verbo), como em "Realizar-se-á o júri, como previsto";

c) em ênclise (depois do verbo), como em "Conteve-se o advogado..."

4) Estudar o melhor lugar para o pronome em relação ao verbo, em tais casos, é assunto para a topologia pronominal ou colocação dos pronomes.

5) De modo mais específico para o caso em estudo, é de se ver que, nas locuções verbais (dois ou mais verbos fazendo o papel de um só), três são as hipóteses, em tese, de colocação dos pronomes:

a) em próclise ao verbo auxiliar, como em "Eu lhes estou mostrando meu trabalho";

b) em ênclise ao verbo auxiliar, como em "Eu estou-lhes mostrando meu trabalho";

c) em ênclise ao verbo principal, como em "Eu estou mostrando-lhes meu trabalho".

6) Não se olvide, ademais, que, em tais casos, o pronome não se refere ao verbo auxiliar ou verbo principal separadamente; ele completa a locução verbal como um todo. Exs.:

a) "As situações estão-se desenvolvendo perpetuamente" (a locução é estão desenvolvendo);

b) "Vou-lhe permitir sair mais cedo" (a locução é vou permitir);

c) "Quer-me fazer o favor de sair?" (a locução é quer fazer).

E se veja que tal caso é totalmente diferente da mera justaposição de dois verbos autônomos, que não compõem uma locução verbal, em que a colocação de pronomes deve estudar cada verbo com seu respectivo pronome. Ex.: "Saiu, fazendo-me ameaças" (saiu e fazendo são verbos autônomos e integram até mesmo orações distintas: saiu e fez-me ameaças).

7) À possibilidade de vir o pronome pessoal oblíquo átono a ocupar mais de uma posição na frase, sem prejuízo de sentido e sem transgressão da disciplina gramatical, Carlos Góis denomina "tipos sintáticos equivalentes de topologia pronominal".

8) Ressalva o mencionado autor, entretanto, que, se, com a alteração de posicionamento do pronome no período, "o sentido for diferente, não haverá tipo sintático equivalente", como é o caso dos seguintes exemplos:

a) "Cumpre-lhe dizer" (isto é, Cumpre a ele dizer);

b) "Cumpre dizer-lhe" (isto é, Cumpre dizer a ele);

c) "Mandou-me arrolar" (o me é agente de arrolar);

d) "Mandou arrolar-me" (o me é paciente).1

9) Com essas anotações iniciais, observa-se que, para alguns autores, se se tem a hipótese de uma locução verbal, "o uso do hífen, nos casos em que o pronome aparece em posição intermediária é considerado optativo". Ou seja, estariam corretas ambas as estruturas:

a) "Eu estou-lhes mostrando meu trabalho";

b) "Eu estou lhes mostrando meu trabalho".

10) Justificam tais gramáticos que, "na verdade, a primeira forma tende a representar a fala lusitana, que encosta o pronome no verbo auxiliar (‘Eu estou-lhes...’), enquanto a segunda forma tende a representar a fala brasileira, que encosta o pronome no verbo principal (‘... lhes mostrando’).2

11) Esse, todavia, não é o entendimento da grande maioria, ou mesmo quase totalidade, dos nossos gramáticos, começando por Júlio Nogueira, em lição para o gerúndio, mas que pode ser estendida para o infinitivo e para o particípio, como verbos principais da locução: "No caso de estar o gerúndio constituindo tempo composto com outro verbo, a partícula pode ficar em várias posições... Não deve, porém, ... ficar solta antes do gerúndio (os visitantes foram se aproximando)".3

12) Ainda sobre o assunto, assim primeiro esclarece Aires da Mata Machado Filho: "escritores brasileiros há que preferem deixar o pronome átono solto entre os elementos constitutivos de locução verbal e da conjugação de tempos compostos". Em seguida, anota o referido autor que, quando se posiciona depois do auxiliar ou depois do principal, o pronome átono vem "sempre a eles ligado por hífen", acrescentando que a ênclise ao auxiliar, nesses casos, não dispensa o traço de união entre o auxiliar e o pronome átono, sob pena de se relacionar, indevidamente, o pronome em próclise ao verbo principal.4 Exs.:

a) "A natureza inteira estava-lhe dando uma festa" (correto);

b) "A natureza inteira estava lhe dando uma festa" (errado);

c) "A natureza inteira estava dando-lhe uma festa" (correto);

d) "A natureza inteira estava dando lhe uma festa" (errado).

13) Nesse mesmo sentido, leciona Édison de Oliveira: "o pronome oblíquo não pode ficar solto entre dois verbos", estando, assim, errada a seguinte construção: "Os torcedores foram se retirando" E, observando que, em tal caso, "reúne-se o pronome oblíquo à forma verbal anterior", manda esse autor assim corrigir tal frase: "Os torcedores foram-se retirando".5

14) De Carlos Góis também é idêntico ensino para a grafia do pronome, quando posto em ênclise ao auxiliar: "O traço de união (hífen ou tirete) assinala que até eles se estende a acentuação do verbo. Constitui por isso grave erro omiti-lo: havia lhe dito por havia-lhe dito".6

16) Ante tais lições, em termos bem práticos vejam-se os seguintes exemplos com a indicação do acerto ou erronia da colocação dos pronomes átonos:

a) "As situações se estão desenvolvendo..." (correto);

b) "As situações estão-se desenvolvendo..." (correto);

c) "As situações estão se desenvolvendo..." (errado);

d) "As situações estão desenvolvendo-se..." (correto);

e) "As situações estão desenvolvendo se..." (errado);

f) "Eu lhe vou permitir sair mais cedo" (correto);

g) "Eu vou-lhe permitir sair mais cedo" (correto);

h) "Eu vou lhe permitir sair mais cedo" (errado);

i) "Eu vou permitir-lhe sair mais cedo" (correto);

j) "Eu vou permitir lhe sair mais cedo" (errado);

l) "Você me quer fazer o favor de sair?" (correto);

m) "Você quer-me fazer o favor de sair?" (correto);

n) "Você quer me fazer o favor de sair?" (errado);

o) "Você quer fazer-me o favor de sair?" (correto);

p) "Você quer fazer me o favor de sair?" (errado)

_____________

1 Cf. GÓIS, Carlos. Sintaxe de Construção. 4. ed. São Paulo: Paulo de Azevedo & Cia. Ltda., 1945, p. 135-136.

2 Cf. CIPRO NETO, Pasquale; INFANTE, Ulisses. Gramática da Língua Portuguesa. 1. ed. São Paulo: Editora Scipione, 1999, p. 559.

3 Cf. NOGUEIRA, Júlio. Programa de Português – 3. série secundária. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1939, p. 232.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas.