Sexta-feira, 28 de novembro de 2014

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Crase antes de pronomes

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

dúvida do leitor

"O leitor Pegoraro envia-nos a seguinte mensagem:

"Dr. José Maria da Costa: Há alguns anos, tive professores que ensinavam a não aplicação de crase antes dos pronomes, principalmente os de tratamento. Gostaria de saber o seu entendimento. Virtualmente grato. Pegoraro"

envie sua dúvida

1) Crase tem por conceito a fusão de duas vogais idênticas: normalmente um a (preposição) fundindo-se com outro a (com freqüência um artigo), o que, na grafia, se representa com um à (a com acento grave). Ex.: Fui à entrega do título.

2) Para os casos mais corriqueiros de substantivos comuns, o mais fácil é substituir mentalmente o substantivo feminino:

a) se aparece ao diante do masculino, então há crase no feminino;

b) se não aparece ao no masculino, então não há crase (nem seu acento indicativo) no feminino. Exs.:

I) – Fui à dentista (porque Fui ao dentista);

II) – Motor a gasolina (porque Motor a óleo).

3) No caso de pronomes de tratamento, vê-se com facilidade que eles não são precedidos de artigo feminino (Ex.: "Vossa Excelência tem zelo pelos seus eleitores", e não "A Vossa Excelência tem zelo pelos seus eleitores".

4) Exatamente porque não são precedidos de artigos femininos, é que se diz que os pronomes de tratamento não admitem crase antes de si. Ex.: "Dirijo-me a Vossa Excelência com todo o respeito".

5) Nesse caso, ainda é oportuno observar que senhora, senhorita e dona são pronomes de tratamento, mas, excepcionalmente, admitem artigo e, por conseguinte, crase antes de si. Ex.: "Dirijo-me à senhora com todo o respeito".

6) Em resumo, quanto aos pronomes de tratamento: não há crase antes deles, com exceção de senhora, senhorita e dona.

7) Quanto aos demais pronomes, o ensino da língua normalmente se faz pelo fornecimento de uma lista daqueles antes dos quais há crase obrigatória, outra lista da crase proibida e uma terceira lista da crase facultativa.

8) Não vejo maior utilidade em um ensino desse modo, e prefiro rememorar a regra básica de que o melhor é substituir um nome feminino por outro masculino. Se, nessa substituição, aparecer ao no masculino, há crase no feminino. Exs.:

I) "Vou à cidade"(porque "Vou ao campo");

II) "Ficaram junto à porta" (porque Ficaram junto ao portão);

III) "Encontrei a menina"(porque Encontrei o menino);

IV) "A paz une as nações"(porque O amor une os povos).

9) Assim, no que tange à questão de crase antes de pronomes, em vez de decorar quais deles admitem crase antes de si e quais os que a rejeitam, melhor é aplicar essa regra geral de crase para antes de substantivos comuns femininos e alterar mentalmente a estrutura da oração, de modo que o pronome se torne masculino.

10) Nesses casos, se aparece ao no masculino, então há crase no feminino; se não aparece ao no masculino, não há crase no feminino:

a) "Fui à tal cartomante"(isso porque se diz "Fui ao tal cartomante");

b) "Dei o livro a esta menina"(isso porque se diz "Dei o livro a este menino");

c) "Referi-me a/à minha amiga"(isso porque se diz "Referi-me a/ao meu amigo").

11) Em síntese: se é possível resolver a questão sem complicar com teorias mirabolantes e listas enfadonhas, é muito melhor: basta raciocinar.

Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas.