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ISSN 1983-392X

Gramatigalhas

por José Maria da Costa

Uso do infinitivo

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

dúvida do leitor

O leitor Marcos Schafran envia-nos a seguinte mensagem:

"Em certos casos, o emprego do infinitivo gera algumas dúvidas. Eis alguns exemplos: 1) Vi dois pássaros voar (ou voarem); 2) Chamei duas pessoas para analisar (ou analisarem) o projeto. Gostaria que Gramatigalhas esclarecesse essa questão."

envie sua dúvida

1) De acordo com Said Ali, a escolha da forma infinitiva depende de cogitarmos somente da ação ou do intuito ou da necessidade de pormos em evidência o agente da ação: no primeiro caso, preferimos o infinitivo não flexionado; no segundo, o flexionado.1

2) Em lição similar, para Hêndricas Nadólskis e Outra, "muitas vezes, a opção entre a forma flexionada ou não flexionada é estilística e não gramatical. Quando mais importa a ação, prefere-se a forma não flexionada; quando se realça o agente da ação, usa-se a forma flexionada".2

3) Celso Cunha, que cita o primeiro autor, em complementação, diz tratar-se, em verdade, de um emprego seletivo, mais do terreno da Estilística do que, propriamente, da Gramática.3

4) Com a atenção voltada para tal advertência, parece mais acertado falar não de regras, mas de tendências que se observam no emprego de uma e de outra forma do infinitivo, muito embora, em determinadas situações, haja proibição ou obrigatoriedade de determinada construção.

5) Com essas premissas, passa-se às ponderações seguintes.

6) Emprega-se o infinitivo impessoal nas locuções verbais, e nelas "não é lícito flexionar o infinitivo".4 Exs.:

a) "Os magistrados não podem fazer sozinhos o trabalho de administrar a justiça"(correto);

b) "Os magistrados não podem fazerem sozinhos o trabalho de administrar a justiça"(errado).

7) Erro muito comum é a utilização do infinitivo flexionado nesses casos, sobretudo quando, entre o verbo auxiliar e o verbo principal, existem outras palavras. Exs.:

a) "Os magistrados não podem, sozinhos, sem a participação de todos os segmentos envolvidos, fazerem o trabalho de administrar a justiça"(errado);

b) "Os magistrados não podem, sozinhos, sem a participação de todos os segmentos envolvidos, fazer o trabalho de administrar a justiça"(correto).

8) Cândido de Figueiredo, exatamente a esse respeito, lembra o seguinte exemplo, encontrado "num livro moderno, premiado oficialmente": "Podem entretanto esses serviços serem estabelecidos..."; e complementa: "Podem serem... não é linguagem de cá".5 Nem de cá, nem de lá, nem de lugar algum.

9) Reitere-se que, nesse caso, quando os verbos componentes da locução estão próximos e o auxiliar é normalmente flexionado, é menos corriqueiro o equívoco de flexão, sendo, assim, incomum um erro como "As certidões deverão acompanharem o traslado da escritura".

10) Todavia, quando os verbos da locução se distanciam, a possibilidade de erro se acentua intensamente, como se dá no seguinte emprego equivocado, modelo de outros tantos: "As certidões deverão, sob pena de invalidade do ato e impedimento para o registro, acompanharem o traslado da escritura"(corrija-se para: deverão... acompanhar).

11) Também se acentua grandemente a possibilidade de erro quando, na locução verbal, o auxiliar se apresenta em forma invariável (como um gerúndio, por exemplo).

12) Nesse campo, aliás, até dispositivos de lei acabam resvalando para o abismo dos equívocos, como se vê no seguinte caso: "O tabelião fica desobrigado de manter, em cartório, o original ou cópias autenticadas das certidões mencionadas nos incisos III e IV, do art. 1°, desde que transcreva na escritura pública os elementos necessários à sua identificação, devendo, neste caso, as certidões acompanharem o traslado da escritura"(art. 2° do Decreto 93.240, de 9.11.86, que regulamentou a Lei 7.433, de 18.12.85, que dispôs sobre os requisitos para lavratura de escrituras públicas).

13) Um simples exercício de junção dos termos da locução verbal revela a necessidade de correção: ...devendo acompanhar... as certidões o traslado da escritura.

14) Também se emprega o infinitivo impessoal, se o sujeito do infinitivo é pronome oblíquo átono. Ex.: "Deixei-os sair".

15) De igual modo se aplica o infinitivo impessoal, se o infinitivo não se refere a sujeito específico. Ex.: "Navegar é preciso".

16) Por fim, usa-se o infinitivo impessoal, se tal infinitivo funciona como complemento de adjetivo. Ex.: "Ordens difíceis de obedecer".

17) Já o infinitivo pessoal é usado, se o infinitivo tem sujeito diferente do sujeito da outra oração. Ex.: "O magistrado repreendeu os patronos, por não procederem com urbanidade na audiência". Essa, aliás, é a velha regra lembrada por Rui Barbosa, formulada de há muito por Jerônimo Soares Barbosa: ".A língua portuguesa usa do infinito pessoal, quando o sujeito do verbo infinito é diferente do do verbo finito, que determina a linguagem infinita".6

18) Também se emprega o infinitivo pessoal como recurso para indeterminar o sujeito. Ex.: "Ouvi falarem inverdades por aí".

19) Silveira Bueno, com supedâneo em lição dada por Soares Barbosa, resume algumas regras para o uso do infinitivo, quer pessoal, quer impessoal.

I) "Quando na frase o verbo principal e o verbo infinito tiverem o mesmo sujeito, o infinitivo deve ser impessoal". Ex.: "Queremos ser felizes".

II) "Quando os dois verbos possuem sujeitos diferentes, usa-se o modo pessoal". Ex.: "Napoleão viu caírem as armas das mãos de seus soldados".

III) Neste último caso, porém, "quando a frase do infinito serve de objeto direto ao verbo principal, podemos empregar o infinito impessoal ainda que ambos tenham sujeitos diferentes", opção essa que fica à escolha do usuário. Ex.: "Napoleão viu cair as armas das mãos de seus soldados".7

20) Vale a pena também relembrar uma primeira regra de Soares Barbosa, abrangente de elevado número de casos: "Usa-se o infinito pessoal quando tem ele sujeito próprio, diverso do de seu verbo regente; e o impessoal, quando os sujeitos são idênticos"; em complementação do resumo, traga-se uma segunda regra de Frederico Diez: "Só se emprega o infinito pessoal quando é possível ser substituído por um modo finito, e, por conseqüência, pode ele subtrair-se à relação de dependência que o prende ao verbo principal".8

21) Ensina Artur de Almeida Torres que "o infinitivo poderá variar ou não, a critério da eufonia, se vier precedido das preposições sem, de, a, para ou em". Exs.:

a) "Vamos com ele, sem nos apartar um ponto"(Padre Antônio Vieira);

b) "... os levavam à pia batismal sem crerem no batismo"(Alexandre Herculano);

c) "Careciam de obstar a que se escrevesse o que faltava do livro"(Alexandre Herculano);

d) "Os manuscritos de Silvestre careciam de serem adulterados"(Camilo Castelo Branco);

e) "Obrigá-los a voltar o rosto contra os árabes"(Alexandre Herculano);

f) "... obrigava a trabalharem gratuitamente"(Alexandre Herculano);

g) "... fanatizados que aparecem sempre para justificar o bom quilate da novidade"(Camilo Castelo Branco);

h) "... tantos que nasceram para viverem uma vida toda material"(Alexandre Herculano).9

22) Resguardados determinados parâmetros mínimos de correção e de bom senso, vale trazer à colação a frase de José Oiticica, de que Aires da Mata Machado Filho lamentou não ter sido o autor, restando-lhe apenas a satisfação de repetir: "Mandem os gramáticos às favas e empreguem o infinitivo à vontade".10

23) Oportuno é refletir sobre o fato de que, após indicar alguns caminhos para o emprego de tal forma verbal, Júlio Nogueira assim conclui sua lição a respeito: "Além das sumárias indicações que aí ficam, difícil será estabelecer regras seguras. É este um dos assuntos que têm dividido os competentes na matéria, dando lugar a fortes dissídios. Em alguns casos a preferência entre a forma invariável e a variável é apenas de intuição natural, por eufonia, orientação perigosa, pois o que a uns parece agradável ao ouvido, a outros soa mal. Nisto, como no mais, os clássicos não são acordes, nem podem, pela prática generalizada, servir de modelo".11

24) E se remate com a observação de Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante de que "o infinitivo constitui um dos casos mais discutidos da língua portuguesa", e "estabelecer regras para o uso de sua forma flexionada, por exemplo, é tarefa difícil", e, "em muitos casos, a opção é meramente estilística".12

25) Feitas essas considerações, volta-se aos exemplos do leitor:

a) "Vi dois pássaros voar"(correto – ver item 19, parte final);

b) "Vi dois pássaros voarem"(correto – ver item 19, parte final);

c) "Chamei duas pessoas para analisar o projeto"(correto – ver item 21);

d) "Chamei duas pessoas para analisarem o projeto"(correto – ver item 21).

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1 Apud CUNHA, Celso. Gramática Moderna. 2. ed. Belo Horizonte: Editora Bernardo Álvares S/A, 1970. p. 230.

2 Cf. NADÓLSKIS, Hêndricas; TOLEDO, Marleine Paula Marcondes Ferreira de. Comunicação Jurídica. 2. ed. São Paulo: Edição dos Autores, 1998. p. 125.

3 Cf. CUNHA, Celso. Op. cit., nota 29.

4 Cf. MACHADO FILHO, Aires da Mata. .Análise, Concordância e Regência.. In: Grande Coleção da Língua Portuguesa. 1. ed. São Paulo: co-edição Gráfica Urupês S/A e EDINAL . Editora e Distribuidora Nacional de Livros Ltda., 1969. vol. 2, p. 705.

5 Cf. FIGUEIREDO, Cândido de. Falar e Escrever. 4. ed. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1941. vol. II, p. 168.

6 Cf. BARBOSA, Rui. Parecer sobre a Redação do Código Civil. Rio de Janeiro: edição do Ministério da Educação e Saúde, 1.949. p. 5.

7 Cf. BUENO, Silveira. Português pelo Rádio. São Paulo: Saraiva & Cia., 1938. p. 96-100.

8 Apud PEREIRA, Eduardo Carlos. Gramática Expositiva para o Curso Superior. 15. ed. São Paulo: Monteiro Lobato & Cia., 1924. p. 338-339.

9 Cf. TORRES, Artur de Almeida. Moderna Gramática Expositiva. 18. ed. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1966. p. 251-252.

10 Cf. MACHADO FILHO, Aires da Mata. .Novas Lições de Português.. In: Grande Coleção da Língua Portuguesa. 1. ed. São Paulo: co-edição Gráfica Urupês S/A e EDINAL . Editora e Distribuidora Nacional de Livros Ltda., 1969. vol. 1, p. 324.

11 Cf. NOGUEIRA, Júlio. Programa de Português . 3ª série secundária. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1939. p. 219-220.

12 Cf. CIPRO NETO, PASQUALE; INFANTE, Ulisses. Gramática da Língua Portuguesa. 1. ed. São Paulo: Editora Scipione, 1999. p. 491.
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Manual de Redação Jurídica
José Maria da Costa

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas.